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Atenção

RICOEUR, Paul. Écrits et conférences III. Paris: Seuil, 2013.

A atenção — Estudo fenomenológico da atenção e suas conexões filosóficas

I. Princípios: atenção e percepção

  • O propósito duplo consiste em esboçar uma psicologia estritamente descritiva da atenção e mostrar suas incidências nas grandes questões metafísicas, como a verdade e a liberdade.
  • A ideia de uma psicologia voltada a compreender o vivido, e não a explicá-lo, foi introduzida por Husserl, para quem toda psicologia se falseia ao tomar emprestados conceitos do mundo físico.
  • Uma descrição pura da atenção pressupõe resolvida a questão prévia das relações entre fazer atenção e perceber, questão já apontada por Shand em 1894 ao notar que a atenção se exprime sempre por um verbo transitivo que exige um complemento, o que revela seu caráter intencional.
  • Esse caráter intencional deve permanecer no centro da análise, distinguindo-se a referência de um ato a seu objeto — vivida mas nunca plenamente pensada — das relações intramundanas entre coisas, de modo que ato e objeto não constituem dois termos separáveis.
  • A resposta clássica de que se faz atenção a representações, entendidas como imagens que constituiriam tanto a consciência quanto o mundo conhecido, reduz erroneamente a atenção a uma operação reflexiva de segundo grau, esquema falso porque a representação é ela mesma um ato intencional e não se distingue numericamente da atenção.

1. Que a percepção é intencional

  • Toda fenomenologia da atenção depende de uma fenomenologia da percepção, viciada pela noção corrente de representação, que é preciso corrigir.
  • Perceber não é ter uma representação na consciência nem ter consciência de uma representação, mas conhecer objetos e estar fora de si; ao reduzir a representação a um elemento da consciência, perde-se o aspecto fundamental da percepção, a apreensão intencional do Outro, substituindo-a por um domínio neutro fictício — a consciência — em que se fundiriam o eu e o mundo, degradação que tem origem no esforço de alinhar o objeto da psicologia ao das ciências naturais; o que há, na realidade, é um ser insituável de dois aspectos, o par ato-objeto, totalmente assimétrico, cujo sentido a fenomenologia apenas ensina a distinguir.

2. Atenção e percepção

  • Percepção e atenção são igualmente intencionais e, contra Wundt, o senso comum confirma com Condillac e Mill que não se faz atenção às próprias percepções, mas ao objeto percebido, de modo que a atenção é a própria percepção e não uma reflexão redobrada, devendo-se falar em percepção atenta.
  • O programa da fenomenologia da atenção consiste em investigar os aspectos que os objetos percebidos assumem quando a percepção é atenta e as impressões vividas pelo sujeito nesse ato, sendo necessário antes precisar o domínio da percepção em sentido cartesiano amplo, como tudo que se apresenta como espetáculo diante de mim, incluindo os atos de espeção de Minkowski e a homogeneidade entre percepção intelectual e sensível, o que autoriza falar de um campo total da percepção e da atenção, ficando de fora dessa noção de espetáculo o sentimento, que carece da presença diante de mim própria do ver.

II. Os aspectos dos objetos percebidos com atenção

Clareza e distinção

  • Dois caracteres inseparáveis definem o processo da atenção — seleção e clareza —, sendo o contraste entre o objeto atentamente percebido e o campo de inatenção o essencial da seleção, sem que inibição ou esforço lhe sejam inerentes.
  • O problema da clareza, estudado desde James e Wundt até Titchener e Dallenbach e aprofundado pela Gestalt, deve ser abordado pelo método das cortes instantâneos, que caracteriza a atenção por uma distribuição específica do campo perceptivo em dado momento.
  • A clareza da atenção não é um atributo do objeto como um som claro ou uma cor clara, pois mesmo o obscuro pode ser atentamente percebido como tal; ainda assim, tratando-se da percepção mesma e não de um redobramento reflexivo, essa clareza pertence ao próprio objeto percebido.
  • Um avanço decisivo, devido aos gestaltistas e já anunciado por Wundt e por Husserl, mostra que a clareza da atenção é um fenômeno de contraste entre figura e fundo, válido para todos os sentidos, para a atenção intelectual e para o campo perceptivo total, podendo a metáfora de plano ou relevo substituir a de iluminação, sem deixar de ser mera metáfora.
  • Dallenbach distingue clareza atributiva e clareza perceptiva, e todas as metáforas disponíveis servem apenas para orientar a experiência específica e ensinar a distinguir o resíduo fenomenológico da atenção.
  • Além desse limite eidético, a psicologia empírica pode investigar experimentalmente oscilações e graus da atenção, mas tal investigação pressupõe já compreendida, não indutivamente, a significação da clareza atencional.

