9 Nações
Identité: Fragments, franchises. Éditions Galilée, 2010.
1. Certamente, em dada época, há sempre algo de um povo constituído de uma maneira ou outra, um que fala basco ou finlandês, que conta os dias ou tece suas roupas de tal ou qual maneira, havendo contudo, atrás desse povo, sua língua, seus costumes ou sua costura, sempre outros povos e outras línguas, outros modos, outras invenções.
2. E, certamente, cada povo tem uma identidade, ou antes é uma identidade, pois não se pode possuir uma identidade, sendo de fato assim que um povo se torna um povo, isto é, relaciona-se consigo mesmo: ele se compreende, não fala sua língua sem inervá-la com aquilo que se chama sentimento linguístico, sabendo-se que o bilinguismo nem sempre é assunto simples, partilhando e participando de traços mais ocultos que incluem a relação com a morte ou os diversos modos de cantar.
3. Relaciona-se consigo mesmo, compreendendo-se que isso não significa relacionar um povo x a um povo x supostamente dado antes dele, significando antes que, ao marcar essas escolhas, de sons, gestos, cores, práticas, emoções, ele se faz a si mesmo, fazendo sobressair uma identidade que se torna reconhecível ou identificável para si ao mesmo tempo em que se torna para os outros, precisamente a fim de distinguir-se a si mesmo, de diferenciar-se primeiramente de nada, do vazio, do ser abandonado, e, na diferença, abrir uma possibilidade de sentido.
4. Outra possibilidade: não porque fosse melhor aumentar essas possibilidades, que de certo modo provavelmente não podem ser aumentadas, tantas culturas estão soterradas, esquecidas, e tantas outras o estarão, incluindo a nossa, mas porque o sentido do sentido é seu recomeço, sua reinvenção, sendo por isso frequentemente lamentável ouvir celebrar-se sem cessar uma multiculturalidade que um discurso progressista louva como inovação dionisíaca, quando de fato esse termo pobre e pesado foi cunhado apenas para manter juntos diversos remendos cujas peças, na maioria das vezes, permanecem, apesar de tudo, presas às monoculturas de onde se originam.
5. A multiculturalidade é a condição de cada cultura, sendo cada uma um ponto de partida e uma despedida, também uma espécie de desenho, um estilo, uma virada ou uma torção, uma configuração mais ou menos durável emprestada àquilo que, de si, não tem figura mas que se revela em seus aspectos novos e inéditos por essa virada, esse esboço.
6. Pode-se ao menos pensar que foi esse o caso na Europa, na África, na Ásia e na Oceania até que emergisse algo, agora irrefutável, que é bem menos, no fim das contas, a expansão de um modelo único, embora exista, fast-food, mangá, blogs, do que o fato de que esse modelo mal é um modelo, reunindo não os traços de uma cultura mas os de um habitus, sendo aquilo que a ocidentalização do mundo propagou um habitus ou um conjunto de habitus, sendo este sem cultura, o que significa também sem linhagem e sem povo.
7. A esse habitus pertence a nação no sentido moderno do termo, isto é, o povo que se define como vontade comum, ou geral, e que se institui como operador de um propósito comum, podendo o comum ser concebido como resultado de uma vontade ou, ao contrário, como produzido por uma história, remetendo a primeira concepção a Rousseau e ao espírito de 1789, e a segunda aos vários movimentos nacionalistas do século dezenove, em particular na Alemanha, entrando-se contudo por ambos os caminhos no movimento de um poder constituinte, sendo o Estado aquilo que é constituído.
8. Num sentido, então, a nação é o próprio povo enquanto poder constituinte, tendo ao mesmo tempo as nações também desfeito povos, não havendo dúvida de que a invenção europeia do Estado-nação borrou ao menos dois tipos de identidade: a do povo tal como a descrevi, que é a da identidade que se faz buscando-se e inventando-se a si mesma, e a de uma ordem inteiramente diferente, a identidade do reconhecível ou identificável, tendo-lhe nós um nome: estado civil.
9. Os registros do estado civil em sentido próprio, e a multidão associada de papéis de identificação e localização, certificados de emprego, de desemprego, de educação, tudo isso pertence à identidade no sentido do reconhecível: o ponto de interseção, que, decerto, não tem mais dimensão que o ponto infinitesimal de que falei, aquele do qual e ao qual sempre retorna um caminho singular cuja decifração só pode ser infinita: uma existência.
