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Indivíduo

RICOEUR, Paul. Écrits et conférences III. Paris: Seuil, 2013.

  • A dupla definição de indivíduo proposta por Louis Dumont — o sentido empírico de amostra indivisível da espécie humana, universal de toda cultura, e o sentido moral de ser independente e autônomo próprio da ideologia moderna — motiva a reconstrução sistemática, e não histórica, dos estágios pelos quais o conceito passa do lógico ao ideológico, sendo o percurso completo já parcialmente desenvolvido por Emmanuel Levinas.
  • O percurso proposto compreende três etapas ligadas por duas transições: a individualização, de ordem epistemológica, relativa ao indivíduo qualquer face à espécie; a identificação, alcançada pela pragmática e depois pela transição narrativa, na qual se extrai o eu do “eu digo que” para atingir o “dizer eu”; e a imputação, que introduz as implicações éticas dos atos de discurso, sobretudo a promessa, na qual se constitui verdadeiramente um ipse.
  • A análise privilegia o primado da linguagem, não em oposição à abordagem antropológica de Dumont, mas como o húmus dos universais que ela pressupõe, progredindo em correlação crescente entre si-mesmo e o outro através dos três estágios: individualização, identificação, imputação.

I. INDIVIDUALIZAÇÃO

  • Partir da linguagem, e não da questão aristotélica do tode ti, permite discernir como a linguagem designa o individual sem cair na alternativa entre o conceitual e o inefável, evitando também, com Pariente, reduzir a individualização à determinação do último discernível em favor de jalonar o próprio processo, que se detém em níveis variáveis conforme as línguas.
  • Os lógicos distinguem três operadores de individualização — descrições definidas, nomes próprios e indicadores (pronomes, demonstrativos, advérbios) —, sem que, neste estágio, o indivíduo humano goze de qualquer privilégio sobre o indivíduo qualquer.
  • As descrições definidas constituem uma classe a um único indivíduo por cruzamento de classes lógicas, implicando já uma alteridade mínima por exclusão de todos os outros, com finalidade de designação ostensiva e não de classificação.
  • Os nomes próprios lógicos designam de modo fixo e permanente a mesma coisa em suas múltiplas ocorrências, cumprindo, segundo a análise de Strawson, a função de identificação que se distingue da caracterização por predicados.
  • Os indicadores, categoria mais relevante para a investigação, têm função intermitente e designam cada vez coisas diferentes, sem privilégio inicial do eu e do tu, podendo a série completa ser reconstruída a partir do isto, segundo Russell, ou do eu, segundo outra fase do mesmo Russell, ou ainda do isto como ocorrência singular, segundo Pariente.
  • Neste primeiro estágio, o indivíduo humano não se distingue do indivíduo em geral, mas já se evidencia que a linguagem dispõe de procedimentos específicos de designação, irredutíveis entre si, para visar um único indivíduo.

Primeira transição: pela pragmática

  • Com a pragmática, na distinção de Morris entre sintaxe, semântica e pragmática, o eu e o tu passam ao primeiro plano, reagrupando-se os indicadores com os atos ilocutórios estudados por Austin, herdeiros da teoria dos performativos.
  • Todo enunciado constativo comporta também uma força ilocutória própria, expressa em prefixos implícitos como “eu declaro que”, nos quais o eu figura ainda captivo do prefixo, sem que sua reflexividade seja plenamente exercida.
  • Um primeiro paradoxo evidencia a ambiguidade do eu, ora shifter substituível por qualquer falante, ora ancorado a uma perspectiva única e insubstituível, segundo o termo de Granger, retomando a observação de Benveniste sobre o eu como termo vago apropriado por quem o usa.
  • Um segundo paradoxo reside na reversibilidade dos papéis de eu e tu na situação dialógica, distinta do primeiro paradoxo que opõe substituível e insubstituível.
  • A distinção peirceana entre tipo e ocorrência, complicada pela escrita, que desancora o eu do escritor tornando-o novamente vago até ser reancorado pela leitura, prepara a verdadeira aporia wittgensteiniana de que o sujeito falante é limite do mundo e não um de seus conteúdos, atópico, sem lugar assinalado.
  • Essa aporia só se resolve admitindo uma correlação entre o eu, situado fora do mundo de que fala, e um evento do próprio mundo, correlação que se manifesta na datação do tempo vivido pelo calendário e na localização do corpo próprio pela cartografia, cabendo ao nome próprio, inscrito no registro civil, fixar essa ancoragem do sujeito no mundo.

