O coração do homem
2003:599-601
RICHARDSON, W. J. H. Heidegger. Through Phenomenology to Thought. New York: Fordham University Press, 2003
Ao chamar o pensador à Existência, o Ser se transmite a ele como um dom, e esse dom é o que constitui a essência do pensador, a dádiva pela qual ele é. Além disso, o Ser não apenas concede o dom, mas também o conserva, preserva e sustenta, ou seja, permanece como o “sustento” permanente do pensamento. Essa dádiva repousa no que Heidegger agora opta por chamar de “coração” do homem. 1)
Vale a pena observar como exatamente Heidegger chega a escolher a palavra “coração”, embora isso talvez não seja essencial para a análise. Ele a propõe ao abordar o primeiro de seus estudos sobre a própria palavra “pensamento”. A palavra alemã para pensamento, diz ele, deriva de Gedanc, que sugere não apenas Denken (“pensar”), mas também Gedächtnis (geralmente traduzida como “memória”) e Danken (“agradecer”). É a propósito de Gedächtnis que nos deparamos com o termo “coração”. Pois o sentido primário dessa palavra, insiste o autor, não é “memória”, mas “(re)coleta”, ou seja, uma coleção no sentido de algo reunido em um centro que se mantém fiel ao que (re)coleta. Mas o que ela (re)coleta? Aquilo “… que nos sustenta, na medida em que é pensado por nós, pensado, isto é, na medida em que permanece [sempre] como aquilo que deve ser pensado. …” (“… Auf das, was uns hält, insofern es bei uns bedacht ist, bedacht nämlich deshalb, weil Es das zu-Bedenkende bleibt…” (GA8:WD, p. 1). Ver pp. 92 (An-dacht, Bleiben bei), 97 (Andenken). Que essa (re)coleta é necessariamente bidimensional fica sugerido com clareza suficiente, se refletirmos sobre o chamado em termos de atração. Ao retirar-se para os seres, o Ser atrai consigo o Lá-ser. Essa condição de ser atraído (bezogen) para o Ser dos seres é a relação (Bezug) que chamamos de ex-istência, em virtude da qual o Lá-ser manifesta (zeigt) os seres, ou seja, permite que eles resplandeçam como tais. O manifestar-se dos seres, portanto, o comportar-se com eles, é intrínseco ao ser atraído para o Ser como tal. É essa relação bidimensional com o Ser dos seres que estamos considerando agora como re-coleta. Ver GA8:WD, pp. 5-6, 52, 95-96 — todas consideradas como uma unidade. Observe, de passagem, que manifestação (zeigen) conota para nós agora “enunciado” (Sagen).)) Em outras palavras, esse “centro” (re)colhe o Ser e, de fato, a forma como ele se manifesta nos seres.
[600] Esse “centro”, segundo nos dizem, é o que em latim seria chamado de animus, em oposição à anima; é o que Meister Eckhart chamou de Seelenfünklein. Heidegger chama-o de “coração” do homem, entendendo por esse termo aquele “núcleo mais íntimo”, ou seja, a essência do homem, na medida em que se encontra em relação ec-stática com o Ser, daí a ek-sistência do homem. A ek-sistência aqui é considerada como aquela abertura constitucional ao Ser que, em SZ, chamamos de compreensão “antecedente” do Ser. “… Toda [posterior] recordação do pensável já habita, por si mesma, nessa reunião [no coração do homem], por meio da qual tudo o que ainda resta a ser pensado está guardado e oculto.” 2)
É em virtude dessa compreensão antecedente do Ser no coração do homem que ele é capacitado a pensar. De fato, falar de um “poder” para o pensamento é simplesmente expressar, sob um aspecto diferente, o caráter dinâmico da ex-istência. Esse mesmo caráter dinâmico chamamos em SZ de “impulso em direção ao Ser”. Não é, portanto, muito estranho falar dele agora dizendo que o Lá-ser “deseja” o Ser. De fato, os matizes afetivos do “desejar” são coerentes com a conotação da metáfora “coração”. De qualquer forma, podemos ver que, na ecstasis dinâmica que constitui a essência do homem, o “poder” (Vermögen) de pensar e o “desejar” (mögen) pensar estão profundamente relacionados. Temos aqui, então, ao que parece, a chave para artimanhas como a seguinte: “… Somente quando queremos [mögen] aquilo que, em si mesmo, é digno de reflexão é que temos o poder [vermögen] de pensar.” 3)
Embora o jogo de palavras (mögen-vermögen) se perca no inglês, podemos, no entanto, discernir um significado genuíno ao falar do Ser-ali, ou seja, do pensamento estrutural, como o Ser que “deseja”. Pois lembramos que a razão pela qual o pensamento surge, em primeiro lugar, é que o Ser “deseja” o pensamento; daí que a correlação entre o Ser e o pensamento se expresse como um “desejo” mútuo:
[601] … Temos poder apenas para aquilo que queremos. Mas, por sua vez, queremos verdadeiramente apenas aquilo que, por sua parte, nos quer… na medida em que se dirige à nossa essência como aquilo que sustenta essa essência. …4)
O anseio do Lá-ser pelo Ser, então, repousa no anseio do Ser pelo Lá-ser (pensamento). É por isso que o Ser é o fundamento onde o coração do homem, em sua essência, é sustentado em um lar último. Temos aqui, ao que parece, mais uma evidência do que, ao discutir GA9:HB, sugerimos como a “adesão” do Ser a si mesmo.
Resumidamente: o pensamento, como o ato de reunir pelo qual o homem (re)colhe o Ser, repousa no centro do Ser do homem, em seu “coração”. Para sugerir essas nuances com uma única palavra, traduzimos Gedächtnis por uma derivação da palavra latina para “coração” (cor, cordis) e dizemos que o pensamento assim entendido é “re-cord”.
