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Fenomenologia em Esquemas (2000)

RICHIR, Marc. Phénoménologie en esquisses: nouvelles fondations. Grenoble: Millon, 2000.

  • Em tempos de indiferenças e indiferenciações gerais, é difícil “se reencontrar” no campo das produções filosóficas para discernir o que se deve entender por fenomenologia.
    • Na era “pós-heideggeriana”, assistiu-se à emergência de um “desconstrucionismo” de inspiração semiótica.
    • Assistiu-se também à emergência de diversas metafísicas de inspiração mais ou menos fenomenológica, animadas por motivos teológicos ou por bricolagem ideológica.
    • Há uma proliferação de trabalhos acadêmicos no “pós-moderno”, onde, sob pretexto de “hermenêutica”, “relativismo” ou “perspectivismo”, quase tudo parece poder ser legitimamente dito sobre qualquer coisa.
    • Alguns, cujas motivações raramente são “puras”, assimilam a “fenomenologia” a um exercício metafórico e confuso do discurso.
    • Daí ao retiro frio sobre a epistemologia, a história positiva das ideias ou a análise escolástica da linguagem, há apenas um passo.
    • Há raramente um real cuidado com a filosofia, e ainda menos com a fenomenologia, da qual se crê ter se livrado sem tentar conhecê-la.
    • Acontece que a pensamento de Husserl, altamente atenta ao rigor e à clareza analítica, parece ter levado a este reverso em seu contrário.
    • Diz-se que essa pensamento é ingrata e difícil, e que foi muito mal “gerida” por seu autor, Husserl.
    • A dificuldade de uma pensamento incentiva a preguiça de estudá-la.
    • A questão da “sedução” possível do discurso filosófico não é nova; já entre os Antigos se colocava como a questão de sua retórica.
    • Nos últimos trinta anos, abusou-se da retórica na filosofia, a ponto de alguns fazerem dela o próprio motor de seus escritos, esboçando a teoria dos “efeitos de sentido”.
  • Cabe aos contemporâneos constatar essa situação, mas não lhes cabe buscar suas causas.
    • As causas, se existem, pertencem à enigma que constitui a História, sempre coletiva e sempre material e espiritual.
    • Nesse processo anônimo, que atinge o “meio” filosófico, não há que buscar “responsáveis”, mas apenas “sintomas”.
    • Os “sintomas” são aqueles que, por “arrivismo” social ou por cuidado narcísico, empurram “a roda”.
    • Fazer o inventário desses personagens seria fastidioso e desprovido de interesse filosófico.
    • Não se deve esperar que o autor proponha essa análise ou desempenhe o papel de “justiceiro”.
    • Fazem exceção à constatação aqueles que, vindos de uma cultura autêntica, tiveram o cuidado com a verdade, quaisquer que tenham sido seus erros.
    • É notável constatar como, hoje, se compreende mal o que eles tentaram realizar.
    • A pesquisa em paternidade espiritual leva a estranhas assimilações.
    • Dois exemplos: sobre a obra inacabada de Merleau-Ponty, constrói-se uma metafísica da “carne”. Sobre o rigor de Lévinas, afirma-se que a originariedade da “ética” é sinal de sua transcendência divina.
    • Estes são apenas testemunhos insignificantes de que os escritos filosóficos são impotentes contra a preguiça de espírito ou a estupidez.
  • A questão séria e essencial é reabrir um acesso à fenomenologia por trás desses desvios que entulham sua paisagem.
    • A figura sintomática que mais bloqueou o acesso à fenomenologia desde os anos 30 é Heidegger.
    • Heidegger é o verdadeiro inventor de uma metafísica fenomenológica.
    • O desconstrucionismo e as outras metafísicas são apenas rebentos, mais ou menos inteligentes ou degradados, dessa invenção.
    • É a este nível que é preciso elevar o debate para poupar esforços inúteis pela causa da fenomenologia.
  • Se Heidegger foi “grande”, foi como metafísico, e certamente não como fenomenólogo.
    • Uma anedota sobre Husserl ilustra um primeiro sentido de “metafísica”: Husserl pedia “moedas miúdas” (Kleingeld), análises concretas, e não “notas grandes”, abstrações especulativas.
    • Heidegger, ao contrário, pagou com “notas grandes”: inflações verbais, jogos de cratilismo, desvios do sentido da língua ordinária.