II. IDENTIFICAÇÃO

  • A passagem ao problema da identificação e da ipseidade parte da pergunta heideggeriana “quem é o Dasein?”, retomada por Hannah Arendt como o “quem da ação”, questão que ultrapassa a pragmática ao abrir todo o leque dos pronomes pessoais, incluindo a terceira pessoa, cuja condição de pessoa autêntica se comprova pelo artifício da citação e pelo discurso indireto livre, como em Joyce.
  • A pergunta quem? admite resposta em qualquer pessoa gramatical — eu na confissão, tu na acusação, ele/ela na descrição narrativa —, sendo o reflexivo comum a todas essas respostas o si, que Michel Foucault consagrou no título O cuidado de si, e que o francês distingue parcialmente do idem através do determinativo mesmo, sendo preciso, como no texto de Santo Agostinho citado por Heidegger, separar a reflexividade do ipse da identidade do idem.
  • Uma função distributiva, expressa no termo alemão jedesmal (“a cada vez”), permite distribuir o si por todas as instâncias do pronome pessoal, fundando a “minhez” que não é necessariamente “mesmidade”, conforme o texto de Heidegger sobre o ser do Dasein como sendo a cada vez meu.

Segunda transição: pela narratividade

  • Assim que o eu se destaca do prefixo “eu digo que”, ele se insere numa história, sendo tratado, na semiótica narrativa de Greimas, como actante que se identifica por seu fazer, modalizado pelo poder-fazer, saber-fazer, querer-fazer e dever-fazer.
  • A identidade do ipse, ao contrário da identidade substancial do idem, comporta uma mutabilidade fundamental que somente o ato configurante do relato consegue conjugar com a configuração de uma história, cumprindo à narrativa dizer a “identidade do quem”, segundo a expressão de Hannah Arendt em A condição humana, que distingue trabalho, obra e ação propriamente dita, esta última preservada apenas pelo relato.
  • O texto de Proust sobre o livro como vidro de aumento que permite ao leitor ler em si mesmo ilustra essa refiguração do agente pelo relato, marcando o limiar da ipseidade.

III. IMPUTAÇÃO

  • O limiar ético do si-mesmo se atinge observando que, se todo actante se relaciona com objetos-valores, avaliar-se a si mesmo é inseparável de toda avaliação, apoiando-se a preferência, segundo a análise aristotélica no livro III da Ética a Nicômaco, numa operação hierarquizante que Louis Dumont situa na base da função ideológica das comunidades.
  • A estima de si, correlata originariamente à estima de outrem, encontra-se atestada em linguagem por um ato ilocutório específico, a promessa, cujo próprio dizer constrói o fazer prometido e implica relação essencial a outrem, testemunha e destinatário do compromisso.
  • A promessa testemunha uma ipseidade forte, definida pela manutenção de si apesar das mudanças de coração e de intenção, ipseidade que tem sempre outrem por destinatário.
  • A obrigação de manter a promessa não deriva da própria promessa, mas pressupõe, segundo a noção rawlsiana de esquema de cooperação em Uma teoria da justiça, um meio societal ao qual se consente contribuir equitativamente, tornando a promessa uma realidade triangular entre o eu, o tu e o terceiro da equidade.
  • O individualismo como ideologia nasce da pretensão de engendrar a dimensão cosmopolita e o espaço público a partir apenas da ipseidade ética, sem a dimensão societal originária, cabendo à antropologia e à sociologia das ideologias prosseguir essa discussão.
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