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estudos:poggeler:pensamento:1990

Epílogo 1990

PÖGGELER, Otto. Der Denkweg Martin Heideggers. Pfullingen: Neske, 1963. (Com sucessivas edições revistas e ampliadas: 2. Aufl. 1983; 3. Aufl. 1990; 4. Aufl. Stuttgart: Klett-Cotta, 1994).

Epílogo à terceira edição alemã [1990]

  • A terceira edição conserva o texto principal e o epílogo anterior, mas revê as notas para situar a obra diante dos escritos de Heidegger publicados posteriormente e das novas investigações que modificaram sua recepção.

I. Heidegger em nosso tempo

  • A Carta sobre o humanismo vinculou a questão, deixada incompleta em Ser e tempo, à exigência de uma virada do pensamento ocidental; com isso, a proximidade entre Heidegger e o existencialismo francês tornou-se inseparável da divergência quanto à centralidade do sujeito.
  • A recepção de Heidegger ultrapassou um círculo de discípulos e alcançou a fenomenologia, a teologia, a literatura, a teoria política e outras tradições filosóficas, nas quais seus conceitos foram acolhidos, transformados e contestados.
  • A aproximação ao pensamento de Heidegger surgiu também de questões desenvolvidas no idealismo alemão e na escola histórica, mostrando que uma filosofia pode marcar sua época sem exigir adesão a uma escola constituída em torno de seu autor.
  • O diálogo com a poesia de Celan tornou incontornável a pergunta pela capacidade da palavra de responder à destruição histórica; a memória dos mortos e a exigência de encontro não podiam ser simplesmente assimiladas à procura heideggeriana de um lugar próprio.
  • A difusão internacional da obra multiplicou os pontos de acesso a Heidegger, mas também favoreceu apropriações que isolam suas fórmulas do percurso no qual adquiriram sentido e das experiências históricas que precisam ser confrontadas.
  • A riqueza de sua influência não resolve a questão da unidade de seus caminhos: a pergunta pelo ser, a verdade como desocultamento, a linguagem e o acontecimento apropriador (Ereignis) exigem ser pensados em suas transformações efetivas.

II. Pluralidade de caminhos?

  • A condição fragmentária de Ser e tempo já indicava um percurso ainda aberto; a elaboração posterior da questão do fundamento deslocou o pensamento para a relação entre fundação, abismo e retraimento, especialmente nos Aportes à filosofia.
  • O acontecimento apropriador (Ereignis) ofereceu uma indicação de unidade para esses percursos, embora os manuscritos, suas formas de escrita e seus problemas não autorizem tratá-los como etapas de uma obra sistemática previamente concebida.
  • A publicação de cursos e escritos antes desconhecidos tornou possível reexaminar as mudanças do pensamento heideggeriano e mostrou os limites de uma leitura que procura uma solução única para toda a trajetória.
  • A investigação de problemas determinados, como liberdade, proximidade, temporalidade ou natureza, ganha precisão quando situa cada formulação em seu momento, sem perder de vista suas relações com as demais questões.
  • A história do ser não elimina a necessidade de discutir a validade das interpretações filosóficas; uma decisão histórica abre possibilidades de pensamento, mas não dispensa o exame crítico das razões e dos fenômenos em questão.
  • A hermenêutica da existência deslocou a fenomenologia para a realização histórica da compreensão, enquanto as objeções provenientes da lógica, das ciências e de outras ontologias põem à prova a amplitude desse deslocamento.
  • A compreensão deve também reconhecer aquilo que lhe resiste: as diferenças entre compreender e explicar, entre existência humana e natureza, entre interlocutores e entre modos de investigação não podem ser suprimidas por uma unidade estabelecida de antemão.
  • A questão da vida e do animal torna especialmente visível a dificuldade de derivar todos os modos de ser da analítica do ser-aí (Dasein), pois o vivente apresenta uma alteridade cuja investigação requer mais do que a redução das determinações da existência humana.
  • A passagem da ontologia fundamental à questão da verdade do ser responde à insuficiência de um fundamento centrado na compreensão humana, mas deixa aberta a tarefa de pensar, sem hierarquia fixa, a pluralidade dos entes e de suas formas de aparecer.
  • A unidade possível do percurso depende da permanência de problemas que retornam transformados, e não da redução de seus caminhos a um único princípio ou à sucessão de doutrinas que se substituiriam integralmente.

