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Miséria
P. Ricœur, Finitude et Culpabilité, I, L’homme faillible
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A primeira parte da obra é consagrada ao conceito de falibilidade, partindo da hipótese de que a reflexão pura pode atingir um limiar de inteligibilidade onde a possibilidade do mal parece inscrita na constituição mais íntima da realidade humana, designando uma característica do ser do homem que o expõe a uma infinidade de faltas.
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A segunda hipótese de trabalho é que a característica global da realidade humana onde se inscreve a falibilidade consiste em uma certa não-coincidência do homem consigo mesmo, uma “desproporção” de si para si que seria a ratio da falibilidade, tornando o homem a única realidade que apresenta a constituição ontológica instável de ser maior e menor do que ele mesmo.
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A desproporção é buscada no paradoxo cartesiano do homem finito-infinito, mas a ligação que Descartes estabelece entre este paradoxo e uma psicologia das faculdades é enganosa, sendo necessário renunciar à ideia de ligar o finito a uma faculdade e o infinito a outra, e aceder a uma apreensão mais ampla e radical do paradoxo.
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A característica ontológica de ser-intermediário consiste no fato de que o ato de existir do homem é o próprio ato de operar mediações entre todas as modalidades e níveis da realidade fora dele e dentro dele, e a intermedialidade do homem só pode ser descoberta pelo desvio da síntese transcendental da imaginação ou pela dialética entre certeza e verdade.
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A hipótese de trabalho sobre o paradoxo do finito-infinito implica que se deve falar tanto de infinitude quanto de finitude humana, e o pleno reconhecimento dessa polaridade é essencial para a elaboração dos conceitos de intermediário, desproporção e falibilidade, cujo encadeamento foi mostrado.
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A determinação do ponto de partida em uma antropologia filosófica colocada sob a ideia diretriz da falibilidade não pode partir de um termo simples, mas do composto, da relação finito-infinito, da totalidade do homem, ou seja, da visão global de sua não-coincidência consigo mesmo, e o progresso do pensamento se dá por uma elucidação filosófica progressiva desta visão global.
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A filosofia não começa nada absolutamente, pois é levada pela não-filosofia e vive da substância do que já foi compreendido sem ser refletido, e a pré-compreensão do homem falível é buscada no patético da “miséria”, que é como a matriz de toda filosofia que faz da desproporção e da intermedialidade a característica ôntica do homem.
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O começo metódico em filosofia só pode ser um começo na elucidação, pelo qual a filosofia recomeça, e para aceder a este começo metódico é necessário operar uma redução do patético e iniciar uma antropologia verdadeiramente filosófica por meio de uma reflexão de estilo transcendental, que fala não de mim, mas do objeto diante de mim e remonta às suas condições de possibilidade.
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Com este duplo começo, pré-filosófico e filosófico, patético e transcendental, o transcendental fornece o primeiro momento de uma antropologia filosófica, e todo o resto da filosofia da falibilidade consistirá em preencher progressivamente o desvio entre o patético e o transcendental, recuperando filosoficamente toda a rica substância que não passa na reflexão transcendental.
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A recuperação progressiva do patético inicial da “miséria” na reflexão pura se dá por um esforço de alargamento gradual da reflexão a partir de uma posição inicial de estilo transcendental, e a reflexão sobre a ação e depois sobre o sentimento tenta preencher o desvio, tendo a reflexão transcendental sobre o objeto como guia nessas duas peripécias.
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O primeiro livro conduzirá até seu ponto extremo o estilo reflexivo, da desproporção do conhecer à do agir e desta à do sentir, e nesse limite de dilatação da reflexão será possível provar o teor do conceito de falibilidade, que constitui a ideia reguladora deste movimento de pensamento.
2. O patético da “miséria”
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A meditação patética sobre a miséria surgiu com Platão e Pascal nas margens da filosofia, e toda a pré-compreensão da miséria já está nos mitos do Banquete, do Fedro e da República, onde a alma, por ser o ser do meio, não é a Ideia, mas também não é coisa perecível, sendo antes o movimento mesmo do sensível para o inteligível.
