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Hermenêutica

STAPLETON, Timothy J. The Question of Hermeneutics: Essays in Honor of Joseph J. Kockelmans. Dordrecht: Springer, 1994.

O futuro da filosofia hermenêutica

  • A difusão da filosofia hermenêutica não assegura, por si só, um futuro filosoficamente fecundo: a possibilidade de prosseguir depende de reconhecer as insuficiências de seus pontos de partida diante dos problemas contemporâneos.
  • A relação entre a dialética de Hegel, a hermenêutica de indicação formal de Heidegger e as diferenças ainda não suficientemente pensadas delimita a tarefa de uma filosofia hermenêutica por desenvolver.

I. Hegel e as consequências

  • A transformação hegeliana do amor à sabedoria em saber efetivo exige que a filosofia supere a condição de busca permanentemente ameaçada pela ignorância e articule suas descobertas em um sistema capaz de justificar sua validade.
  • A dialética, herdando a questão platônica da participação e da unidade dos conceitos, pretende acompanhar o movimento pelo qual determinações opostas se transformam e alcançam uma unidade especulativa que compreende também a realidade e a vida.
  • A crítica moderna aos pressupostos transcendentes leva Hegel a atravessar o niilismo e o ceticismo: a experiência livre deve integrar-se a uma totalidade na qual a filosofia reconheça racionalmente o que se realizou na história.
  • O saber absoluto reivindica a superação da dispersão temporal da experiência mediante o conceito, subordinando os acontecimentos contingentes a uma história ideal cujas possibilidades já podem ser articuladas especulativamente.
  • A sensibilidade hegeliana para os processos políticos, morais, artísticos e religiosos permanece ligada a uma teleologia que restringe a singularidade da história, especialmente quando a evolução da vida e a vastidão da pré-história humana excedem os limites temporais admitidos pelo sistema.
  • As diferentes escalas da experiência temporal e as transformações científicas da medida do tempo põem em questão tanto a ideia de um tempo absoluto quanto a possibilidade de reduzir a duração vivida a uma ordem conceitual definitiva.
  • A duração de Bergson reúne passado e futuro aberto na experiência da liberdade e resiste à representação espacial de instantes imóveis, embora a discussão com Einstein torne necessário examinar os pressupostos filosóficos presentes também nas interpretações físicas do tempo.
  • A multiplicidade das linguagens da ciência, da experiência religiosa e da vida histórica exige uma hermenêutica capaz de distinguir seus modos de acesso aos fenômenos e de compreender uma situação sem pretender observá-la de um ponto de vista exterior a toda situação.
  • A autorreflexão histórica de Dilthey abre a possibilidade de uma filosofia hermenêutica na qual compreender significa também compreender o outro dentro de uma pluralidade aberta de perspectivas.

II. Dialética e hermenêutica de indicação formal

  • A fenomenologia de Husserl forneceu a Heidegger recursos para radicalizar a hermenêutica histórica de Dilthey, enquanto Kierkegaard tornou decisiva a crítica à dialética hegeliana por meio da experiência do instante (Augenblick).
  • O instante designa a transformação súbita de uma situação na qual a existência é chamada a decidir, mas essa experiência exige uma elaboração filosófica própria para não permanecer apenas uma contraposição religiosa ou literária ao sistema de Hegel.
  • A dialética platônica procura pensar a unidade e a multiplicidade mediante o movimento dos conceitos, ao passo que a indicação formal heideggeriana orienta a compreensão para uma realização situada que nenhuma determinação conceitual substitui antecipadamente.
  • A diferença entre o «como» hermenêutico e o «como» apofântico mostra que o trato com uma mesa ou um martelo já possui sentido antes de sua formulação em uma proposição teórica sobre propriedades de objetos.
  • A existência compreende a si mesma a partir de possibilidades futuras, enquanto o trato prático pode concentrar-se na finalidade dos utensílios e a atitude teórica pode abstrair dessa rede cotidiana; a interpretação temporal procura distinguir esses modos de ser sem negar a validade própria de cada investigação.
  • A articulação sistemática dos modos de ser deveria vincular-se à destruição histórica das categorias recebidas, pois as determinações temporais que orientam o pensamento também surgem em constelações históricas particulares.
  • A parte não publicada de Ser e tempo encontrou uma dificuldade fundamental: a temporalidade deveria fundamentar a interpretação da multiplicidade do ser e, simultaneamente, ser compreendida como histórica, sem poder oferecer um fundamento exterior à própria história.
  • A virada (Kehre) deslocou essa dificuldade para o acontecer histórico da verdade do ser, mas a elevação da história a dimensão fundamental ameaça obscurecer outras dimensões da existência, entre elas a natureza e o ser ideal.
  • A filosofia hermenêutica permanece, assim, diante da tarefa de preservar a radicalidade e a amplitude da fenomenologia sem converter a historicidade em princípio exclusivo de todos os fenômenos.

III. O futuro como tarefa

  • A filosofia hermenêutica atual reúne problemas provenientes de Dilthey, da filosofia prática e de disciplinas como teologia, direito e medicina, nas quais distinções orientadoras e situações concretas exigem interpretação.
  • A aproximação entre tradições analíticas e hermenêuticas não precisa aceitar como definitiva a divisão entre convicções privadas e debate público, pois a própria formação histórica dessa divisão pode ser interrogada.
  • A suspeita introduzida por Marx, Nietzsche e Freud põe em questão a transparência da consciência; a tentativa de reunir as interpretações em uma totalidade histórica, porém, encontra a resistência da alteridade e do que permanece irredutível à compreensão integradora.
  • O rastro do outro e a memória de traumas introduzem uma obrigação ética que não se deixa reconduzir inteiramente à busca de uma identidade própria ou de uma totalidade hermenêutica.
  • A crítica da totalidade deve conservar a atenção fenomenológica às próprias coisas, inclusive à validade e aos limites das geometrias, das ciências e de outras práticas que possuem modos específicos de demonstração.
  • A universalidade da compreensão defendida por Gadamer precisa ser posta à prova diante das diferenças entre compreender e explicar, espírito e natureza, identidade e alteridade, sem absorver prematuramente uma dessas experiências na outra.
  • A incerteza acerca do cosmos, da origem e da distribuição da vida e da possibilidade de outras formas racionais impede respostas especulativas definitivas, mas oferece questões concretas a partir das quais a filosofia pode reconhecer o que sabe e o que ainda ignora.
  • Uma filosofia hermenêutica não dispõe previamente de um centro fundador: parte de acessos científicos, históricos, artísticos e éticos diversos e examina, em diálogo, as relações e os limites de cada um.
  • A pluralidade desses pontos de partida exige distinguir condições do conhecimento, estruturas da existência, formações históricas e hipóteses metafísicas, além de manter aberto o encontro entre tradições filosóficas de diferentes origens.
  • A radicalidade da filosofia subsiste na autocrítica de seus pressupostos e na continuidade das perguntas que nenhuma interpretação isolada pode encerrar.
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