    • Heidegger promoveu extraordinárias criações linguísticas, como se cunhasse sua própria moeda.
    • A maneira heideggeriana de carregar blocos inteiros de problemas e decidir unilateralmente o sentido de longos períodos históricos é impressionante.
    • Há uma retórica heideggeriana usando “notas muito grandes”, com poucas análises concretas e um “pathos” do autêntico e do abismo.
    • Isso “funciona” com base em um partido cego, propriamente metafísico, de rejeitar no erro tudo o que não se integra em sua démarche.
    • Em “Ser e Tempo”, a consciência é destronada em favor do Dasein, e um leitor ingênuo poderá crer que dizer “eu” na filosofia é inautêntico.
    • Isso porque não terá compreendido a complexidade da consciência mostrada por Husserl.
    • A hermenêutica da facticidade do Dasein é, na verdade, a instituição do próprio Dasein em sua autenticidade, na tautologia simbólica entre “ser” e “pensar”.
    • O sentido da palavra “hermenêutica” se deslocou, pois o Dasein não é um texto a interpretar, mas algo cujo sentido se deve elaborar simbolicamente.
    • A tarefa é gigantesca: uma reinstitucion da filosofia na autenticidade do Dasein, hipercartesiana porque parte do zero.
    • “Ser e Tempo” fascina como uma “Fenomenologia do espírito” do século XX, mas não menos metafísica que a obra de Hegel.
    • É o próprio sujeito Heidegger que visa sua instituição filosófica e sua instituição como filósofo.
    • Há poucas análises fenomenológicas concretas; termos como ser-para-a-morte, Gewissen (consciência), Sorge (cuidado), angústia são cercados por um halo de mistério.
    • Estes termos, desviados de seu uso corrente, são as primeiras “notas grandes” postas em circulação por Heidegger.
    • Husserl, por seu cuidado analítico, qualificaria isso de “obscuro” ou “incompreensível”.
    • A dimensão metafísica do empreendimento é mais manifesta onde a inautenticidade é rejeitada como um erro “ontológico” originário.
    • Daí vem a propensão de Heidegger a rejeitar no erro até os termos da língua filosófica tradicional.
    • Parece que o “verdadeiro” filósofo só tem o direito de falar a língua heideggeriana.
    • Como essa língua é ambígua, todos os “desconstrucionismos” e “metafísicas” são possíveis.
    • A hybris em jogo foi a convicção de Heidegger de recomeçar ou instituir a filosofia sozinho, instituindo sua própria língua.
    • Essa identificação fantasmática ao “nomoteta” platônico gerou “seitas” e “dissidências”.
    • É um sintoma da “derrelição” filosófica em que ainda se vive.
  • Esta espécie de interdito lançado sobre a língua clássica da filosofia tem algo de “totalitário”.
    • Funciona, pelo menos entre os sectários, como uma espécie de terrorismo.
    • Dizer “eu”, falar de “consciência”, “representação” ou “intencionalidade” torna-se suspeito por si só.
    • É como se o simples uso de outras palavras significasse estar prisioneiro da “metafísica”.
    • É como se a substituição das palavras pelas palavras heideggerianas bastasse para alcançar a verdade.
    • É como se fosse preciso acreditar na palavra de Heidegger quando ele diz que sua concepção é radicalmente distinta da de Kierkegaard ou de Husserl.
    • Não se deve, em filosofia, prestar tanta atenção às palavras isoladas, que são sempre enganadoras.
    • Acordar da “hipnose” heideggeriana é não mais tomar os filósofos “ao pé da letra”.
  • Pode-se dizer que a criação linguística heideggeriana se deveu à novidade radical e revolucionária que Heidegger enfrentou.
    • Reticência a uma prodigiosa extensão da fenomenologia.
    • A obra de Husserl foi lida pela primeira geração pós-husserliana, fascinada por Heidegger, como um sinal precursor.
    • As gerações seguintes foram mais apegadas à metafísica (inclusive no desconstrucionismo) do que atentas à fenomenologia.
    • É preciso “aperfeiçoar” a “demonstração”, tomando a pensamento heideggeriana radicalmente a sério.
    • É preciso mostrar em que ela é, desde a origem, mais uma “metafísica” fenomenológica (na tradição do idealismo alemão) do que uma fenomenologia propriamente dita.
    • A melhor época de Heidegger, a mais criativa, a de “Ser e Tempo”.
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