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estudos:nancy:2015:1.1

1.1 Deuses se retiram...

Jean-Luc Nancy, Demande: Philosophie, littérature, Paris: Éditions Galilée, 2015

“Um dia, os deuses se retiram…”: (Literatura/Filosofia: entre)

Um dia, os deuses se retiram. Por vontade própria, retiram sua divindade, ou seja, sua presença. Eles não vão simplesmente partir, não vão para outro lugar; vão se retirar de sua própria presença — vão desaparecer dentro dela.

O que resta de sua presença é o que resta de toda presença sempre que ela se desvanece — resta o que pode ser dito a respeito dela. O que pode ser dito a respeito dela é o que resta quando já não podemos mais nos dirigir a ela: não podemos falar com ela, nem tocá-la, nem observá-la, nem oferecer-lhe um presente.

(Além disso, talvez os deuses se retirem porque não se oferece mais nenhum presente à sua presença: nenhum sacrifício, nenhuma oferenda, a não ser por costume ou imitação. Temos outras coisas para fazer: escrever, por exemplo, calcular, conduzir negócios, legislar. Privada de presentes, a presença se retira.)

1. Um dia, os deuses se retiram, retirando por vontade própria sua divindade, isto é, sua presença, não simplesmente indo embora, não indo para outro lugar, mas retirando-se de sua própria presença: desaparecendo dentro dela.

2. O que resta de sua presença é o que resta de toda presença sempre que ela se esvaiu, restando o que se pode dizer sobre ela, sendo o que se pode dizer o que resta quando já não podemos mais dirigir-nos a ela: não podemos falar-lhe, tocá-la, observá-la, nem oferecer-lhe um presente.

  • Talvez os deuses se retirem porque já não se oferece presente algum à sua presença: nenhum sacrifício, nenhuma oblação, senão por costume ou imitação, temos outras coisas a fazer: escrever, por exemplo, calcular, fazer negócios, legislar; privada de presentes, a presença se retira.

3. Dessa presença ausente há sempre apenas duas possibilidades: sua verdade ou sua história, tendo de ser, evidentemente, sua verdadeira história, mas, tendo a presença fugido, já não é certo que qualquer história sobre ela seja absolutamente verídica, pois nenhuma presença pode atestá-la.

4. O que resta cinde-se imediatamente em dois: história e verdade, tendo ambas a mesma origem e relacionando-se com a mesma coisa: com a mesma presença que se retirou, manifestando-se assim sua retirada como a linha que as separa, história e verdade.

5. Mythos é a narrativa das ações e paixões divinas, entre as quais sempre se encontram aquelas relativas ao mundo e suas operações, ao homem e seu destino, significando mythos o dizer de algo pelo qual se dá a conhecer a coisa, o assunto, sendo em latim isso sua narratio, seu conhecimento.

6. Quando os deuses se retiraram, sua história já não pode ser simplesmente verdadeira, nem sua verdade simplesmente narrada, faltando a presença que atestaria tanto a existência do que é narrado quanto a veracidade da fala que narra.

7. O que falta é o corpo dos deuses: Osíris desmembrado, o Grande Pã morto, faltando o corpo verdadeiro que por si mesmo proferiria sua verdade: sua estátua salpicada do sangue das vítimas, impregnada da fumaça do incenso, ou o bosque sagrado onde se pode ouvir o murmúrio da fonte de onde jorra uma presença subterrânea.

8. O que falta é esse corpo falante, restando o que se pode dizer sobre ele, tendo o dito se tornado incorpóreo, como o vazio, como o lugar e o tempo, sendo essas as quatro formas do incorpóreo, isto é, o intervalo no qual os corpos podem se encontrar mas que ele mesmo jamais é um corpo, sendo propriedade do intervalo abrir-se e dividir-se a si mesmo.

9. O dito já não é dado, compacto, com o corpo divino, oração de seus lábios: separa-se de si mesmo, distorce-se, logos.

10. Verdade e narração, portanto, se separam uma da outra, sendo sua separação traçada com a mesma linha traçada pela retirada dos deuses, sendo o corpo dos deuses o que resta entre elas: restando ali como sua própria ausência, restando ali como corpo pintado, corpo figurativo, corpo narrado, mas já não havendo o sagrado corpo a corpo.

11. Entre literatura e filosofia falta esse entrelaçamento, esse abraço, esse enredamento sagrado entre homem e deus, isto é, entre homem e animal, planta, trovão, rocha, sendo sua distinção exatamente esse desentrelaçamento, esse desabraçar, sendo o emaranhado assim desemaranhado separado pela mais afiada das lâminas, mas trazendo o próprio corte para sempre as marcas desse enredamento, estando entre eles aquilo que não pode ser desemaranhado.

