3 Identidade
Identité: Fragments, franchises. Éditions Galilée, 2010.
1. O projeto de fazer a população de um país realizar um debate oficial sobre sua própria identidade inicia um processo mortífero, sendo o resultado inevitável, na verdade já presente desde o próprio anúncio, uma marca de obsolescência, senão de morte propriamente dita, em relação ao país em questão e a essa identidade cuja natureza se buscava, sendo impossível imaginar outro resultado a menos que o debate tivesse radicalidade e amplitude tais que seus próprios termos, identidade e francesa, pudessem ser postos em questão, deslocados ou subvertidos, o que seria sair dos limites do projeto.
2. O desígnio desse projeto é o esquema de uma identidade que seria de algum modo dada, recebida, reconhecível e sujeita a análise, não se perguntando se é apropriado, em que medida e como falar de uma identidade francesa, mas perguntando-se em que ela consiste, do que é feita, o que pode exigir e, consequentemente, o que tem o direito de exigir para que alguém seja nela integrado, assimilado, tornado seu sujeito, no duplo sentido da palavra sujeito: submeter-se ao soberano sendo ao mesmo tempo uma fração dele.
3. Deve-se supor, sob as condições implícitas desse projeto de debate, que não se espera que algum tipo de sangue e solo seja o fundamento dessa identidade, acreditando-se estar vacinado contra esse vírus, admitindo-se isso por hipótese, sendo contudo o caso de que a própria expressão identidade francesa abriga um convite, talvez mesmo uma incitação, a considerar algo como a terra francesa e, sobre essa terra, algo como uma linhagem ou uma família com os ancestrais que se tentou no passado identificar como os gauleses, para evitar ser classificado sob a identidade germânica dos francos cujo nome se carrega.
4. Ensinaram-se assim nossos ancestrais os gauleses a algumas gerações de occitanos, alsacianos, bretões ou bascos, senegaleses, malgaxes ou indochineses, com tal diligência sonâmbula que essa expressão de livro escolar tornou-se fórmula para zombar do zelo colonizador, tendo a memória dos colonizados transmitido essa ironia às jovens gerações de seus filhos nascidos na França do século vinte, que agora usam o termo gauleses para diminuir seus pares cujos antepassados foram os colonizadores, sendo esse um admirável retorno de uma identidade fantasiada como discriminação vingativa dos antigos negros, burnous ou chinocas, ou mais recentemente blacks ou beurs, sem falar dos boches, polacos ou macarrones.
5. Os boches desapareceram, mas os blacks e os reubeus ainda estão aqui, e muitos outros, misturados aos gauleses, sabendo-se bem que eles são o problema e que são eles que devem ser trazidos para dentro da identidade em questão.
6. Mas aqui já está o problema: uma identidade não é algo em que se entra, nem algo que se veste, e não se pode identificar-se com ela, supondo que faça sentido tratá-la como entidade ou figura, sem ao mesmo tempo modificá-la, modalizá-la, talvez transformá-la, não sendo as identidades nunca puramente estáveis nem simplesmente plásticas, sendo sempre metaestáveis.
7. São metaestáveis porque a força de uma identidade não está em estabilizar-se em torno de si mesma numa imitação perpétua, sendo talvez isso o que a França acreditou com demasiada facilidade, com base na força de ter sido reconhecida por muito tempo, com razão, como uma grande figura, não sendo porém a identidade uma figura, sendo antes algo mais sutil, mais delicado e mais evasivo, residindo sua força em deslocar-se, em mudar de figuras.
8. É por isso que uma forte identidade nacional não proporia debater sobre o que ela é, como se se tratasse de analisar um quadro, inventando antes outro quadro, uma nova cena, novos personagens.
9. A primeira pergunta que vem à mente como forma de abrir, ou de fechar, o debate é necessariamente esta: por que então é apenas a identidade francesa que propõe tal debate sobre si mesma?
10. A França pertence a uma Europa na qual não está sozinha a interrogar-se sobre essas mutações de populações, representações, mentalidades e modos de vida que são também, ou virão a ser, mutações de identidade, sendo o problema que a Europa já não tem identidade.
11. Parece mais ou menos possível identificar várias Europas na história: a Europa das catedrais, a das universidades, a das Luzes, a das nacionalidades e da burguesia conquistadora, a do movimento operário, tendo, desde que todas essas Europas se desfiguraram nas trincheiras, nos fascismos, nos campos ideológicos e nas glaciações, a Europa se tornado de novo o nome de uma ninfa aterrorizada, varrida por ondas que ameaçam afogar a identidade que ainda lhe resta.
12. Note-se aqui que as Europas evocadas eram todas compostas de alemães e franceses, ingleses, austríacos, italianos, espanhóis, holandeses, suecos, também poloneses e tchecos, sem ir mais longe numa lista que poderia se tornar bastante longa, sendo próprio dessas Europas justamente a combinação de tal multiplicidade, feita daquilo que se chamava às vezes, precisamente, o caráter dos povos cujos traços distintivos eram ao mesmo tempo linguísticos, culturais e espirituais, de mentalidades e tradições.
13. Veio um tempo em que esse terreno fértil foi explorado pelos nacionalismos, mas não se creio que se falasse de identidade antes de acrescentar-lhe nacional, sendo as palavras caráter, natureza e temperamento mais suaves, menos rígidas, menos policialescas e menos políticas.
14. Além disso, geralmente identidade é uma palavra usada sobretudo nos domínios lógico, filosófico e jurídico com o sentido de uma unidade permanente idêntica a si mesma, tendo-se tornado assim, no século dezenove, um termo administrativo, um documento, uma placa nominal, um cartão de identidade, entrando em uso mais amplo apenas quando seu núcleo lógico, o idêntico como tal, o x = x, tornou-se sítio de uma interrogação geral cujo modelo era: e se x diferisse de x?
15. Poder-se-ia dizer contudo que permaneceu uma palavra abstrata, presa em sua igualdade consigo mesma, abrindo-se com dificuldade àquela alteridade interna que o pensamento, desde Hegel, lentamente abriu nela, sendo que para Hegel a identidade do idêntico é apenas uma identidade abstrata, tendo já Leibniz sentido a necessidade de afirmar que não há dois seres concretos idênticos, ou indiscerníveis, no mundo, sentindo-se assim a rigidez do conceito.
