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estudos:richardson:o-ser-quer-o-pensamento-2003

O ser "quer" o pensamento

2003:597-599

RICHARDSON, W. J. H. Heidegger. Through Phenomenology to Thought. New York: Fordham University Press, 2003

Quanto à forma como o Ser é concebido em WD [GA8], há, neste ponto, relativamente pouco mais a dizer. O essencial é que o Ser é sempre o Ser (ἔμμεναι) dos seres (ἐόν), aquilo pelo qual os seres — todos os seres — são. Se os seres devem ser pensados, o que mais há neles que seja pensável, exceto o estar-presente pelo qual eles são? É por isso que o autor se refere constantemente ao Ser como “eminentemente digno de pensamento” (das Bedenklichste), ou seja, aquilo que confere ao pensamento o que deve ser pensado.1)

Ora, o Ser “necessita” do pensamento. Em razão de sua natureza, o Ser deve ser ele próprio servido, cuidado e protegido pelo pensamento; por isso, “necessita” do pensamento para ser ele mesmo. Devido à sua própria indigência, então, o Ser necessita que o pensamento exista, para que, à sua maneira, o Ser possa ser ele mesmo. Este último sentido de “carecer” aproxima-se do significado que Heidegger atribui ao grego χρή, traduzindo-o como “há necessidade de” (es brauchet). Já nos deparamos com essa palavra grega anteriormente. Derivada de χράομαι (cf. χείρ, “mão”), ela sugere um processo de manuseio que não se limita a usar aquilo que é manuseado, mas permite que isso seja de acordo com sua própria essência, permite que apareça como o que é e o conserva assim. Embora a fórmula seja um tanto estranha, não é impossível dizer que um manuseio desse tipo “deseja” que aquilo que é manuseado seja ele mesmo. Seja como for, entendemos que a tradução de χρή como “há falta de” sugere: que há, intrínseca ao Ser, uma “indigência” em razão da qual ele está “carente” de pensamento; que o Ser, portanto, “deseja” satisfazer essa indigência; que o Ser, portanto, “deseja” que o pensamento exista e, de fato, de maneira duradoura. Obviamente, estamos aqui refinando o que EM chamou de necessidade do Ser por seu “Lá”. Se há alguma precisão adicional, ela consiste talvez na insistência atual do autor de que, ao liberar o pensamento para si mesmo, o Ser concede ao pensamento uma certa liberdade, em virtude da qual este é mais do que uma compulsão cega. Voltaremos a esse ponto mais adiante. 2)

Se o Ser deseja o pensamento, esse desejo, como tal, é eficaz. Daí que “…nesse desejo se esconde uma imposição, uma evocação… [598]” do pensamento. (“… In diesem Brauchen verbirgt sich ein Anbefehlen, ein Heißen…” (GA8:WD, p. 119).)) Estamos no cerne da questão. O desejo é eficaz, pois implica permitir que o pensamento exista de maneira duradoura. É isso que queremos dizer ao afirmar que o Ser “concede” ao pensamento o que deve ser pensado. Efetivamente, então, esse desejo é uma doação, uma doação do próprio Ser como algo eminentemente digno de ser pensado. “… O que [o Ser como digno de ser pensado] concede, o dom que nos outorga, nada menos é do que ele mesmo. …” 3) Isso é precisamente o que chamamos anteriormente de “im-partir” do Ser por meio da mittence, onde “im-partir” corresponde perfeitamente ao que Heidegger entende que Parmênides quer dizer com Μοῖρα. 4)

Mas, uma vez que a doação provém de uma carência no próprio Ser, ela carrega conotações de um apelo que suscita o pensamento. Essa doação sob a forma de um apelo é o que Heidegger entende por “evocação” do pensamento. Ele a descreve por meio de uma profusão de termos. O apelo que surge da carência põe o pensamento em movimento, convocando-o, encarregando-o, ordenando-o, solicitando-o, atraindo-o, reivindicando-o. Ao fazer isso, o apelo entrega o Ser ao pensamento, transmitindo assim tanto preceito quanto admoestação, comprometendo o Ser completamente à sua custódia; e, uma vez que é assim que o Ser chega ao pensamento, isso ajuda o pensamento a alcançar a presença como ele mesmo. 5)

Na medida em que possamos reduzir tudo isso a um denominador comum, vamos definir esse apelo de carência que evoca o pensamento pela palavra que usamos para traduzir a mesma palavra na análise de Hölderlin, a saber, “saudação”, com a intenção de sugerir: que a evocação é um endereço que procede do Ser, o qual sempre mantém sua primazia; que é uma convocação que é eficaz; [599] que sua eficácia é tal que deixa ao interpelado plena liberdade de resposta. Isso nos permitirá ver como, para Heidegger, a interpelacão do poeta e a evocação do pensador estão em profunda harmonia.

1)
GA8:WD, pp. 131 (ἐόν ἔμμεναι), 2-3, 85 e passim (was uns zu denken gibt).
2)
GA8:WD, pp. 12 (möchte), 85 (braucht), 118 (χράομαι), 114 (χρή), 116 (Zwanges). Cf. [GA6T2:N, II, pp. 390-394 (Brauch, Not).
3)
“… O que isso dá para ser pensado, o dom que nos é concedido, nada menos é do que ele mesmo, ele, que nos chama para o pensamento.” (GA8:WD, p. 85). Heidegger sugere a concordância fundamental entre es braucht e a fórmula es gibt de HB, p. 80. Cf. GA8:WD, p. 3.
4)
GA7:VA, pp. 251-252 (Schickung).
5)
WD, pp. 82-83 (auf den Weg bringen, auffordern, befehlen, anbefehlen, verlangen, aussprechen, verweisen, anvertrauen, Geborgenheit anheimgeben, Entgegenkommen, Helfen, Gelangenlassen). Com “atrair”, traduzimos auf dem Zug. O sentido é sugestivo. Em razão de sua negatividade, o Ser se retira (Entzug) para dentro dos seres que revela. Nessa retirada, o Ser atrai consigo (zieht mit), ou seja, atrai o pensamento. Parece que devemos entender, no “atrair” assim descrito, uma nuance da relação intrínseca do pensamento com o Ser-como-negado. Por exemplo: “… . “Este Entzug é o que realmente dá o que pensar, é o mais preocupante. …” (GA8:WD, p. 55, cf. PP- 5-6, 52). Cf. GA6T2:N, II (1944-46), p. 368.
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