estudos:merleau-ponty:subjetividade-1960
SUBJETIVIDADE (1960:191-194)
MERLEAU-PONTY, Maurice. Signes. Paris: Les Éditions Gallimard, 1960 / MERLEAU-PONTY, Maurice. Signos. Tr. Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1991
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A questão inicial interroga o que há de comum entre filosofias da subjetividade desenvolvidas ao longo de três séculos.
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O fio condutor é a recorrência da figura do Eu, ainda que sob formas conceitualmente divergentes.
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A diversidade histórica das figuras da subjetividade não impede que sejam reunidas sob uma mesma problemática ontológica.
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As diferentes figuras históricas do Eu exemplificam modos distintos de subjetividade.
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O Eu de Montaigne aparece como objeto de atenção constante, experimentado na variabilidade de suas condutas e estados.
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O Eu de Pascal surge como algo odiado, problematizado em sua pretensão de centralidade.
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O Eu pensante de Descartes e Pascal manifesta-se como transparência absoluta, alcançável apenas por um instante, mas então total e sem espessura.
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A série subjetiva do empirismo inglês concebe ideias que se conhecem a si mesmas por um contato imediato e mudo.
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O Eu de Rousseau apresenta-se como tensão entre culpabilidade e inocência, organizando um destino vivido como complô e afirmando simultaneamente uma bondade originária.
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O sujeito transcendental kantiano constrói mundo e intimidade psicológica, contemplando-os depois, mas reconhecendo-se também como habitante do mundo.
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O sujeito de Biran afirma-se como inseparável do corpo, incapaz de ser sujeito sem estar efetivamente no mundo.
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A subjetividade em Kierkegaard deixa de ser região do ser para tornar-se o modo fundamental de relação com o ser, em oposição ao pensamento objetivo que sobrevoa as coisas.
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A interrogação sobre a unidade dessas subjetividades conduz à problematização da noção de descoberta.
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Coloca-se em dúvida a ideia de que a subjetividade existisse previamente, pronta para ser revelada pelos filósofos.
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A reflexão filosófica transforma inevitavelmente aquilo que pretende desvelar.
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O cogito pré-reflexivo aparece como construção retrospectiva, dependente da própria reflexão que o formula.
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O sentimento de si anterior ao conhecimento de si apresenta uma dificuldade conceitual semelhante à do inconsciente afetivo.
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A consciência, ao buscar suas origens, só pode projetar-se nelas ou ignorá-las, o que invalida a ideia de uma descoberta simples.
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A subjetividade não preexiste à reflexão como um dado natural.
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Ela é construída de múltiplas maneiras pelas filosofias que a tematizam.
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A reflexão não apenas revela o irrefletido, mas o modifica em sua própria verdade.
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A subjetividade não aguardava os filósofos como um continente desconhecido aguardaria exploradores.
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A crítica heideggeriana aponta que o ser foi perdido no momento em que passou a ser fundado sobre a consciência de si.
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Apesar dessas dificuldades, mantém-se legitimamente a noção de descoberta da subjetividade em um sentido específico.
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Trata-se de uma descoberta cujo significado precisa ser cuidadosamente determinado.
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O parentesco entre as filosofias da subjetividade torna-se evidente quando confrontadas com filosofias que não a privilegiam.
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O traço comum das filosofias modernas é a elevação do ser-sujeito a uma dignidade ontológica central.
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O ser da alma ou do sujeito não é considerado um ser menor.
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Em muitos casos, é concebido como a forma absoluta do ser.
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Esse traço distingue a modernidade de tradições anteriores.
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A filosofia grega já continha elementos de uma reflexão sobre a subjetividade.
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Reconhecia o homem como medida de todas as coisas.
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Atribuía à alma a capacidade paradoxal de erro e de verdade.
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Admitia uma relação essencial da alma com o não-ser.
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Concebia um pensamento que é pensamento de si e uma liberdade radical.
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Conhecia a subjetividade tanto como noite quanto como luz.
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Contudo, para os gregos, a subjetividade não ocupa o centro da ontologia.
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O ser do sujeito não é a forma canônica do ser.
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O negativo não assume a função de fundamento do positivo.
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A subjetividade não é encarregada de transformar ou assumir o ser.
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Na filosofia moderna, de Montaigne a Kant e além, o ser-sujeito torna-se o problema central.
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A subjetividade não é coisa nem substância.
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Ela situa-se na extremidade do particular e do universal.
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Sua natureza proteiforme explica a divergência das filosofias que a tematizam.
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Sob as divergências aparentes, opera uma mesma dialética das metamorfoses da subjetividade.
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Reduzem-se, em última instância, a duas grandes ideias da subjetividade.
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A subjetividade vazia, solta e universal.
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A subjetividade plena, enraizada no mundo.
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Em certos autores, ambas coexistem como a ideia do nada que vem ao mundo, necessita do mundo e permanece estrangeiro a ele.
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A descoberta da subjetividade não se assemelha às descobertas empíricas.
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Não é comparável à descoberta de um continente ou de um elemento químico.
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É uma descoberta irreversível no plano do pensamento.
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Uma vez introduzida, a subjetividade não pode mais ser ignorada pela filosofia.
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Mesmo a superação da subjetividade pressupõe sua assimilação.
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A filosofia jamais retorna ao estado anterior à consciência de si.
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O pensamento do subjetivo adquire a solidez de um fato filosófico.
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A filosofia deve digeri-lo, transformá-lo ou superá-lo, mas não anulá-lo.
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A subjetividade constitui um pensamento aquém do qual não se pode retroceder.
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Mesmo quando superada, permanece como condição do próprio movimento filosófico.
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O desejo contemporâneo de uma ontologia primordial deve seu sentido à própria consciência de si.
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A subjetividade é um desses pensamentos decisivos que estruturam irreversivelmente o campo da filosofia.
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