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estudos:montavont:viver

O “viver” em sua dimensão passiva e ativa

  • A análise do viver introduz a necessidade de pensar conjuntamente passividade e atividade como dimensões cooriginárias da vida da consciência.
    • O viver não se deixa reduzir nem à pura espontaneidade do eu nem à simples receptividade do dado.
    • Ele designa o modo de ser da consciência enquanto processo efetivo que se desenrola antes de toda tematização.
    • A vida é, desde o início, atravessada por uma duplicidade estrutural que impede sua compreensão unilateral.
  • A dimensão passiva do viver manifesta-se na afecção originária da consciência.
    • A consciência é primeiramente afetada antes de agir.
    • Algo se impõe a ela sem ser resultado de uma iniciativa egoica explícita.
    • Essa passividade não é ausência de intencionalidade, mas modo originário de sua efetivação.
  • A afecção inaugura um rapport à soi pré-reflexivo.
    • A consciência se sente a si mesma ao ser afetada.
    • Esse sentir não é um ato de conhecimento.
    • Ele constitui a auto-presença mínima que torna possível toda atividade ulterior.
  • A passividade do viver não deve ser interpretada em sentido naturalista.
    • Ela não corresponde a um impacto exterior vindo de um mundo já constituído.
    • Ela pertence à própria imanência da vida consciente.
    • O que é recebido é já vivido como significativo, ainda que não objetivado.
  • A dimensão ativa do viver emerge no prolongamento da passividade.
    • A consciência não se limita a sofrer as afecções.
    • Ela as retoma, as desenvolve e as orienta.
    • A atividade aparece como resposta imanente ao que a afeta.
  • A espontaneidade do eu não inaugura a vida, mas se grava sobre ela.
    • O eu age a partir de um fundo já-aí de vividos.
    • A atividade supõe sempre um solo passivo prévio.
    • O viver ativo é, assim, derivado sem ser secundário.
  • A unidade do viver reside na inseparabilidade entre sofrer e agir.
    • Toda atividade conserva um momento de receptividade.
    • Toda passividade implica uma mínima auto-implicação da consciência.
    • A oposição clássica entre atividade e passividade é, nesse nível, inadequada.
  • O viver passivo constitui o fundo operatório da consciência.
    • Ele sustenta silenciosamente os atos explícitos.
    • Ele não se oferece como objeto de tematização imediata.
    • A reflexão só pode alcançá-lo de modo indireto e retrospectivo.
  • O viver ativo corresponde à explicitação parcial desse fundo.
    • Nos atos do eu, a vida se torna mais visível.
    • A intencionalidade explícita é uma forma intensificada do viver.
    • Contudo, ela não esgota a vida que a sustenta.
  • A temporalidade interna articula passividade e atividade.
    • A retenção conserva o que foi vivido passivamente.
    • A protensão orienta a atividade futura.
    • O presente vivo é o lugar de sua copertença.
  • O viver é, assim, essencialmente processual.
    • Ele não se fixa em estados.
    • Ele se define como movimento contínuo.
    • Esse movimento é simultaneamente sofrido e produzido.
  • A análise do viver revela uma concepção não dualista da vida da consciência.
    • A consciência não alterna entre passividade e atividade.
    • Ela vive sempre sob o modo de sua imbricação.
    • A vida consciente é unidade dinâmica de recepção e espontaneidade.
  • A fenomenologia é levada, desse modo, a repensar o estatuto do sujeito.
    • O sujeito não é puro agente.
    • Ele não é tampouco puro paciente.
    • Ele é vida que se vive e se desdobra no meio-termo entre o afeto e a iniciativa.
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