estudos:richir:afetividade
Viver encarnado: afetividade (1993)
RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.
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Das afecções, é preciso distinguir a afetividade enquanto conjunto dos humores e dos sentimentos.
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A afetividade é geralmente atribuída à subjetividade psicológica.
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Ela parece quase o inverso da afecção, pois parece vir de um excesso quase-incorpóreo do corpo sobre si mesmo, a ponto de parecer se libertar dele e se autonomizar para transfigurar os seres e as coisas (para cima ou para baixo, para a vida ou para a morte, para a leveza ou para a gravidade).
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Tanto no humor quanto no sentimento, joga-se o sentido daquilo que se chama “transfiguração”, da qual o corpo é parte integrante.
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As afecções podem desempenhar seu papel nisso, como na fadiga ou no frescor recuperado das forças.
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Enquanto as sensações nos fazem aceder aos seres e às coisas, a ponto de nos confundirmos com eles, a afetividade (ou sensibilidade) nos faz aceder ao mundo.
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É o mundo em que há seres e coisas, mas um mundo sempre “colorido” pela cor dominante ou pelo tom de tal ou qual tonalidade afetiva.
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É o mundo em si que é leve numa bela manhã de primavera, ou que se torna pesado numa tarde cinzenta de inverno.
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O amor exalta, e não apenas o objeto amado; o ódio destrói, e não apenas o objeto odiado.
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O excesso do afetivo no próprio afetivo está na ausência de solução de continuidade entre o estado-afetado pelo humor ou pelo sentimento, e o estado do mundo.
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Isto foi magistralmente mostrado por Heidegger em “Ser e Tempo” a propósito da *Stimmung* (“tonalidade afetiva”).
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O mundo nunca nos aparece como neutro ou sem tonalidade alguma; isso é uma abstração do conhecimento objetivo.
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O conhecimento em seu sentido mais geral está ligado a essa espécie de igualdade de humor que é a tonalidade de um ser encarnado liberto dos cuidados quotidianos e ligado ao mundo pela “contemplação desinteressada”.
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É apenas nesse tom que se pode falar das sensações e das afecções.
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É também apenas com esse tipo de desprendimento que se pode simplesmente fazer filosofia, sem que isso implique qualquer hierarquia a priori na afetividade.
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