estudos:ricoeur:ec:revelacao
Revelação
RICŒUR, Paul. Écrits et conférences II. Paris: Éd. du Seuil, 2008.
Hermenêutica da ideia de revelação
-
A questão da revelação é decisiva porque constitui uma questão última ou primeira da fé e porque está obscurecida por falsos debates que exigem a reconquista da própria pergunta.
-
A oposição entre uma revelação autoritária e opaca e uma razão supostamente transparente deve ser superada por uma dialética viva entre revelação e razão, capaz de engendrar uma inteligência da fé.
1. As expressões originárias da revelação
-
O conceito de revelação deve ser retificado para além de sua acepção autoritária e opaca.
-
O conceito opaco de revelação nasce da confusão entre confissão de fé, dogmática eclesial e doutrinas impostas pelo magistério, fazendo das verdades reveladas um corpo rígido de proposições dogmáticas.
-
O trabalho dogmático conserva sua especificidade, mas permanece derivado e subordinado ao nível mais originário do discurso da fé e da confissão de fé.
-
A filosofia tem mais a aprender com o discurso não especulativo da fé do que com uma teologia já organizada em categorias filosóficas.
-
O retorno à origem do discurso teológico revela uma variedade de expressões da fé e substitui o conceito monolítico de revelação por um conceito plural, polissêmico e analógico.
a) O discurso profético
-
O discurso profético parece oferecer o eixo da revelação porque se apresenta como palavra pronunciada em nome de outro, fazendo da revelação a palavra de outro por trás da palavra do profeta.
-
O modelo profético, se isolado dos demais discursos da fé, estreita a revelação ao conceito de inspiração como voz por trás da voz, favorecendo a ideia de escritura ditada e de revelação como predição do fim da história.
b) O discurso narrativo
-
A revelação não pode ser identificada apenas à profecia, pois o discurso narrativo ocupa lugar decisivo no Pentateuco, nos Evangelhos sinóticos e nos Atos dos Apóstolos.
-
A narrativa desloca a atenção do narrador para os acontecimentos narrados, pois nela os eventos parecem contar-se a si mesmos e Deus aparece como actante último no interior do próprio relato.
-
O discurso narrativo convida a meditar eventos como a eleição de Abraão, o Êxodo, a unção de David e a Ressurreição de Cristo.
-
Esses eventos revelam porque fazem época, fundam uma comunidade e a libertam de um grande perigo, transcendendo o curso ordinário da história.
-
A fé de Israel confessou Deus ao organizar sagas, tradições e narrativas em torno de eventos nucleares dos quais irradia o sentido.
-
A confissão narrativa reconhece a marca de Deus na história antes de reconhecê-la na palavra, pois a palavra narrativa apenas leva ao linguagem o evento fundador.
-
A especificidade narrativa impede reduzir a revelação a eventos de palavra, exigindo o realismo do evento histórico contra o idealismo de uma teologia centrada apenas na palavra.
-
A inteligência narrativa e profética da história não se transforma em saber sistemático, pois a segurança dos eventos fundadores e a ameaça profética só se mantêm juntas pela esperança.
-
A polaridade entre narração e profecia poderia reduzir a revelação a um plano providencial de Deus, caso não fossem reconhecidas outras modalidades do discurso bíblico.
-
A revelação bíblica inclui modalidades que não se deixam absorver pela tensão entre narração e profecia.
-
A Torah ou instrução ocupa o primeiro lugar entre essas modalidades.
c) O discurso prescritivo
-
A dimensão prática da revelação corresponde simbolicamente à vontade de Deus, não como plano especulativo, mas como prescrição a ser praticada.
-
A tradução de Torah por Lei é enganosa quando transforma a instrução divina em imperativo exterior e conduz a uma concepção da revelação como heteronomia.
-
Os textos legislativos são colocados na boca de Moisés e no quadro narrativo do Sinai, mostrando que a instrução está organicamente ligada à memória da libertação do Egito.
-
A Lei pertence a uma relação mais ampla que comando e obediência, pois a Aliança envolve eleição, promessa, ameaça, meditação, veneração e ruminação interior.
-
A Torah possui dinamismo histórico, pois alterna entre a multiplicação de prescrições e a concentração no coração dos mandamentos, orientando-se para uma lei gravada no coração.
-
A dimensão ética da revelação consiste numa exigência de perfeição que interpela a vontade, orienta a história da prática e engendra a dinâmica das instituições.
d) O discurso de sabedoria
-
A sabedoria constitui uma dimensão específica da revelação, pois ultrapassa o quadro da Aliança e visa todo ser humano em sua busca de bem viver.
-
A sabedoria enfrenta as situações-limite da solidão, da culpa, do sofrimento e da morte, interpretando-as como nada humano, incompreensibilidade de Deus, silêncio ou ausência de Deus.
-
A sabedoria articula éthos e cosmos no ponto de sua discordância, ensinando não a evitar ou negar o sofrimento, mas a suportá-lo ativamente.
-
O livro de Job mostra a revelação sapiencial como horizonte de sentido em que concepção do mundo e concepção da ação se fundem numa nova qualidade ativa do sofrer.