12. Verdade e narração se separam de tal modo que é sua separação que as estabelece ambas, pois sem essa separação não haveria nem verdade nem narração: haveria o corpo divino.

13. Não apenas está a narração suscetível de, ou suspeita de, carecer de verdade, mas dela é privada em princípio, sendo privada do corpo, presente como boca de seu próprio enunciado, como pele de sua própria exposição.

14. Essa privação é identicamente a privação da verdade, e a verdade, por princípio, aqui se retira, irrepresentável, incontável, tornando-se a verdade um ponto de fuga anamorfoseado num ponto de interrogação, tornando-se a verdade: o que é a verdade? permanecendo, para ultrapassar a questão, até para dela se libertar, o ponto de fuga, a perspectiva infinita daquilo que agora se nomeia logos.

15. A narração expõe figuras: inventa-se como representabilidade em geral, isto é, o traço de contornos pelo qual um corpo dá a conhecer sua presença e, sobretudo, se torna corpo, sendo contudo duvidoso que o corpo delineado por esse traço seja verdadeiro, expondo o traço narrativo uma manifestação corporal ainda que seja incerto se ela é identicamente um corpo manifesto.

16. É antes certo que não o é: ao representá-lo, a narração o declara ausente, sendo o mesmo traço que faz o próprio deus, oficiante de cabeça de chacal ou lágrima resinosa na lateral de uma árvore, e que atualmente faz sua figura, dividindo-se contudo esse traço: falta o corpo divino.

17. Assim, a perspectiva da verdade também visa essa ausência como sítio daquilo que deseja, mas cuja ausência se esforça por mostrar, mostrando essa ausência, a própria figura, a imitação, a representação, a alegoria, a mitologia, a literatura, fala a verdade: que é um defeito, um erro, ilusão, mentira, engano.

18. Contudo, ao falar essa verdade, fala apenas metade da verdade: falta a presença além da figura ou na própria figura, dizendo porém o discurso da verdade que essa presença está além do ser, empurrando esse discurso a si mesmo até esse além, onde se dissolve num excesso de luz, um brilho dentro do qual toda representabilidade possível é abolida.

19. Entre a figura e o brilho permanece o corpo divino ausente, restando um corpo singular de ausência de cada lado do qual narração e perspectiva da verdade se tocam, descrevendo uma as formas do corpo, inscrevendo a outra sua escavação, entre descrição e inscrição, para sempre esticada entre elas, dilacerada, apenas a escrita, gráfico interminável cinzelado no chumbo de um selo afixado ao sítio da retirada.

20. A cena se passa em torno de um túmulo vazio, uma múmia oca, um retrato que não se parece com ninguém: em torno de um corpo agora produzido, verbalizado como corpo, isto é, um exterior ausente, sendo esta uma cena, e sendo desempenhada com muita eficácia, sendo simultaneamente cena de luto e desejo: filosofia, literatura, cada uma delas enlutando-se e desejando a outra, precisamente a outra, mas cada uma também competindo com a outra no cumprimento do luto e do desejo.

21. Se o luto prevalece e se encerra em desolação sem fim, uma ou outra descerá à melancolia, a garganta apertada pelo corpo perdido, sendo este também, a cada ocasião, para uma a imagem da outra: a filosofia se estrangula com uma literatura impossível, uma literatura que é seu próprio impossível, ou antes o inverso.

22. Às vezes é a literatura que conduz o luto que a filosofia experimenta ou nega, às vezes é a filosofia que sustenta a ausência que a literatura embeleza, mas o gesto de uma pode também ser o fato da outra, podendo também existir um poema filosófico que se esgota no desejo do outro e no desejo de poetizar.

  • Há muito deixei de me preocupar com a felicidade; preocupo-me com minha obra.
  • Colocaram seus próprios parentes nas piras funerárias de outros, e com gritos frenéticos as incendiaram, e frequentemente, na batalha que se seguia, derramavam muito sangue antes de abandonar os corpos.

23. Não abandonar os corpos, possivelmente apesar da obra, essa é a tarefa: não abandonar os corpos dos deuses sem, contudo, querer relembrar sua presença; não abandonar a função da verdade nem a da figura sem, contudo, preencher a distância entre elas com sentido; não abandonar o mundo que se torna sempre mais mundo, sempre mais marcado pela ausência, pelo intervalo, incorpóreo, mas sem saturá-lo de significação, de revelação, anúncio ou apocalipse.

24. A ausência dos deuses é a condição de ambas, literatura e filosofia, o entre que as legitima a ambas, irreversivelmente ateológico, mas cabe a ambas a responsabilidade de nutrir esse entre: de manter o corpo aberto, de permitir-lhe a possibilidade dessa abertura.

