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estudos:mitchell:representacao-vorstellen-2015

GE-STELL (2015)

MITCHELL, Andrew J. The fourfold: reading the late Heidegger. Evanston (Ill.): Northwestern university press, 2015

A reserva permanente marca uma ruptura histórica com a objetividade que define a metafísica moderna. A ordem pós-moderna definida pela prevalência da reserva permanente é o que Heidegger chama de “posicionalidade” (das Ge-Stell), e isso pode ser pensado como composto por dois processos: “Posicionalidade: a reunião do posicionamento no sentido de perseguir [Nachstellens] e requisitar [Bestellens]” (GA 79: 63/60). Perseguir e requisitar servem para instaurar a substituição circulatória que define a era como pós-moderna. A requisição estabelece a reserva permanente como substituível e a perseguição a coloca em circulação. A posicionalidade inaugura, assim, um regime de substituição circulativa que domina a existência hoje. Antes de abordar essas questões, porém, é necessário primeiro dizer algumas palavras sobre o próprio termo “posicionalidade” (Ge-Stell).

Enquanto a maquinação é a exacerbação de uma era de representação (Vorstellen), esse Vorstellen é apenas uma das muitas maneiras de posicionar ou colocar, do alemão stellen. No final da década de 1940, Heidegger passa a ver stellen como a raiz da atividade tecnológica como tal e nomeia o conjunto dessas configurações ou posicionamentos de “posicionalidade” (Ge-stell).17 Nessa linhagem, então, o domínio solitário de vorstellen para a época da ciência moderna dá lugar a uma proliferação de configurações e posicionamentos no fim da metafísica na era da tecnologia. Entre os sinais dessa constelação em torno de stellen estão: bestellen (encomendar, requisitar), zustellen (entregar), nachstellen (perseguir), herstellen (produzir), darstellen (apresentar), feststellen (fixar no lugar) e verstellen (disfarçar).

O uso do termo “posicionalidade” por Heidegger é, obviamente, único. Como ele diz em “A questão da tecnologia”, seu relatório de 1953 para a Academia Bavária de Belas Artes em Munique, um texto que é uma espécie de extrato revisado, redigido e recontextualizado das palestras de Bremen quatro anos antes, “nos arriscamos a usar essa palavra [“posicionalidade”] em um sentido completamente incomum” (GA 7: 20/QCT 19, tm). Quanto ao uso habitual do termo, “de acordo com seu significado usual, a palavra ‘Gestell’ significa um dispositivo, por exemplo, uma estante de livros” (GA 7: 20/QCT 20, tm). Mas Heidegger não pensa a posicionalidade nesses termos. A palestra “Posicionalidade”, onde o nome foi anunciado pela primeira vez, explica que “a palavra agora não mais designa um objeto individual do tipo estante de livros [Büchergestells] ou poço de água” (GA 79: 32/31). Uma nota marginal ao texto continua: “contraste ainda mais acentuado com instalação [Montage], conjuntos de hastes e pistões [Gestänge und Geschiebe]; esqueleto [Gerippe]” (GA 79: 32 n. j/31 n. 10). No apêndice de 1956 de “A Origem da Obra de Arte”, Heidegger explica que o termo posicionalidade é pensado a partir de uma conexão histórica com os antigos gregos e, explicitamente, “não a partir de estante de livros [Büchergestell] ou instalação [Montage]” (GA 5: 72/54). A conclusão da terceira palestra de Insight Into That Which Is, “O Perigo”, é definitiva sobre o assunto: “A palavra posicionalidade nomeia a essência da tecnologia. A tecnologia não essencia na forma de uma requisição e perseguição [Bestellens und Nachstellens] devido ao processo tecnológico de construir e usar um aparato, algo que ainda nos parece como uma ‘estrutura’ [Gestelle] no sentido de andaimes e equipamentos” (GA 79: 65/61).

A posicionalidade é, portanto, explicitamente distinguida de todos os tipos de enquadramento (ou “enframing”, como o termo foi traduzido anteriormente). Não podemos pensar a posicionalidade como algum tipo de estrutura ou andaime lançado sobre o mundo. Fazer isso é persistir na crença de que essa incursão da tecnologia seria algo que nos veio de fora, que permaneceria de alguma forma extrínseco a tudo o que é e só se aproximaria disso de fora, cobrindo tudo o que é e obscurecendo-o, mas deixando nossa existência, em última análise, intocada. É acreditar, por exemplo, que a natureza ainda existiria fora da tecnologia, mesmo que apenas como a fonte da qual ela extrai seus materiais (uma ideia que Heidegger critica em “Posicionalidade”, cf. GA 79: 43/40). Pensar a posicionalidade como uma estrutura a transforma em algo extraível de tudo o que está presente ao nosso redor, e isso simplesmente não é o caso. A posicionalidade não é uma estrutura ou andaime, seja como um invólucro externo (uma estante), um aparato circundante (um poço de água) ou mesmo uma estrutura erguida internamente (um esqueleto). Além disso, ela não pode ser concebida como um conjunto de dispositivos, como os conjuntos de hastes e pistões que Heidegger menciona repetidamente. A posicionalidade não é algo distinto da presença dos seres, mas sim a própria maneira como eles se apresentam em uma era pós-moderna de substituição circulatória.

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