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Síntese Prática

P. Ricœur, Finitude et Culpabilité, I, L’homme faillible

  • A segunda etapa de uma antropologia da desproporção é a passagem do teórico ao prático, respondendo a um desejo de totalidade não satisfeito pela reflexão transcendental, que é abstrata e limitada por partir da coisa, faltando-lhe o mundo das pessoas e todos os aspectos afetivos e práticos que constituem o mundo da vida.
  • A totalidade humana, que era pressentida na visão global dos mitos de “mélange” e na retórica da “miséria”, torna-se problema filosófico para a reflexão transcendental, que deve ser completada, e a aproximação a essa totalidade deve ser feita por graus sucessivos, tomando a ideia de totalidade como uma tarefa e uma ideia diretriz.
  • A teoria da vontade constitui a etapa principal entre o “puro” e o “total”, e a triade transcendental da perspectiva, do sentido e da síntese servirá de célula melódica para todos os desenvolvimentos ulteriores, orientando a aproximação da totalidade humana.
  • Todos os aspectos de finitude prática podem resumir-se na noção de caráter, todos os aspectos de infinitude prática na noção de felicidade, e a mediação prática que prolonga a imaginação transcendental é a constituição da pessoa no respeito, sendo a fragilidade dessa mediação o alvo da análise.

1. O caráter

  • A noção de caráter deve ser abordada por graus a partir da noção de perspectiva, sendo a perspectiva afetiva o primeiro aspecto a ser restituído, pois o desejo é uma forma de receptividade análoga à percepção, mas específica, chamada inclinação, e sua finitude consiste na confusão e opacidade que obscurecem a clareza intencional do desejo.
  • A cênestesia, ou sentimento global do corpo, é o equivalente afetivo do ponto de vista, revelando que o corpo não é pura mediação, mas também imediato para si mesmo, e essa fermeture afetiva é a diferença originária e incommunicável de si, que é o solo do amor-próprio.
  • A perspectiva prática revela seu reverso de impotência na aquisição de hábitos, pois toda potência tem um reverso de impotência, e a habituação, ao mesmo tempo que liberta a atenção, fixa os gostos e aptidões, contraindo o campo de disponibilidade e inscrevendo uma lei de materialidade e de perseveração no ser.
  • O caráter é a totalidade finita da existência, a abertura finita da existência tomada como um todo, e não deve ser confundido com um retrato ou uma fórmula caracterológica, mas é a orientação perspectivista do campo total de motivação, que é a abertura de princípio a todo o humano, mas segundo uma fórmula de vida singular e inimitable.
  • O caráter, como origem imóvel de todos os pontos de vista, é imutável e recebido, sendo indistinguível do fato do nascimento, que designa o “já-aí” do caráter, e essa origem não escolhida de todos os escolhas, quando objetivada, aparece como uma fatalidade exterior, mas a compreensão filosófica a reinscreve na dialética de abertura e estreiteza.

2. A felicidade

  • A desproporção entre o sentido e a perspectiva culmina na desproporção entre a felicidade e o caráter, e a felicidade não é uma soma de prazeres, mas a visada total de todos os aspectos de transgressão, o horizonte de todas as visadas humanas, que só pode ser discernido pela exigência de totalidade da razão.
  • A ideia de totalidade, que é uma regra para o pensamento teórico, habita o querer humano, tornando-se a origem da desproporção extrema que distende o agir humano entre a finitude do caráter e a infinitude da felicidade, que é designada em experiências privilegiadas que indicam uma direção, uma “consciência de direção”.
  • A razão exige a totalidade, e o instinto de felicidade, como sentimento que antecipa o cumprimento, assegura que essa razão é interior à destinação humana, e o caráter e a felicidade são os dois polos da obra humana, sendo que a felicidade é o termo infinito para o qual o campo total de motivação está orientado.

3. O respeito

  • A síntese do caráter e da felicidade é a pessoa, mas essa síntese não é dada na imediatidade, sendo uma síntese projetada, uma tarefa, um ideal, e a pessoa é visada como um fim existente, uma “existência tendo em si mesma um valor absoluto”, cuja constituição ontológica é a humanidade.
  • A pessoa, como a coisa, é uma síntese operada, mas seu projeto é o da humanidade como qualidade humana do homem, e é a partir dessa ideia que se pode refletir o caráter como perspectiva singular sobre a humanidade e a felicidade como termo extremo da obra humana.
  • A síntese da pessoa se constitui no respeito, um sentimento moral específico que é o “terceiro termo” paradoxal, intermediário entre a sensibilidade e a razão, e que, como a imaginação transcendental, é um “arte oculta” que se rompe ao se refletir, revelando a dupla pertença ao mundo sensível e ao mundo inteligível.
  • A análise kantiana do respeito, embora presuma uma sensibilidade decaída e opere no dualismo ético, contém a indicação de um “acesso” da lei à sensibilidade, de uma afinidade positiva do desejo para a racionalidade, que remete a uma constituição mais original do Gemüt.
  • Para superar o dualismo ético em direção à desproporção prática originária, deve-se recolocar a dualidade íntima do respeito no prolongamento da dualidade transcendental da perspectiva e do verbo, explorando a polaridade prática do caráter e da felicidade, que não pressupõe nenhuma decadência, como raiz antropológica de todo dualismo ético.
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