-
O desígnio de Deus, no horizonte da sabedoria, deixa de ser plano ou programa e torna-se possibilidade de esperar apesar de tudo, como segredo inatribuível de Deus.
-
A revelação difere conforme os modos de discurso, pois o profeta reivindica inspiração divina, enquanto o sábio participa de uma sabedoria que o precede.
-
A sabedoria é dom de Deus e realidade divina personificada, de modo que sua objetividade corresponde, por outro caminho, à subjetividade da inspiração profética.
-
As convergências entre profecia e sabedoria na literatura apocalíptica não anulam a distinção analógica entre os modos do discurso religioso.
e) O discurso do hino
-
O gênero lírico dos Salmos, composto por hinos, súplicas e ações de graças, eleva a narração, a queixa e a sabedoria à forma da invocação dirigida a Deus em segunda pessoa.
-
O Saltério é revelado não porque Deus ponha palavras na boca de seus autores, mas porque os sentimentos da louvação, da súplica e da gratidão são formados pelo próprio objeto que manifestam.
-
A revisão do percurso permite extrair as consequências da diversidade originária dos discursos da fé.
-
A análise da revelação deve partir das expressões originárias de uma comunidade de fé, e não de proposições teológicas de segundo grau como a existência, a imutabilidade ou a onipotência de Deus.
-
As formas bíblicas de discurso não são simples revestimentos literários de conteúdos teológicos, pois a confissão de fé é modulada diretamente por narrativas, profecias, leis, sabedorias e hinos.
-
A revelação bíblica deve ser compreendida como conceito polissêmico, polifônico e analógico, cujo primeiro análogo é o discurso profético, mas que se amplia pelas modalidades narrativa, prescritiva, sapiencial e lírica.
-
A revelação nunca se deixa dominar por um saber, pois a ideia de segredo constitui seu limite interno.
-
O Deus que se mostra permanece oculto, e o episódio do arbusto ardente exprime nuclearmente que o nome divino revelado é também o nome indisponível e inominável.
-
A transformação do nome divino em enunciado ontológico positivo conduz à onto-teologia e obscurece a dialética do Deus oculto que se mostra, permitindo contestar toda autoridade totalitária fundada na posse de verdades reveladas.
2. A resposta de uma filosofia hermenêutica
-
A filosofia pode receber a reivindicação da revelação como chamado não constrangedor, desde que critique sua própria pretensão de transparência plena da verdade e autonomia total do sujeito pensante.
-
A crítica da pretensão filosófica permite transformar a reivindicação indevida da revelação em apelo não coercitivo.
-
A via da teologia racional deve ser afastada, pois a revelação foi reconduzida ao discurso pré-teológico da fé e às experiências de manifestação que dispensam provas filosóficas da existência de Deus.
-
As experiências de manifestação e dependência podem entrar em ressonância com os modos originários da fé sem precisar referir-se diretamente a Deus ou demonstrá-lo.
-
A via do existencialismo da miséria também deve ser afastada, pois a filosofia não fornece perguntas para que a religião ofereça respostas, nem deve recorrer ao Deus tapa-buracos.
-
A reflexão deve voltar-se para estruturas de interpretação da experiência humana nas quais se compreende uma revelação em sentido arreligioso, capaz de entrar em consonância com a revelação bíblica.
-
A análise filosófica possui dois versantes: o espaço de manifestação das coisas e a compreensão de si do sujeito que se deixa reger pelas coisas manifestadas e ditas.
-
A verdade como manifestação precede a crítica da autonomia, pois só ela permite compreender uma dependência humana que não se reduz à heteronomia.
a) O mundo do texto e o ser-novo
-
A investigação do espaço de manifestação das coisas parte da manifestação do mundo pelo texto e pela escrita, e não diretamente da fenomenologia da percepção ou do cuidado.
-
A cultura do livro amplia a experiência do mundo e corresponde ao fato de que a palavra revelada chega por escrituras a interpretar.
-
A função revelante do discurso poético exige três conceitos preparatórios.
-
A escrita não é simples fixação da fala viva, mas autonomia do discurso diante da intenção do autor e do horizonte do primeiro destinatário.
-
A obra é a configuração do discurso por gêneros literários, que lhe conferem estilo e o exteriorizam como ícone verbal.
-
O mundo do texto é a referência do discurso, isto é, não a intenção do autor nem a estrutura imanente, mas o mundo que o texto desdobra diante de si.
-
A função revelante do discurso poético funda-se na autonomia da escrita, na exteriorização da obra e na referência a um mundo, abrangendo os gêneros profético, narrativo, legislativo, sapiencial e hínico.
-
A função poética suspende a referência descritiva de primeiro grau e libera uma referência mais originária, pela qual a linguagem restitui a pertença a uma ordem das coisas anterior à oposição entre sujeito e objeto.
-
A função poética contém uma dimensão de revelação em sentido não religioso e não bíblico, capaz de ressoar com aspectos da revelação bíblica.
-
A função poética recapitula a autonomia do texto, a exterioridade da obra e a transcendência do mundo do texto, acrescentando a referência desdobrada que faz emergir o solo primordial da existência.
