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Discurso
RICOEUR, Paul. La métaphore vive. Paris: Seuil, 1975.
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O último estudo tem por ambição explorar os confins filosóficos da pesquisa, cujo centro de gravidade se deslocou da retórica para a semântica e dos problemas de sentido para os problemas de referência, o que engajou, sob forma de postulados, um certo número de pressuposições filosóficas que precisam ser explicitadas.
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A estratégia da presente estudo será fazer progredir conjuntamente a investigação sobre qual ontologia está implicada e sobre o modo de implicação em ação no jogo do implícito e do explícito, o que exige uma decisão geral concernente à unidade de conjunto dos modos de discurso, em favor de um relativo pluralismo das formas e dos níveis de discurso.
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As três primeiras seções constituem um apelo pela descontinuidade entre discurso especulativo e discurso poético, e uma refutação de algumas das maneiras errôneas de compreender o elo de implicação entre discurso metafórico e discurso especulativo.
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O primeiro contra-exemplo à hipótese da diferença entre discurso filosófico e discurso poético é fornecido pelo tipo de especulação que Aristóteles aplicou à unidade analógica das significações múltiplas do ser, e a questão é saber se o discurso especulativo é de alguma forma induzido pelo discurso poético quando introduz uma modalidade intermédia entre a univocidade e a equivocidade.
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A análise do Tratado das Categorias e da Metafísica mostra que a plurivocidade produzida pelo discurso especulativo é de outra ordem que o sentido múltiplo produzido pela enunciação metafórica, pois a equivocidade regulada do ser e a equivocidade poética se movem em planos radicalmente distintos.
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A objeção de que as pretendidas categorias de pensamento não são senão categorias de língua disfarçadas, formulada por Benveniste, não anula a questão de saber segundo qual princípio a reflexão filosófica, aplicando-se ao ser gramatical, produz a sucessão das significações do termo ser, o que constitui uma mise en ordre que se deu a pensar como analogia.
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Uma leitura lógica do Tratado das Categorias mostra que sua articulação lógica pode ser reapreendida, e que a distinção entre homônimos, sinônimos e parônimos, que introduz uma classe intermediária, serve de fio condutor para a derivação progressiva das categorias por enfraquecimento dos critérios, o que constitui o problema da analogia de forma implícita.
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O conceito de analogia de atribuição, que designa o elo de derivação progressivamente relaxado que Aristóteles delimita pela predicação essencial e pela homonímia pura, permanece em Aristóteles como um problema hipostasiado em resposta, pois a referência a um termo primeiro, embora alegada, não mostra por que deve haver outros termos além do primeiro e por que eles são tais quais são.
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A leitura aporética de Aristóteles, que insiste sobre o caráter de “ciência buscada” da ontologia, mostra que a aporia, se aporia houver, procede de uma visada, de uma demanda, de uma exigência cuja originalidade importa discernir, e que é porque a ontologia visa uma ciência não genérica do ser que seu fracasso mesmo é específico.
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É de considerações propriamente teológicas, aplicadas às “realidades separadas”, que a problemática da unidade recebe sua perspectiva, e a questão se torna mais premente de saber como a ontologia responde a essa solicitação, o que fornece um exemplo paradigmático da atração entre esferas diferentes de discurso.
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A teoria da analogia, que os medievais desenvolverão a partir da leitura de Aristóteles, nasce da exigência interna de responder à proposição de unidade que vem do discurso teológico, e seu uso no discurso onto-teológico, embora apresente dificuldades consideráveis, preserva o distanciamento inicial entre o discurso especulativo e o discurso poético.
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A doutrina tomista da analogia, que se propõe a estabelecer o discurso teológico ao nível de uma ciência e a subtraí-lo inteiramente às formas poéticas do discurso religioso, enfrenta o problema de estender à questão dos nomes divinos a problemática da analogia suscitada pela equivocidade da noção de ser.
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A solução tomista, que distingue entre a analogia de proporção e a analogia de proporcionalidade, e que depois, com a descoberta do ser como ato, faz da causalidade criadora o fundamento ontológico da comunicação de ser que torna possível o relato analógico, é marcada por um ascetismo da denominação que requer a exclusão da poesia.
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A distinção entre a analogia propriamente dita, que se regula sobre a prioridade segundo a coisa, e a metáfora, que se regula sobre a prioridade segundo a significação, mostra que a linha é traçada mais firmemente entre a analogia e a metáfora no lugar mesmo da maior proximidade, onde o jogo cruzado da analogia e da metáfora se focaliza no caráter da significação do nome.
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Uma modalidade toda diferente, e mesmo inversa, de implicação da filosofia na teoria da metáfora é considerada, que coloca as pressuposições filosóficas na origem mesma das distinções que tornam possível um discurso sobre a metáfora, invertendo o modo de argumentar em filosofia e fazendo do movimento inconfesso da filosofia e do jogo despercebido da metáfora objetos de suspeita.