2. O paradoxo da atenção

  • O paradoxo da atenção consiste em que, ao fixar um objeto, ele aparece mais claramente sem que o mundo mude, sendo a clareza do próprio objeto e não de uma consciência redobrada, paradoxo que deve ser protegido tanto da redução reflexiva quanto da redução a um signo variável de uma coisa em si incognoscível, já que a permanência do objeto através das mudanças de aspecto é ela mesma dada na percepção.
  • O paradoxo se circunscreve assim: a paisagem muda de aspecto sem mudar de sentido, mudança de aspecto e identidade de sentido pertencendo ao mesmo registro de ser, como já notara Bradley ao afirmar que a atenção torna o objeto mais nítido sem alterar sua existência, desenvolvendo-o idealmente sem mudá-lo.
  • Essas considerações descritivas importam para os problemas filosóficos porque as coisas nos aparecem tanto melhor quanto mais atentos estamos, sendo a arte de bem pensar, de São Tomás aos cartesianos e Berkeley, a arte de fazer atenção o máximo possível.
  • A dificuldade se aprofunda ao perguntar o que é uma mudança de aspecto sem mudança de sentido: a atenção faz aparecer algo do objeto que, em outro sentido, já estava ali, como o contraponto súbito ouvido numa sinfonia, sendo a passagem do fundo ao primeiro plano a apreensão de um aspecto novo que não era percebido como aspecto, sem que isso rompa a ligação entre existência e percebido; é a própria atenção que dá sentido a essa preexistência, pois o fundo é sempre percebido-com o aspecto inspecionado.
  • Sartre, retomando Husserl, mostra que a imagem se esgota inteiramente em si mesma enquanto a percepção dá o existente como transbordando sempre a percepção atual, sendo esse transbordamento correlativo do fato de a atenção prelevar o percebido dentro de um campo total, sem remeter a nenhum incognoscível.
  • Todo objeto nos é dado numa multiplicidade de esboços ou perspectivas sucessivas, sendo cada esboço já a percepção da própria coisa, e não signo subjetivo de uma coisa em si, o que esclarece o paradoxo da atenção: ao fazer atenção, muda-se de esboço, mas cada novo esboço é prelevado do precedente por mudança de acento, de modo que o dévoilement progressivo do objeto na percepção atenta depende de simples mudança da minha atenção, e não do devir das próprias coisas.
  • Esse exame conduz a considerar a atenção como ato, remetendo as mudanças de aspecto a um movimento interior de fazer aparecer, cujo sentido exato de dependência de mim resta a esclarecer.

III. O ato da atenção

  • Determinar com precisão a natureza da atividade própria da atenção encontra grandes dificuldades.
  • É da essência de todo ato não poder ser integralmente refletido, pois refletir sobre ele é alterá-lo, transformando-o em estado; a atenção exclui o cuidado de si, sendo apenas surpreendida no halo vivido de sua orientação prospectiva para o objeto, o que confirma, com Malebranche e Berkeley, que não há ideia da alma, apenas um sentimento dela.
  • A essa dificuldade se soma a da introspecção da duração, já que toda introspecção tende a recortar instantes, obstáculo que particularmente prejudicou as pesquisas sobre a atividade atencional por ignorarem seu aspecto temporal.