Anexo

25. Diante do convite para escrever o que quisesse, fiquei imediatamente paralisado: como escolher? Nada me foi imposto: nenhum assunto, sendo evidente que a oferta, ou a exigência, de escrever o que se deseja mistura duas ideias, sendo, rigorosamente falando, um assunto dado que se deveria abordar como se deseja, e, não sendo dado, não o encontrarei, jamais tendo sabido, em toda a vida, o que significa querer.

  • Não podes me mostrar homem algum que saiba como começou a desejar aquilo que deseja; não foi levado a esse ponto pela deliberação, mas empurrado por impulso.

26. Séneca qualifica, em outra carta a Lucílio, a filosofia do bonum consilium: consideração cuidadosa, deliberação, conselho, sendo a filosofia bom conselheira mas não me fornecerá impulso algum, e sem impetuosidade não conseguirei decidir um tema, sendo isto por ora o que me impele a seguir meu desejo.

27. A filosofia é hoje termo popular, mercadoria desejável, dizendo-se ser efeito de uma falta de sentido em nosso mundo e do apetite resultante por consilium, acontecendo contudo que o que primariamente se busca, e se põe à venda, é uma filosofia de aconselhamento: dispensadora de lições, até de consolo, instrutora de virtudes, fornecedora de representação, atenta à sabedoria, oriental ou orientadora, sempre com o diálogo nos lábios e a ética ao alcance, junto com um estoque substancial de valores e sentidos.

28. Mas filosofar não é mergulhar de modo algum num reservatório de sentido, não compensando déficit algum, agitando antes a verdade de cima a baixo, começando o filosofar precisamente onde o sentido é interrompido, tendo assim tudo começado há uns vinte e sete séculos: através de uma grande interrupção das significações disponíveis nas margens do Mediterrâneo, significações essas que receberiam o estatuto de mitos.

29. Que hoje experimentemos outra suspensão do sentido, por exemplo os significantes história, homem, comunidade, arte, nada tem de novo, exceto pela exposição a novas exigências e novas possibilidades para o pensamento, a fala e a escrita do pensamento.

30. Isto, começar ou recomeçar, o que faz incessantemente, sempre essencialmente in statu nascendi, tem necessidade de impulso, não procedendo o filosofar sem alguma força motriz, mesmo violenta, que se precipita e também arranca: que arranca do sentido depositado, sedimentado, semidecomposto, e se apressa em direção ao sentido possível, sobretudo aquele não dado, não disponível, que deve ser apanhado de surpresa, surpreendido em sua chegada imprevisível e jamais simples, jamais unívoca.

31. Para um prisioneiro sair da caverna de Platão, certa violência é necessária: a luz o fere, é forçado a virar-se, cumprindo-se o pensamento não apenas numa explosão cegante, mas também assim começando, encontrando-se entre eles o crepúsculo persistente, quando o medo ergue suas poderosas asas hegelianas até o amanhecer que se aproxima.

32. Certamente devemos pensar, tendo tudo mais uma vez se tornado não apenas digno de pensamento mas sofrendo de uma falta de ser pensado, o capital, por exemplo, diante do qual não basta agitar exorcismos ou oferecer compromissos, a identidade, que parece ter se tornado incapaz de afastar-se de si mesma para relacionar-se consigo mesma, ou até a soberania, sobre a qual já não sabemos nada, exceto que deriva de uma ordem político-teológica da qual nos desamarramos.

33. Poderia continuar assim e, evidentemente, acrescentar a filosofia à lista, cujo uso intemperante em breve a tornará sem sentido, e a literatura também? Mas a poesia continua a resistir, exigindo isso uma força motriz, não sendo em outras palavras questão de buscar garantias, exigindo isso um levante, uma insurreição do pensamento, risco portanto, e transtorno.

34. Não se pode ser sábio demais para filosofar, exigindo isso até um toque de loucura, nada estando mais próximo da loucura que o ato de criar-se a si mesmo e produzir para si mesmo seu próprio objeto e dá-lo a si mesmo, que é para Hegel o ato livre do pensar.

  • O ato livre do pensar.

35. Criar conceitos, manusear línguas, polir estilos, perfurar o pensamento, esse é o trabalho a ser feito primeiro, sendo também uma festa, não devemos esquecer isso: não uma questão de lanternas mas uma questão de impetuosidade e de sair de si mesmo, sendo uma febre contraída ao ar livre à qual o pensamento se expõe.

36. Se não se expõe, deteriora-se: isso deve ser dito sem patetismo, sobriamente, mas com toda a força que pudermos reunir, não devendo, no fim das contas, como disse Artaud, permitir que o zumbido filosófico do ser foda a vida mais uma vez.

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