-
A função poética é revelante porque encarna uma verdade como manifestação, não como adequação, verificação ou falsificação.
-
O uso não religioso da palavra revelação prolonga analogicamente a análise bíblica, deslocando a revelação da inspiração subjetiva para a manifestação da coisa dita.
-
As expressões originárias da fé bíblica pertencem à função poética porque a escrita, os gêneros literários e a referência desdobrada abrem o mundo bíblico como mundo novo, Nova Aliança e Reino de Deus.
-
O sentido arreligioso da revelação corrige a interpretação psicologizante da inspiração, pois a Bíblia é revelada pela coisa que diz e pelo ser-novo que desdobra.
-
A revelação poética e a revelação bíblica permanecem homólogas, mas não idênticas, pois a especificidade religiosa consiste na circulação do referente Deus entre profecia, narrativa, prescrição, sabedoria e salmo.
b) A reflexão mediata e o testemunho
-
A segunda pretensão filosófica a criticar é a autonomia de uma consciência que se pensa senhora de seus pensamentos e resiste a toda ideia de revelação.
-
A categoria de testemunho permite pensar a autoimplicação do sujeito em seu discurso e corresponde a traços decisivos da ideia de revelação.
-
A reflexão sobre o testemunho requer conceitos preparatórios oriundos da hermenêutica.
-
O primeiro conceito é o Cogito mediado por um universo de signos, pois o sujeito não possui intuição imediata de sua existência e depende de símbolos, mitos e interpretações para compreender-se.
-
O segundo conceito é o pertencimento, que supera o idealismo da consciência ao reconhecer que todo distanciamento crítico se enraíza numa pertença prévia.
-
O terceiro conceito é a apropriação diante do texto, pela qual compreender-se não é impor uma capacidade finita de compreensão ao texto, mas receber dele um si mais amplo.
-
Esses conceitos preparatórios desconstroem a pretensão de uma consciência autônoma e autotransparente.
-
A consciência que pretende constituir-se a si mesma torna-se o maior obstáculo à ideia de revelação, pois recusa toda dependência originária diante do sentido.
-
A categoria de testemunho permite avançar além das noções literárias de texto, obra e mundo da obra, aproximando a hermenêutica da experiência histórica concreta.
-
O testemunho raramente foi integrado à reflexão filosófica, mas em Jean Nabert ele aparece como categoria capaz de responder ao despojamento da consciência.
-
O testemunho surge quando a reflexão renuncia à pretensão de autoconsciência constitutiva e se abre a sinais contingentes do absoluto.
-
O despojamento reflexivo é um ato ético e especulativo que renuncia tanto aos objetos empíricos do entendimento quanto aos objetos transcendentais da metafísica.
-
A reflexão encontra signos contingentes nos quais o absoluto deixa aparecer algo de si, ultrapassando tanto a exigência kantiana de universalidade quanto a autossuficiência especulativa.
-
O testemunho coloca a reflexão diante do paradoxo de um momento histórico investido de caráter absoluto, sem que isso se torne escândalo para uma consciência despojada de sua soberania.
-
O testemunho pode ser retomado reflexivamente porque contém traços dialéticos que solicitam interpretação.
-
O testemunho une evento e sentido, pois os eventos fundadores não são apenas fatos ocorridos, mas acontecimentos que significam e exigem narração.
-
O testemunho exige crítica, pois pode ser verdadeiro ou falso e conserva uma dimensão judicial mesmo quando passa do tribunal para a reflexão.
-
O testemunho articula a dialética entre testemunha e coisas vistas, pois procede do visto e, ao mesmo tempo, pode comprometer a vida daquele que atesta.
-
A passagem da testemunha ao mártir transforma o sentido jurídico do testemunho, pois o testemunho da verdade pode levar o justo a tornar-se acusado e morrer.
-
O destino trágico da verdade histórica acompanha o despojamento da reflexão, que interioriza a dialética do testemunho contra as ilusões da consciência soberana.
-
A dialética entre evento e sentido obriga a renunciar à auto-constituição da consciência numa temporalidade puramente imanente, pois a existência é constituída por eventos que a antecedem.
-
A dialética entre testemunho verdadeiro e falso exige uma criteriologia crítica do divino, pois a apropriação finita da verdade não pode dispensar discernimento.
-
A dialética entre testemunha e mártir é decisiva porque mostra que a consciência de si depende de testemunhos históricos anteriores a ela.
-
As ideias estéticas de Kant ajudam a pensar o testemunho como apresentação histórica de uma ideia que a reflexão não pode possuir conceitualmente.
-
O testemunho histórico apresenta a ideia de um despojamento absoluto e a torna reconhecível na contingência de uma vida e de uma história.
-
A reflexão depende de testemunhos exteriores sem cair em heteronomia, assim como a experiência poética depende do mundo do texto sem sacrificar a liberdade do pensamento.
-
A dificuldade de pensar uma dependência sem heteronomia nasce de se pensar demais em uma vontade que se submete e pouco em uma imaginação que se abre ao texto, ao poema e ao testemunho como chamados não constrangedores.
estudos/ricoeur/ec/revelacao.txt · Last modified: by 127.0.0.1
