1 Forma
NANCY, Jean-Luc. Le plaisir au dessin. Paris: Galilée, 2009.
1. O desenho é a abertura da forma, o que pode ser pensado de duas maneiras: abertura no sentido de um começo, de uma partida, de uma origem, de um lançamento, de um impulso ou de um esboçar-se, e abertura no sentido de uma disponibilidade ou de uma capacidade inerente, evocando o desenho, segundo o primeiro sentido, mais o gesto de desenhar do que a figura traçada, e indicando, segundo o segundo sentido, a incompletude essencial da figura, uma não-clausura ou não-totalização da forma.
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De um modo ou de outro, a palavra desenho conserva um valor dinâmico, energético e incipiente que não existe em palavras como pintura, filme ou cinema.
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Em contrapartida, palavras como música, dança e poesia, ou como fala e canto, aproximam-se mais de preservar um dinamismo ou uma potência no interior de todo valor atual ou estático.
2. O desenho participa de um campo semântico em que ato e potência se combinam, ou em que o sentido do ato, do estado ou do ser em questão não pode ser inteiramente destacado de um sentido de gesto, de movimento ou de devir, desenhando-se a própria palavra desenho e desenhando-se para diante antes de toda forma disposta, de todo traçado, como se iniciasse um traço que deve sempre ser redescoberto - aberto, desdobrado, iniciado, incisado.
3. Na ideia de desenho, a palavra pode também designar uma suspensão essencial de uma realidade realizada: “Eis um desenho de Rembrandt” fornece apenas o sentido factual e informativo empobrecido da palavra, ao passo que a expressão “o desenho de Rembrandt” revela valor bem distinto, pois o desenho de Rembrandt é a maneira própria de Rembrandt desenhar, o conjunto de traços que distinguem seu desenho e, além disso, o papel que o desenho desempenha em sua obra, o modo como o desenho se realiza no interior da obra, seja nas pinturas, seja como exercício à parte, em esboços, estudos ou gravuras.
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“O desenho de Rembrandt” tende a distinguir-se apenas da “cor de Rembrandt”, expressão que designa a maneira própria segundo a qual Rembrandt emprega a cor ou as cores (seus matizes, nuances, relações etc.), deixando-se de lado, por ora, a partilha muito delicada e sem dúvida inextricável - divisão, troca e combinação - entre cor e desenho.
4. Enquanto propensão, “o desenho/a cor de Rembrandt” é o próprio “Rembrandt”, ou a “arte de Rembrandt”, situando-se essa singularidade ou originalidade além do estilo ou do talento, irredutível a qualquer forma de análise, sendo sem dúvida melhor indicada ao afirmar-se essa singularidade ou originalidade como “arte”, isto é, como um savoir-faire ou saber-fazer que excede todo saber e todo fazer.
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Não se trata aqui de uma questão de “gênio” - palavra da qual se deve permanecer precavido, e com razão -, mas antes do pensamento desse excesso, um pensamento do impensável e do inexequível (do indizível e do irrealizável).
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Cada vez que ocorre, esse pensamento enquanto tal só pode ser único e singular, sem substituição possível, como toda verdade.
5. Na ideia de desenho há a singularidade da abertura - a formação, o impulso ou o gesto - da forma, isto é, exatamente aquilo que não deve já ter sido dado numa forma para se formar, não sendo o desenho uma forma dada, disponível, formada, mas antes o dom, a invenção, o surgimento ou o nascimento da forma.
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“Que uma forma venha” é a fórmula do desenho, e essa fórmula implica ao mesmo tempo o desejo e a antecipação da forma, um modo de estar exposto ao que vem, a uma ocorrência inesperada, ou a uma surpresa que nenhuma formalidade prévia terá podido preceder ou pré-formar.
Caderno de Esboços 1
“Pensai no desenho de Cézanne, que, numa palavra, visa ao que vem à aparência sob a aparência.”
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Yves Bonnefoy, Observações sobre o olhar.
“A composição é o desenho (traçado) da obra, mas o desenho da obra é a própria obra. A obra é desenhada (traçada). O desenho não é, portanto, uma arte secundária: preliminar ou resto de uma outra arte. Tampouco é uma arte entre outras. É uma arte bem à parte, e o que há de arte em toda arte.”
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Éliane Escoubas, “'A Mão Feliz': Kandinsky e a Composição”.
“O trabalho do desenho - aquele em que melhor surge unificada a rápida trajetória do pensamento e da cegueira.”
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Antonio Saura, em Pierre Alechinsky: Excertos sobre o (re)trato.
“A Linha onipresente em seu espaçamento de cada ponto a todos os outros a fim de instituir a Ideia.”
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Stéphane Mallarmé, Música e Letras.
“Um redondo e seguro vagar de uma curva que enlaça, delicado entrelaçamento como o de galhos, ou construção feita de ângulos e retas - não importa, o desenho é sempre o que vem primeiro, o que se supõe brotar do nada.”
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Jean-Christophe Bailly, O Ateliê Infinito.
