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estudos:nancy:1996:desmesura

DESMESURA

NANCY, Jean-Luc. Être singulier pluriel. Paris: Galilée, 1996 / Being Singular Plural. Translated by Robert D. Richardson and Anne E. O’Byrne. Stanford: Stanford University Press, 2000:24

1. A medida define-se como a conformidade de um ser a outro ou a si mesmo, sendo, enquanto conformidade a outro, uma dimensão sem prescrição alguma além daquela do uso, de modo que todos os sistemas de medida se fundam, ao menos em parte, em considerações de uso misturadas a diversos simbolismos.

2. Pode-se sempre medir, além de qualquer intenção de uso, grandezas como a vida média de um homem em milionésimos de segundo ou o tempo que a luz de uma estrela distante leva para nos alcançar, obtendo-se curiosidades de almanaque desprovidas de sentido mas não de verdade, sendo esse o domínio por excelência dos grandes números, das mudanças de escala e dos incomensuráveis, nos quais a desmedida é impossível.

  • Sete milhões e seiscentas mil libras pelas Graças de Canova constituem uma verdade de mercado que não é nem medida nem desmedida.
  • Dez bilhões de homens sobre a terra constituem uma perspectiva de verdade demográfica que, como tal, não é nem medida nem desmedida.
  • Tais cifras medem, cada vez, um investimento de certas avaliações num mercado e a assunção de riscos e deveres num mundo que se torna mundial justamente por esse investimento, medindo, em suma, uma responsabilidade.

3. Levar em conta a desmedida dos grandes números equivale, ora a estabelecer uma conformidade privada do sentido da desmedida consigo mesma, como nas curiosidades de almanaque ou na exposição espetacular das dimensões do universo, ora a evidenciar uma responsabilidade, sendo esses dois gestos contrários entre si, de modo que a proliferação dos grandes números em nossa cultura define a crescente exponencial de uma responsabilidade.

  • Moravia teve o pressentimento, ainda aproximado e demasiado maniqueísta, de que o Mal hoje se chama Número, e de que a arma nuclear, arma de homicídio de massa, nasce do Número, opondo-se ao Número da espécie o Número do fim da espécie.

4. As cifras dos genocídios e de outras formas de extermínio tornaram-se semantemas da modernidade, sendo seis milhões indissociável da Shoah, não significando essa cifra muito grande, excessivo ou desmedido, pois não seria mais medido matar dez judeus, cem armênios ou vinte e cinco tutsis, ou deixar morrer de fome duas pessoas em vez de um milhão, não designando tais cifras uma superação de norma alguma, mas antes assinalando uma ordem e um registro específico de investimento e responsabilidade do qual são elas mesmas um fragmento.

5. Deve-se atribuir a Marx a descoberta do grande número na função que se poderia chamar de expoente moral, bastando percorrer um capítulo de O Capital, como a Lei geral da acumulação, para que essa função salte aos olhos, precedendo ali as cifras o próprio discurso e indicando seu sentido antes de todas as significações articuladas, sendo o capital talvez também isto: a exposição e a exponencialidade absolutamente gerais.

6. Assim como no exercício vão da curiosidade, ou como seu exato inverso, a desmedida é sua própria conformidade e cria a medida de uma medida inaudita, medindo-se por si mesma como totalidade, não constituindo no mundo de hoje um excesso indefinido em relação a conjuntos normatizados nem uma excrescência monstruosa fadada à ruína, mas uma aproximação tendencial e contínua da totalidade, indicando mais a grandeza em si como absoluto que compromete uma outra conformidade do ser do que o grau ou o quantum dessa grandeza.

  • O big bang não é uma questão de quantidade muito grande de tempo, energia ou dimensão do universo, mas de uma grandeza, o próprio universo, que é inteiramente medida de si mesma e não tem outra.

7. Essa grandeza que é ela mesma sua medida desmedida ou sua desmedida medida comporta também o risco de uma responsabilidade total, consistindo a verdadeira medida do universo na responsabilidade desmedida que temos ou adquirimos a partir do momento em que o medimos dessa maneira, tendo o homem, medida de todas as coisas, assumido um novo sentido desmedido que relaciona o próprio homem a uma imensidão de responsabilidade, em vez de relacionar tudo ao homem como espécime medíocre e lábil.

8. Na época da humanidade como povoamento de um grande número de homens, a humanitas do homem aparece ela mesma como uma desmedida que dá a medida à qual devemos nos medir, de modo que um homicídio é desmedido em relação aos costumes de um grupo social, mas um extermínio, cujo próprio nome indica levar ao limite e esgotar a conta, mede ele mesmo uma relação social, ou a sua ausência, não podendo o contrário de um extermínio ser encontrado em nenhuma justa medida, pois deve reivindicar a mesma totalidade, sendo esse também o sentido do controle demográfico, no qual a humanidade como totalidade é remetida à responsabilidade do homem.

9. Essa responsabilidade não possui medida dada, pois a questão não é quantos homens a terra ou o universo pode acolher, mas de quais homens e de quais existências se trata, convertendo o número imediatamente sua grandeza em grandeza moral, de modo que a dimensão da humanidade se torna indissociável da sua dignidade, dignidade que, contudo, também não é dada como medida, o que constitui a fraqueza de todos os discursos dos humanismos ditos medidos e medidores, uma vez que a desmedida não é ela mesma determinável em relação a uma medida, norma, padrão ou média dados, devendo o uso ou a regra que fornecem a medida ser, doravante, eles próprios inventados.