III. Niilismo e revolução mundial

  • As guerras e revoluções do século XX mostraram que filósofos e teólogos podiam vincular suas interpretações da história a decisões políticas cujas consequências escapavam às expectativas inicialmente formuladas.
  • A adesão de Heidegger ao nacional-socialismo em 1933 pertence à tentativa de reconhecer uma transformação histórica radical no movimento que chegava ao poder; sua atuação como reitor vinculou explicitamente a universidade, o povo alemão e a direção política dessa transformação.
  • A renúncia ao reitorado e a crítica posterior ao racismo, à propaganda e à organização totalitária assinalam mudanças reais de posição, mas não apagam a expectativa de uma revolução mais originária que ainda comparece nos cursos seguintes.
  • A interpretação de Hölderlin, da tragédia e do pensamento grego foi atravessada pela procura de uma renovação histórica alemã, tornando necessário distinguir as possibilidades filosóficas dessas leituras de suas implicações políticas naquele momento.
  • A crítica heideggeriana à técnica e à vontade de poder passou a compreender o totalitarismo como expressão de uma história mais extensa do niilismo; essa ampliação do diagnóstico não explica por si só a especificidade dos crimes do regime nem a responsabilidade pela adesão inicial.
  • A equiparação filosófica entre diferentes sistemas políticos sob a figura da mobilização planetária obscurece diferenças decisivas de suas instituições e ações, precisamente no ponto em que uma reflexão política precisa formular juízos determinados.
  • A reivindicação alemã de um destino privilegiado para a poesia e o pensamento conserva pressupostos históricos que não desaparecem com a crítica posterior ao nacional-socialismo; a dimensão política possui exigências próprias que não podem ser confiadas apenas à nomeação poética do sagrado.
  • A possibilidade de transformar tecnicamente o mundo até ameaçar sua existência torna necessária uma interpretação das escolhas envolvidas nessa transformação, mas a preocupação com a Terra requer também discernimento entre alternativas políticas concretas.
  • A discussão das relações entre filosofia, linguagem e política permanece aberta quando as interpretações de Heidegger são confrontadas com outras tradições, sem que sua fecundidade conceitual sirva de absolvição histórica ou sua falha política encerre todas as questões filosóficas.

IV. Os caminhos tardios de Heidegger

  • As conferências tardias sobre identidade, diferença e fundamento permitiam entrever questões dos Aportes à filosofia, mas a distância entre seus momentos impõe reconhecer alterações de linguagem, de ênfase e de direção no próprio pensamento.
  • As interlocuções com Celan, Klee, Becker e outros pensadores e artistas expuseram Heidegger a exigências que sua concentração na história ocidental do ser nem sempre acolheu plenamente.
  • A poesia de Celan vinculava a palavra à memória dos mortos e à possibilidade de dirigir-se a outro, fazendo surgir uma tensão entre a procura de um lugar próprio e a exigência de solidariedade diante do acontecido.
  • A atenção heideggeriana à poesia de Celan foi seletiva: o reconhecimento de sua força coexistiu com dificuldades para receber aspectos da obra que resistiam à interpretação a partir de Hölderlin e da questão do ser.
  • O interesse pela pintura de Klee e pelas discussões sobre matemática e técnica abriu outras possibilidades de interlocução, enquanto problemas do historicismo, das ciências humanas e da vida concreta receberam acolhimento desigual.
  • A pluralidade de caminhos filosóficos exige preservar a diferença entre poesia, fé, investigação científica e pensamento, sem perder a medida comum necessária sobretudo à convivência política.
  • A busca de uma linguagem adequada ao acontecimento apropriador (Ereignis) conduziu Heidegger a manuscritos e formulações sempre retomados, nos quais a concentração no que considerava essencial podia também afastá-lo de experiências indispensáveis à vida.
  • A condição inconclusa dos trabalhos tardios deixa aberta a possibilidade de novas leituras, mas impede convertê-los antecipadamente numa obra final que resolveria as tensões de toda a trajetória.
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