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A afirmação de Heidegger de que “o metafórico só existe no interior das fronteiras da metafísica” é examinada em seu contexto, onde se mostra que a metáfora visada não é a metáfora poética, mas a metáfora filosófica, e que a distinção do próprio e do figurado é tributária de uma interpretação metafísica que a própria enunciação heideggeriana, com suas metáforas vivas, vem desmentir.
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A “Mythologie blanche” de Derrida aprofunda a crítica heideggeriana ao mostrar que a eficácia da metáfora usada no discurso filosófico se dissimula no “destaque” do conceito, e que o movimento de idealização que faz passar do sentido próprio sensível ao sentido próprio espiritual é o mesmo que constitui a metafísica, de modo que a metáfora usada e a formação do conceito estariam em conivência.
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A crítica à tese da conivência entre metáfora usada e conceito metafísico apoia-se na análise semântica que mostra que a metáfora lexicalizada não é mais uma metáfora, mas se adenda à significação literal, e que a distinção do literal e do figurado é uma distinção de emprego no discurso, e não uma oposição metafísica entre o próprio e o impróprio.
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A distinção entre o tropo por “necessidade e extensão” (catacrese) e a metáfora propriamente dita permite compreender que a criação de significações novas no discurso filosófico, ligada ao surgimento de uma nova maneira de questionar, coloca a linguagem em estado de carência semântica, ao que a metáfora lexicalizada responde numa função de suplência, mas a reanimação de uma metáfora morta é uma operação positiva de deslexicalização que equivale a uma nova produção de metáfora.
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A conexão pretendida entre o casal metafórico do próprio e do figurado e o casal metafísico do visível e do invisível não é necessária, pois a teoria da tensão, ao colocar a metáfora no plano da frase e da impertinência semântica, é compatível com todos os erros calculados suscetíveis de fazer sentido, e o campo metafórico em seu conjunto está aberto a todas as figuras que jogam sobre as relações do semelhante e do dissemelhante em qualquer região do pensável.
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A dialética que se esboça aqui reconhece que o discurso especulativo tem sua possibilidade no dinamismo semântico da enunciação metafórica, mas que ele tem sua necessidade em si mesmo, na mise en œuvre dos recursos de articulação conceitual que procedem das estruturas mesmas do espírito, e que ele não pode responder às virtualidades semânticas da enunciação metafórica senão oferecendo-lhe os recursos do espaço de articulação que ele tira de sua própria constituição.
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O ganho em significação que resulta da enunciação metafórica é um ganho em sentido e um ganho em referência, mas ele não é ainda um ganho conceitual, na medida em que a inovação semântica permanece presa no conflito do “mesmo” e do “diferente”, constituindo a esboço e a demanda de uma instrução pelo conceito.
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A análise do ato de significação, como um entrelaçamento entre atos de predicação e atos de referência, mostra que o dinamismo semântico do discurso comum é um trabalho inacabado que a enunciação metafórica leva ao seu cúmulo, operando sobre dois campos de referência e transferindo um potencial semântico de um campo familiar para um campo inédito.
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O discurso especulativo, que é aquele que põe em lugar as noções primeiras e os princípios que articulam a título primordial o espaço do conceito, é a condição de possibilidade do conceitual, pois é ele que, por sua potência de articulação, permite que a visada significante do conceito se arranque às interpretações, esquematizações e ilustrações imaginantes que a acompanham.
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A descontinuidade das modalidades semânticas não implica que a ordem conceitual abole ou destrói a ordem metafórica, e a interpretação pode ser concebida como uma modalidade de discurso que opera na intersecção das duas movimentações, respondendo ao mesmo tempo à noção do conceito e à intenção constituinte da experiência que busca se dizer sobre o modo metafórico.
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A explicitação ontológica do postulado da referência, que não é mais uma tarefa de linguística, mas de filosofia, consiste em pensar o relato da linguagem à realidade como um todo, e a capacidade reflexiva da linguagem de se colocar à distância e se considerar como relacionada ao conjunto do que é, articula, em um outro discurso, os postulados da referência.
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O postulado da referência desdobrada, que é a visada semântica própria ao discurso poético, implica um uso crítico do conceito de realidade, onde a suspensão da referência ordinária é a condição negativa para o desenvolvimento de uma referência de segundo grau, que é regulada pelo poder de redescoberta que se prende a certas ficções heurísticas.
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A noção de “significar as coisas em ato”, que Aristóteles associa ao poder da metáfora de “colocar sob os olhos”, oferece o fio condutor para uma explicitação ontológica da referência metafórica, onde o discurso especulativo é convidado a retomar a distinção do ser como potência e do ser como ato para pensar a eclosão do aparecer.
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A dialética entre a experiência de pertencimento, que a poesia articula e preserva através do paradoxo da cópula “ser e não ser”, e o poder de distanciamento, que é constitutivo da instância crítica e que o discurso especulativo leva ao seu mais alto grau de reflexão, constitui o horizonte último de uma filosofia que se coloca à escuta do discurso poético.
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