1. Atenção e preperceção

  • Contesta-se a ideia comum ao associacionismo, ao esquematismo bergsoniano e à teoria da forma segundo a qual a atenção seria uma preperceção, preparação por esquemas ou imagens que se sobreporiam à percepção para esclarecê-la.
  • Essa concepção provém de razões teóricas — a incapacidade de uma psicologia de estados de consciência de compreender um ato sem superpor outro estado — e de razões de fato, como a confusão da atenção com a espera ou a busca; no exemplo da criança que procura a cabeça do lobo na imagem, o que torna a busca atenta não é a presença de uma ideia prévia, mas a exploração ingênua a seu serviço, sendo o caráter interrogativo, e não antecipador, o essencial da atenção, cujo verdadeiro nome é espanto e não antecipação, distinção decisiva sobretudo no plano do pensamento em busca da verdade.
  • Husserl já sublinhava que a atenção consiste unicamente em voltar-se ou desviar-se, Zuwenden e Abwenden, constituindo esse ato a distribuição específica do campo atencional, ideia compatível com a oposição entre interrogação e antecipação: há uma oposição fundamental entre inflectir a percepção segundo uma antecipação e buscar uma inocência do olhar, uma acolhida do outro como outro.

2. A atenção voluntária e passiva. Consideração da duração

  • A distinção clássica entre atenção voluntária e passiva deve ser reconhecida em sua especificidade antes de qualquer tentativa de redução naturalista de uma à outra, distinção que a linguagem exprime bem ao falar de ser absorvido ou capturado por um objeto, extremo que tende à fascinação, em oposição à capacidade de se espantar e de se ocupar gratuitamente do objeto.
  • A distinção entre voluntário e involuntário só aparece ao se considerar o caráter temporal da atenção: o que é voluntário é a evolução da distribuição do campo, a mudança ou manutenção do objeto, sendo a atenção voluntária um domínio da duração, um poder de orientação no tempo.
  • Esse domínio da duração se apresenta como certo afrancamento dela, retomando a oposição cartesiana entre intuição e lembrança de intuição, sem que se deva buscar o segredo da atenção numa dissolução da duração em instantes, mas antes numa capacidade de orientar-se e mudar de objeto, distinguindo-se assim uma duração sofrida de uma duração conduzida, sendo a fascinação a perda desse poder de mudar de objeto.

3. Atenção e esforço

  • Essa mutabilidade dependente de mim, combinada a um desenrolar involuntário, não implica necessariamente esforço, pois deter-se não supõe crispação nem luta contra a distração, de modo que a atenção não é uma força.

IV. A atenção e os problemas filosóficos

  • Situa-se o problema da atenção entre os demais problemas filosóficos, que buscam a ordem e o encadeamento das experiências, ao contrário da descrição fenomenológica pura, permitindo lançar luz sobre conhecimento e ação, verdade e liberdade, e sua articulação comum.

1. Atenção e verdade

  • Desde Descartes, prolongando São Tomás, até Malebranche, que compara a atenção a uma oração pela qual consultamos o Verbo, e Berkeley, afirma-se que a evidência remete sempre à atenção, sendo a verdade acessível apenas aos espíritos atentos.
  • Essa ligação entre objetividade e ação interior mostra que o conhecimento não é nem ação nem paixão: não é paixão porque estar diante do espírito não é agir sobre ele, como sublinhava Berkeley ao dizer que os objetos estão no pensamento como ideias e não como atributos, podendo um ato do espírito ser vivido tanto no modo passivo da fascinação quanto no modo ativo da atenção voluntária.
  • Uma conhecimento pode ser vivido no modo ativo sem produzir seu objeto nem alterá-lo, sendo a atenção ao mesmo tempo o ato mais elevado de conhecimento e o mais completo despojamento diante do objeto, o que situa as filosofias da atenção — como as de Malebranche e Berkeley — como filosofias do imediato, opostas ao construído, e explica o desaparecimento do tema da atenção nas filosofias idealistas.
  • Retomando a distinção escolástica entre exercício e especificação, somos senhores da presença de uma ideia mas não de sua estrutura, sendo essa a receptividade no modo ativo que o sábio chama de imparcialidade.
  • Dessa problemática derivam ramificações: o erro como defeito de atenção em Malebranche, e a superação do falso dilema entre evidência e liberdade proposto por Fichte e Lequier.
  • A liberdade reside na atenção: ser livre é sustentar a presença das ideias, não seu encadeamento intrínseco, como mostram as cartas de Descartes ao padre Mesland, e Husserl demonstrou que a necessidade lógica interna é compatível com a liberdade da consciência, sendo a atenção um raio do Eu.
  • Contra o impersonalismo husserliano do Eu transcendental, sustenta-se que a atenção é o ato mais pessoal que há, pois a verdade aparece a tal espírito em tal momento, sendo a impessoalidade própria apenas do objeto lógico, e a comunhão entre consciências se dá por visadas convergentes, não por abolição das pessoas.
  • A significação filosófica da atenção orienta antes para a oposição entre o “on” e a pessoa: fazer atenção é passar do “on” ao Eu pessoal, sendo a imparcialidade do sábio um ato altamente pessoal que ao mesmo tempo o eleva ao universal.
  • Quanto à ligação husserliana entre a coisa em si não percebida e o campo de inatenção como consciência potencial, é preferível seguir Royce e Gabriel Marcel, que ligam o em-si à perceptibilidade por outrem, sendo o conhecimento uma relação a três e não a dois, e a pluralidade dos sujeitos pessoais o verdadeiro acesso à existência em si do universo.