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A miséria da alma se mostra no fato de que ela é perplexa e busca, e sua aporia e busca atestam que a alma está em trabalho quanto ao ser, opinando e se enganando, sendo visada e não visão, tendência e não contato, e seu regime de transição entre o que passa e o que permanece só pode ser dito pela alegoria e pelo mito.
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O simbolismo político da República, que compõe a alma de três partes como a Cidade, elide o mito enquanto essa imagem estática não for remetida ao movimento do élan para as Ideias e para o Bem, mas a consideração do devir da alma está em filigrana na imagem imobilizada quando Platão fala em considerar a formação de um Estado.
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A justiça, no livro IV, é a forma da unidade no movimento das partes, consistindo em “tornar-se de múltiplo um”, e a estrutura tripartite descoberta no termo suposto realizado dessa síntese faz do equilíbrio das três funções o lugar de uma norma de justiça.
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Se, em vez de se portar ao termo do movimento, se considera a alma em seu movimento mesmo para a unidade e a ordem, a imagem se põe em movimento e descobre-se um sistema de tensões, onde o terceiro termo, o thumós, o coração, é a função instável e frágil por excelência, submetido à dupla atração da razão e do desejo.
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Em uma estática da alma, o intermediário é um “meio” entre duas funções, mas em uma dinâmica ele vai ser um “melange”, e a alegoria que convinha à estática remete ao mito que pode dizer a gênese do intermediário, e a imagem do mélange dá a forma dramática do relato ao tema mais estático da composição tripartite.
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Os mitos do Banquete e do Fedro são figuras pré-filosóficas de uma antropologia da falibilidade pelo caráter indiferenciado do tema da miséria, que é indivisamente limitação originária e mal original, e o mito é a nebulosa que a reflexão deverá cindir.
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No Banquete, Eros, o filósofo, é o híbrido por excelência do Rico e da Pobreza, e esta figura anuncia a imaginação transcendental, pois envolve toda geração segundo o corpo e segundo o espírito, sendo a lei de toda obra que é riqueza do Sentido e pobreza da Aparência bruta.
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O mito do Banquete contém mais em potência do que a reflexão, e esta reserva inesgotável de sentido está tanto do lado de Poros quanto do lado de Penia, e a indigência ôntica começa a se cindir no Fedro em dois momentos míticos, um de fragilidade e outro de decadência.
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A fragilidade que precede toda queda é a dos atrelamentos alados que figuram as almas humanas, já compostas e com um princípio de discordância, e o mito de falibilidade vira, no claro-escuro, em mito de queda, onde a asa que fazia subir se enruga e cai, e o esquecimento da Verdade obscurece a alma.
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Pelo deslizamento da fragilidade ao vertigem e do vertigem à queda, o mito platônico anuncia a meditação kierkegaardiana, que oscilará entre duas interpretações da gênese do mal, mas optará pela ideia de que o mal é surgimento, salto, posição.
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O patético pascaliano, de outro tom, é uma apologia e uma paramythia que parte de um esquema espacial da posição do homem entre o muito grande e o muito pequeno, e a astronomia serve para “inflar nossas concepções”, mas o além do imaginável só serve para fazer a imaginação se perder no abismo.
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O simbolismo espacial dos dois infinitos suscita seu próprio ultrapassamento em direção a um esquema existencial de desproporção, onde o infinitamente grande se torna o “fim das coisas” e o infinitamente pequeno o “princípio” e o “nada de onde ele é tirado”, situando o homem entre a origem e o fim.
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A miséria permanece ainda um tema indiviso, pois a própria situação do homem entre os extremos é descrita como dissimulante por si mesma, mas o divertimento é nossa falta, e a retórica da miséria não parece poder ir além do paradoxo de uma condição dissimulante-dissimulada, que fica como um círculo vicioso.
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É tarefa da reflexão pura compreender a falibilidade e, ao compreendê-la, articular em figuras distintas a nebulosa da “miséria”.
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