10. Por muito tempo em nossa cultura vigorou a regra de lembrar que o mundo antigo era o da medida, devendo por isso, mais que por qualquer outra razão, representar para nós um modelo, mundo do limite bem delineado, do horizonte, da phronesis, da mesótes e do metron, no qual a hybris era a desmedida mensurável por excelência, sabendo-se ou podendo-se em princípio saber se Ájax, Antígona, Creonte, César ou Bruto ultrapassavam a medida, e qual medida, sendo então a medida a conformidade do ser a si mesmo, seu modo e não sua dimensão.

11. Pouco importa se essa interpretação do mundo antigo é exata, importando que tenhamos erigido esse modelo e que ele esteja chegando à exaustão, pois não se considera que, enquanto modo próprio, enquanto conformidade do ser a si, a medida do mundo moderno é ela mesma o modo desmedido do infinito, cuja proveniência é cristã, tendo o próprio cristianismo sido a instalação desse modo infinito do ser, encobrindo por muito tempo, como cristianismo propriamente dito, a verdade desse mundo sob a aparente manutenção de uma medida mensurável, a do ser criado.

12. Enquanto criatura, o ser devia observar a conformidade de sua dependência, mas, uma vez que toda a criação carrega essencialmente, como seu próprio modo, o sinal ou os vestígios de seu criador, tendo o homem-imagem de Deus no ápice dessa estrutura, ela própria tem por conformidade a imensidão, ou seja, a não-medida do criador, ou mais exatamente a não-medida do próprio ato criador, cuja propriedade é não ter ponto de medida algum, significando criação, na realidade, a conformidade a si absoluta e exclusiva do ser, do existir enquanto tal, sem outra medida ou modo.

13. Deus, por sua vez, não é senão a interpretação dessa desmedida em termos de processo e de agente de produção, tendo essa interpretação dado lugar a elaborações complexas sobre a estrutura e a competência de seu ato, sobre o ex nihilo, sobre a expansão fora de si ou o retiro em si de Deus, sobre os motivos do amor ou da glória, do dom ou do abandono, gravitando todas essas considerações em torno deste nó: a criação é a medida absoluta, o ser que é a pura e simples conformidade de seu existir.

14. Daí resulta que a fórmula Deus, medida de todas as coisas, não tem o mesmo sentido para Platão e para Hegel, constituindo Deus, para o primeiro, a medida de uma relação de cada ente com seu modo específico de ser, medida absoluta da modalização dos entes, enquanto para o segundo Deus é a (des)medida segundo a qual o ser se modaliza enquanto ser, essencialmente e em cada ente, o que implica que seu modo próprio é tanto o nada quanto o devir.

15. Ainda assim, Hegel representa essa medida, o ser-modo do próprio ser, como medida absoluta, isto é, como infinito absolutamente finito ou realizado, podendo-se dizer que, tanto para Hegel quanto para Platão, há uma justiça absoluta da medida absoluta, conferindo-se o ser, ao se modalizar, os justos modos de suas modalidades, precisamente porque se modaliza ou porque sua estrutura é a subjetividade, definindo essa justiça, por princípio, o próprio bem, do que decorre haver, em si, uma ordem social justa e uma justa soberania.

16. Para nós, ao contrário, a modalização do ser é a do sem-medida enquanto tal, sendo aquilo que ainda interpretamos à maneira antiga ou cristã como excepcionalmente grande - velocidade, população, massacre, pobreza, universo, poder nuclear - apenas a tradução modalizada disto: a criação se compreende agora como o ato do ser cuja própria medida é sem medida.

17. É talvez desse modo que se podem compreender as constantes universais da física moderna, como a velocidade da luz ou o quantum de energia, que não se medem a nenhuma outra coisa, fornecendo antes a origem de toda medida possível, significando hoje o fiat lux que há uma velocidade em relação à qual toda velocidade é medida e que não se mede a nada superior, fixando-se por convenção, não sendo mais a palavra de um Deus que a teria medido antecipadamente, nem sequer mais uma palavra, sendo o universo que possui essa constante a própria criação, e, por não ter criador, não sendo criação mas simplesmente o ser: que há o ser, assim e não de outro modo.

18. O ser é, por conseguinte, finito, no sentido em que não há velocidade infinita, tratando-se contudo de uma finitude que é ela mesma sem medida, sendo para si mesma a medida total do ser, infinita nesse sentido de um infinito que consiste em ser em si sua própria medida desmedida, fazendo isso não um ser como substância, mas um ser como responsabilidade.

19. Ser responsável não é, com efeito, ser antes de tudo devedor ou responsável diante de alguma instância normativa, mas estar empenhado no próprio ser até seu limite extremo, de modo que esse empenho, esse conatus, é a própria essência do ser, sendo impegno uma boa tradução de conatus.

20. A época que nos parecia ser a dos grandíssimos números, aquela que se poderia definir como a do ser exponencial, é de fato a época do ser exposto a, e como, sua própria imensidão em sentido estrito, nada o medindo, sendo exatamente isso que mede a existência que se compromete, comprometendo-a assim no modo de uma responsabilidade ela mesma imensa, significando doravante humanidade e mundialidade esse compromisso sem medida.

21. Ou o tempo que vem saberá tomar essa medida, ou nela se perderá toda medida e também a existência, sendo isso o que há hoje de imensamente grande, inquietante e exaltante naquilo que nos acontece, à medida que a isso estamos expostos.

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