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estudos:nancy:2010:8

8 Povos

Identité: Fragments, franchises. Éditions Galilée, 2010.

1. A questão das identidades culturais é muito séria e antiga, chamando-as de identidades culturais, embora se pudesse falar também de povos, configurações simbólicas, línguas, mentalidades e estruturas, podendo fundir-se todos esses termos num só, que de fato seria aquele que, há muito tempo, carrega esse valor complexo, até avassalador, a saber, a palavra povo, exigindo contudo seus usos atuais que dela não se dependa excessivamente, devendo ouvir-se nela ao mesmo tempo os sentidos de tribo, população e povoamento, evitando a rigidez superidentificadora que a palavra etnia ocasionou.

2. Um povo, para usar essa palavra ainda uma vez nesse sentido ao mesmo tempo preciso e profuso, não é senão aquilo que corresponde ao princípio da não-generalidade, não existindo nada geral, mesmo havendo regras gerais que, por sua vez, não são existentes, sendo singular o que existe, sendo sem dúvida a cultura ocidental a única a ter passado pelo episódio de uma discussão sobre a existência dos universais, não sendo isso acidente, tendo sido necessário produzir as distinções necessárias para poder tratar objetos da ciência como distintos dos objetos da percepção.

3. Poder-se-ia contudo mostrar que, mesmo para aqueles que sustentavam a existência dos universais, qualidades ou propriedades reais, essas existências não eram menos singulares à sua maneira, sendo evidente que, quanto à existência de Deus, embora inclua toda a possível universalidade, generalidade e particularidade, ela só pode ser, se é, a existência mais singular possível.

4. Tudo passa por divisões, classificações e distinções, até os grandes reinos: os minerais têm suas classificações, ordens, famílias, e assim por diante, sendo isso ainda mais o caso para plantas e animais, até serem substituídos ou postos de lado, para melhor ou para pior, por essas outras formas de existir que nossa tecnologia produz e que começam a complicar, modificar e mudar nossa identidade humana.

5. Contudo, nunca há, nem na natureza nem na tecnologia, enquanto puderem ser distinguidas, um indivíduo puro, começando tudo pela espécie, não pelo indivíduo, não sendo essa uma questão de paleontologia mas de ontologia tout court: o ser é plural ou não é, e o é em todos os registros do ser, não começando a humanidade com um casal original, mas com um grupo, e como grupo, ou melhor, sem dúvida, como vários grupos, que aliás podem não ter sido todos humanos no sentido que conhecemos.

6. Isso já forma a lei das existências em geral: pluralidade e relação, sem as quais nem se poderia ver o que existir poderia significar, aplicam-se, se assim se pode dizer, de maneira dupla àqueles existentes cujo traço distintivo é pertencer ao elemento do sentido, isto é, pertencer-lhe inteira e expressamente, não havendo conduta ou comportamento humano que não faça sentido, e além disso não havendo conduta ou comportamento de outros existentes que não façam de algum modo sentido nas palavras, nas mãos, nos olhos dos humanos, e na, e como, multiplicidade de suas produções e trocas.

7. Há assim, primeiramente, vários povos, várias línguas, várias disposições simbólicas e físicas, modos de emitir sons, por exemplo, modos de estar juntos, não sendo eu competente para discutir se são muitos ou poucos, notando apenas isto: há sempre uma forma ou outra de povo, e portanto de pertencimento a um povo, ou a vários, pois não está excluído que se circule, se misture com outros, e assim por diante, não sendo, ao mesmo tempo, um povo jamais originário, nem para si nem para outros, pluralizando o próprio fato dos povos qualquer noção de origem, abrindo desde logo para uma profusão mais que originária: a da existência.

8. Nesse sentido, um povo não é senão a realização da partilha simbólica, a divisão e repartição do campo simbólico, simbolizamos, fazemos sentido, e isso supõe que partilhamos sentido mas também que o sentido nos distingue: nós somos um nós, se assim se pode dizer, ou estamos entre nós, como condição de uma troca de sentido, distinguindo-nos significativamente dos outros entre nós, declarando-nos como espaço e ordem de partilha, só podendo haver uma pluralidade de espaços e ordens desse tipo.

9. Não apenas vários povos, mas várias maneiras de ser ou fazer povo ou de declarar-se, tendo assim o povo dos Estados Unidos se feito, literalmente se declarado, a partir de uma história muito curta e contra um pano de fundo cultural que misturava populações europeias que por muito tempo se identificaram de modos bastante diferentes, alemães, holandeses, franceses etc., tendo sua cultura sido desde o início aquela natureza produzida pelas Luzes, as Leis da Natureza e do Deus da Natureza, como diz a Declaração de Independência.

10. De modo muito diferente, poder-se-ia dizer que houve a tendência, ou que poderia ter havido, apesar da construção nacional artificial, um povo iugoslavo, que exigências identitárias desde então desmantelaram, cabendo perguntar quantos povos na África foram ou ainda são submetidos simultaneamente a genealogias herdadas e a divisões coloniais mal geridas e construções nacionais instáveis, e o que se deveria dizer sobre a América Latina e as combinações amplamente diversas que se deram entre povos indígenas, europeus e escravos africanos, ou que resposta se poderia dar a esta questão: quantos povos chineses existem?

11. Na realidade, os povos jamais são completamente identificáveis, nem numa origem nem numa característica unívoca, nem mesmo linguística, não sendo os povos entidades, mas signos indefinidamente trocados, e mutantes, de nossa existência comum, que ela mesma não pode ser reunida sob nenhuma humanidade identificável.

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