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História simbólica do corpo: Fenomenologia (1993)
RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.
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Paradoxalmente, foi no campo mais “moderado” da fenomenologia que o pensamento do corpo se elaborou em nosso século.
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Este campo foi aberto por Husserl e desenvolvido por Scheler, psiquiatras fenomenológicos (Binswanger, Strauss, von Weizsäcker), Merleau-Ponty, H. Maldiney, e, de forma mais distante, por Heidegger e Sartre.
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Seria necessário um ensaio do mesmo tamanho para redesenhar o desenvolvimento histórico dessa problemática.
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Para concluir, mostra-se como a fenomenologia conduz à suspensão (epoché) de toda psicologia.
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Isto põe em evidência, de modo problemático, o excesso em si mesmo com o qual começamos.
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Em relação a este excesso, flutuam, em seu “tremor” fenomenológico, os termos que a instituição da filosofia determinou como “alma” e “corpo”.
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Este “tremor” faz com que eles retornem do status de termos de um problema a resolver ao status de elementos móveis de uma questão.
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Em Husserl, a fenomenologia começou como uma psicologia descritiva dos “vividos” da consciência, especialmente nas Investigações Lógicas.
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Para que esta descrição seja possível, os “vividos” devem ser reconhecíveis e analisáveis nos termos da língua filosófica e da língua corrente.
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O que permite às análises husserlianas escapar da trivialidade é a fenomenologia propriamente dita.
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Ela evidencia que a determinação de um vivido pela língua (que o torna reconhecível) não significa que saibamos precisamente o que ele é, o que nele verdadeiramente vivemos.
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A análise fenomenológica só “funciona” porque há, em todo vivido, um excesso a priori indeterminado do viver sobre o vivido que cai sob a análise.
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Este viver mesmo está sempre em estado nascente, relativamente indeterminado, enredado ou “confuso” (no sentido cartesiano), ligando cada vivido a uma infinidade de outros na coesão intrínseca do viver.
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O viver da consciência é da ordem da certeza fática de existir do cogito cartesiano; é o viver do sentido se fazendo (ou de múltiplos sentidos se enredando infinitamente).
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Se tudo é sentido de linguagem (tempo se fazendo) antes de ser sentido enunciado numa língua instituída, todo vivido é, antes de sua identificação linguística, um ser de sentido e de linguagem.
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O corpo vivido (globalmente e em suas partes) é também um ser de sentido e de linguagem, em união nascente com o viver da consciência e da inconsciência.
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O corpo externo (obscuro, rebelde ou opaco ao viver) está ou figado nas patologias psíquicas ou é o sistema complexo manipulado pela ciência objetiva.
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O corpo fenomenológico (corpo vivido, viver encarnado) faz parte integrante do excesso do viver sobre o vivido.
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Há sempre mais nele do que reconhecemos espontaneamente através das palavras e estruturas da língua.
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Ele desempenha um papel-chave no encontro inter-humano (intersubjetivo), revelando-se como um ser de sentido e de linguagem para além dos enunciados linguísticos.
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Isto não significa que o corpo fenomenológico seja transparente à consciência; ao contrário, fazendo parte do excesso, ele porta o sentido como sua enigma, sem ser seu fundamento (contrariamente ao que Nietzsche pareceu sugerir).
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Há uma obscuridade própria ao corpo fenomenológico: um halo de indeterminações que faz do “viver num corpo” e “viver de um corpo” questões perenes, inseparáveis de outras (como a morte ou a vida do pensamento).
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Correlativamente, a consciência fenomenológica não é uma auto-presença transparente ou intuição pura de si (ficção metafísica reservada a Deus), mas uma presença furada de ausências, de sentidos plurais se fazendo a múltiplos níveis, em incessante formação, incluindo sentidos inconscientes eclipsados.
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A análise fenomenológica é infinita e interminável porque o viver do vivido é multidimensional, infinitamente profuso e inesgotável, mergulhando não num “solo último”, mas num abismo.
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Enigmaticamente, o pensamento humano frequentemente fez “a economia” deste abismo, que significa a dissolução de toda fundação e o excesso irredutível das questões sobre todo problema a resolver.
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É difícil reencontrar as questões sob os problemas, pois todo problema é duplamente mediado:
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Pela codificação simbólica inconsciente do abismo em termos reconhecíveis (a instituição simbólica que apaga as origens).
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Pela conversão dos termos das questões (encontradas no excesso) em termos voltados para a fundação (reconhecível e identificável) da humanidade.
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O pensamento sempre teve “horror do vazio”. Não é por acaso que a fenomenologia floresceu em nosso século, um século de deperdição simbólica, “desculturação” e impossibilidade da fundação.
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Nela, a elaboração das questões (já simbólica) não deve preconverter sub-repticiamente as questões em problemas a resolver.
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Este exercício não é “vão”, pois é essencial à vida do sentido – que é, de certo modo, nossa própria vida e, como Descartes entreviu, o lugar de nossa liberdade.
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Liberdade não de escolher entre possibilidades socialmente pré-dadas, mas de correr juntos a aventura do sentido, sem preconceber o que ele foi, é ou será, sabendo que ele está do lado do viver e não do morrer – especialmente da morte “administrada” na forma tecno-científica de nossas sociedades voltadas para o rendimento do capital.
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Há sempre a contingência irredutível da morte física, miserável e sofredora, que todo sistema simbólico teve de enfrentar.
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Mas além dela, há a morte do sentido na própria vida do sentido, que experimentamos sempre que agimos ou pensamos maquinalmente.
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Nosso corpo sofredor, rebelde e mortal está ligado à enigma cruel da morte, que sabemos ser apenas provisoriamente um problema a resolver.
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Sabemos que este corpo, opaco ao nosso viver, nos engolfará – e a sobrevivência como sombra, fantasma ou psique sempre foi o condensado de uma questão.
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Restam imensas questões para a fenomenologia (talvez só para ela hoje):
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O obscuro vínculo entre o corpo físico e o corpo vivido/fenomenológico.
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As relações complexas entre a morte física e a morte simbólica.
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A enigmática cumplicidade entre o excesso que se autonomiza (aparecendo como falta) e o excesso dinâmico do viver do corpo sobre si mesmo.
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A fenomenologia sabe que qualquer conversão da questão em problema a resolver inevitavelmente perderia a questão.
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Ninguém pode viver a morte (lição epicurista), mas se a sombra da morte se projeta na vida quando o excesso da vida mesma se toma por objeto exclusivo de seu ser (até o extremo das psicoses), é porque algo da vida e do pensamento do corpo permanece enigmaticamente enterrado, como o abismo de onde viemos e para onde vamos, que não cessa de fazer questão.
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Abismo selvagem de uma violência insuportável, originária e sublime; abismo também de uma inocência sempre pronta a se deixar surpreender.
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Se a inocência da surpresa é sinal de juventude, não seria também uma juventude inalterável, capaz de nos fazer atravessar as idades (“nós”, não apenas “eu”)?
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Perguntas remanescentes: o envelhecimento intrínseco da alma? É uniforme? A vida não avança num só ritmo; a morte o faz?
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Tudo isso resta a ser analisado em seus múltiplos, indefinidos e infinitos enredamentos – desde que não nos limitemos à simplicidade devastadora da “positividade inerte” final do cadáver.
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Se a fenomenologia toma o excesso do viver sobre o vivido não como objeto, mas como o próprio lugar de suas questões, tudo não estará para ser repensado de outra maneira?
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