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SUJEITO E MUNDO SEGUNDO MERLEAU-PONTY (RESONANCE)

ROSA, Hartmut. Resonance. A Sociology of Our Relationship to the World. Tr. James C. Wagner. London: Polity Press, 2019

O que é o mundo? Quem é um sujeito?

  • O mundo pode ser concebido como a totalidade de tudo aquilo que é encontrado ou pode ser encontrado, manifestando-se como o horizonte último no interior do qual acontecimentos podem ocorrer e objetos podem ser dados.
    • Essa totalidade não se reduz à soma de suas partes, pois o mundo excede quantitativamente e qualitativamente o conjunto dos entes singulares que nele se encontram.
    • O mundo funciona como o horizonte unificador da experiência, podendo ser compreendido como uma metáfora do todo da experiência, isto é, como aquilo que sustenta e torna possíveis todas as experiências particulares.
  • O mundo é sempre já dado como anterior a qualquer consciência individual, não como um objeto produzido por ela, mas como a condição dentro da qual a própria consciência pode emergir.
    • Os sujeitos encontram-se desde sempre imersos, envolvidos e relacionados a um mundo enquanto totalidade.
    • Essa condição pode ser caracterizada como uma subjetividade mundana, isto é, uma forma de subjetividade que só existe enquanto já referida ao mundo.
  • A noção fenomenológica de ser-no-mundo fundamenta-se precisamente nessa precedência e inevitabilidade do mundo em relação à subjetividade.
    • Essa noção articula-se com conceitos da antropologia filosófica, como a abertura ao mundo e a posicionalidade excêntrica, que descrevem a especificidade da existência humana.
    • O ser humano distingue-se por existir como objeto no mundo, entendido como totalidade do que existe, e simultaneamente como sujeito para o qual o mundo pode tornar-se questão.
  • A precedência do mundo em relação à subjetividade possui um caráter originariamente corporal.
    • A relação fundamental com o mundo não se estabelece primariamente no plano reflexivo ou intelectual, mas por meio do corpo.
    • Fenômenos como a gravidade atuando sobre o corpo, o funcionamento dos sentidos e a tactilidade da pele fazem emergir um mundo palpável.
    • Com esse mundo palpável surge também toda forma de consciência enquanto consciência e percepção da presença de algo que não é apenas correlato do sujeito, mas constitutivo da própria experiência e, portanto, do próprio sujeito.
  • A relação originária que precede a divisão entre sujeito e objeto constitui o fundamento tanto da presença do mundo quanto da experiência subjetiva.
    • Essa relação não pode ser compreendida como um vínculo posterior entre um sujeito já consciente e um mundo previamente constituído.
    • Ela é o acontecimento originário no qual tanto o sujeito quanto o mundo têm início conjuntamente.
  • A abertura do sujeito deve ser compreendida como condição transcendental da percepção e de qualquer relação possível com o mundo.
    • Essa abertura refere-se a algo indeterminado que torna possível a distinção posterior entre sujeito e objeto.
    • A distinção entre sujeito e objeto só se torna possível porque os seres perceptivos já estão sempre relacionados e abertos ao mundo, independentemente de um ato consciente de oposição.
    • Essa relação originária não é ainda uma relação de identificação, mas a condição que torna possíveis relações desse tipo.
  • A abertura ao mundo é corporalmente prefigurada.
    • Todo ser vivo processa o mundo através de si desde o primeiro instante de sua existência.
    • A respiração inaugura uma troca contínua com o mundo, que se prolonga nos processos de ingestão e excreção.
    • O corpo funciona, assim, como o meio pelo qual o mundo é incorporado e devolvido, configurando uma relação material e vital com a totalidade do real.
  • O reconhecimento da experiência como abertura ao que não é o próprio sujeito aproxima os entes que o pensamento objetivo havia colocado à distância.
    • Ao reconhecer a própria sensibilidade ao mundo e aos outros, o sujeito reconhece também sua afinidade com eles.
    • O sujeito não se define como uma substância isolada, mas como uma capacidade de ressoar com os entes, compreendê-los e responder a eles.
  • A noção de responsividade aprofunda a compreensão dessa relação originária entre sujeito e mundo.
    • A responsividade designa a característica fundamental que faz de uma resposta efetivamente uma resposta.
    • Essa característica estrutura a totalidade da fala, das ações e dos comportamentos humanos.
    • A responsividade deve ser compreendida como um conceito fundamental, com estatuto comparável ao da intencionalidade e da comunicatividade.
    • Ao mesmo tempo, ela possui uma lógica própria, distinta da lógica dos atos intencionais e comunicativos.
  • A relação entre sujeito e mundo aparece, assim, como uma relação dinâmica de abertura, afetação e resposta.
    • Essa relação não pressupõe um sujeito plenamente constituído nem um mundo acabado.
    • Ela constitui o campo originário no qual ambos emergem conjuntamente como polos diferenciáveis de uma mesma experiência fundamental.
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