2. A atenção e a liberdade

  • A atenção não apenas nos torna permeáveis ao verdadeiro, mas também senhores de nossas ações, revelando a articulação vital entre os problemas do conhecimento e da ação.
  • Descritivamente, a liberdade é a experiência concreta do que depende ou não de mim, com uma zona intermediária de responsabilidade, experiência sempre em tensão com a de estar no mundo, sendo essas duas experiências inseparáveis, não pensáveis nem justapostas nem reduzidas uma à outra; a objetivação que as separa é a condição do problema do determinismo, devendo-se reter da palavra liberdade apenas o sentido descritivo de “império” solidário da experiência de estar-no-mundo.
  • Seguindo Laporte, sustenta-se, de São Tomás a Leibniz, que o jogo permanente da atenção é o que torna voluntárias a deliberação e a decisão, dissolvendo o falso dilema entre o princípio do melhor de Leibniz e o fiat de James, pois a vontade não se insere como uma cunha entre juízo e decisão, mas está na raiz do próprio juízo.
  • A vontade intervém de três maneiras, todas redutíveis à atenção: o próprio ato de deliberar é voluntário enquanto exercício da atenção; a deliberação é um vaivém de ideias cuja presença depende de nós, sendo essa a liberdade de indiferença; e o juízo final que decide o fiat é, segundo São Tomás, um ato da vontade que torna último um consentimento, não sendo mais que uma parada da atenção sobre um pensamento.
  • Descartes e Malebranche confirmam essa continuidade: para Descartes, podemos suspender ou até inverter um juízo ao desviar a atenção das razões que o sustentam; para Malebranche, a vontade age sobre o entendimento fazendo-o considerar novos aspectos do objeto, repousando apenas diante da evidência esgotada.
  • Essa convergência entre a filosofia clássica, a teoria do fiat de James e a psicologia experimental de Ach e Michotte confirma que nosso império reside na condução da duração mental, ainda que James, ao confundir esforço e atenção, restrinja indevidamente seu papel a certos tipos de volição e ao momento último da decisão.
  • Michotte mostrou experimentalmente que a escolha é uma espécie de parada da atenção, um gesto mental de designação análogo ao olhar que organiza o campo perceptivo, ideia que Gabriel Marcel também sustentou ao ligar escolha e olhar e ao recusar pensar a vontade como força, sendo o querer um cessar de discutir em que os “mas” desaparecem no campo de inatenção.
  • Desse problema central derivam questões conexas: o império sobre nós tem graus, conforme a “capacidade” limitada e partilhada do espírito discutida por São Tomás e Malebranche, cuja distração pelas paixões constitui a lei de interesse, sendo a distinção entre inclinar e necessitar uma distinção fenomenológica que recusa a fatalidade romântica da paixão.
  • Há ainda a experiência de um poder inempregado, atestada pelo remorso e pelas faltas de omissão, distinguindo-se a inatenção por captação da atenção da inatenção por ausência de uso, sendo o erro voluntário sobretudo por defeito de atenção e não por ato positivo.
  • Esse percurso desenha os grandes traços de uma filosofia da atenção, sem que a atenção constitua a última palavra da vida interior, pois há uma dialética ascendente, sondada sobretudo por Gabriel Marcel, que ultrapassa o nível problematizável da atenção — ainda marcado pela ilusão espetacular do sujeito impessoal e pela distinção entre o “em mim” e o “diante de mim” — para alcançar o nível do mistério, do recolhimento e da presença, onde essas categorias se superam e o problema da verdade e da liberdade se transmutam.
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