10. Não se trata de traçar um quadro maniqueísta que oponha a nação ao povo, e certamente não cabe a um francês denegrir ou denunciar o que uma constância notável, que emanou de um povo, de certo modo, foi capaz de fazer de Filipe o Belo a Robespierre, e mesmo, sejamos excessivos, através de nossos dois Napoleões, e depois Gambetta e Jaurès, alguns nomes que pontuam a história de um povo, ainda o que carrega o nome dos francos, que reduziu e anexou alguns outros povos, occitanos, tolosanos, bascos, borgonheses, normandos, alsacianos, corsos, por uma mecânica de guerras e alianças que, ao mesmo tempo, não impediu que se formasse uma identidade, frequentemente sob coação, e que coação!, mas de tal modo que houve também algo como a germinação de uma linhagem, aquela que nos permite traçar o grande quadro da França com suas catedrais, suas montanhas, seus Condorcets e seus Hugos.
11. Contudo, ao mesmo tempo, na França e em torno dela, era a cultura do Estado e da indústria que, silenciosamente, sem que ninguém realmente notasse, deslocava a lógica mais profunda dos povos e identidades, tornando-se os povos, transformados em nações, identificados com elas ou absorvidos por elas, menos capazes desses novos começos, dessas invenções que haviam produzido e renovado suas características, tornando-se o terreno menos hospitaleiro para pontos de aterrissagem a partir dos quais criar e traçar novos caminhos.
12. Estamos antes entre pontos de referência reconhecíveis: o estado civil e a admissão ao estado civil, ou cidadania, tornaram-se as únicas virtudes e no fundo as únicas verdadeiras identidades esperadas de qualquer um, grupo ou indivíduo, sendo, entre esses pontos de referência altamente regulados, as trajetórias dadas pelas necessidades, oportunidades e, se possível, as autorregulações da sociedade.
13. Esta última não é nem nação, nem povo, nem Estado, nem grupo, nem indivíduos, dizendo-o bem claro seu nome: a sociedade associa, mas não identifica, exceto pelo estado civil, a previdência social e todo tipo de codificação, não sendo porém a codificação uma identidade, sendo isso óbvio, e no entanto é à sociedade que se fez a proposta ou a exigência de debater aquilo que a identifica.
14. Muitos daqueles a quem se pediu que identificassem a identidade francesa ficariam mais que felizes em partilhar um país, outro nome para identidade, sendo esse país, às vezes chamado bled, frequentemente para eles um alhures de onde partiram e ao qual talvez não retornem, gostariam eles que o que está aqui pudesse também tornar-se um país nesse sentido, mas vemos que não é um país, é uma sociedade, uma administração, um sistema funcional, não é uma vida, não tem identidade, corta seu ser em pequenos pedaços: campanários, vinhedos, tribunais, direitos humanos, ah, a humanidade! mas o que é isso?, laicidade, os subúrbios.
15. Onde está o país, perguntam, onde está o povo? Respondemos-lhes com identidade, tendo, além do fato de ser essa uma decisão do Estado, que os prefeitos são obrigados a implementar, apresentada como uma grande e bela iniciativa nacional relativa à própria nação, sido confiada a tarefa de restaurar a identidade da França a uma espécie de psicossociologia jornalística, algo como uma entrevista ampliada de rua, como se já não sofrêssemos bastante com os incontáveis espelhos psico-demo-culturo-político-lógicos que livros e revistas nos apresentam todos os dias.
16. A resposta verdadeira é, ao contrário: não, não se julga a identidade nacional segundo os padrões de um debate, modula-se antes essa identidade da maneira mais simples e melhor adaptada às necessidades contemporâneas e futuras da sociedade, pois é a sociedade que aqui está em jogo, engajando-se ao mesmo tempo numa política inteiramente diferente quanto às causas profundas da imigração, podendo-se então ver a identidade ou identidades que se formarão, o povo ou povos franceses, e por que apenas franceses? Por que outros nomes não poderiam aparecer?
17. E o fundamento dessa resposta não é que o debate de opiniões e a psicossociologia manchada seriam um conhecimento pobre ou fraco, o que também são, mas sobretudo estarmos fora do nível do conhecimento, erudito ou não, não se tratando de adquirir o conhecimento dessa identidade, francesa, alemã, italiana etc., sendo uma identidade um ato ou uma tensão cujos efeitos podem ser reconhecidos mas cuja natureza não pode ser isolada como um elemento químico.
