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Geviert

MATTÉI, Jean-François. Heidegger et Hölderlin. Le Quadriparti. Paris: PUF, 2001.

ÍNDICE

  • INTRODUÇÃO
    • O enigma do ser
    • A superação da metafísica
    • O enigma da Esfinge
    • O sistema do ser
    • A revelação de Hölderlin
  • CAPÍTULO I – A QUADRATURA DO ENTE
    • A sombra da floresta
    • O retorno a Aristóteles
    • O concerto das quatro causas
    • O quadriculamento da metafísica
  • CAPÍTULO II – AS QUATRO NOTAS DA TONALIDADE FUNDAMENTAL: A GERMÂNIA
    • O sítio metafísico
    • O redemoinho e a vertigem
    • A poesia e a linguagem
    • A tonalidade fundamental
  • CAPÍTULO III – AS QUATRO POTÊNCIAS DA ORIGEM: O RENO
    • A linha arquitetural do poema
    • As quatro harmônicas da tonalidade fundamental
    • A quádrupla coisa
    • As núpcias dos homens e dos deuses
  • CAPÍTULO IV – O ESQUARTEJAMENTO DO SER
    • O sistema da Terra e do Céu
    • Os signos dos deuses e os gestos dos homens
    • O Anel do mundo
    • A encruzilhada dos caminhos
  • CONCLUSÃO
    • A chave do enigma

Superação da metafísica

1. Nunca se conhece verdadeiramente o alcance e a fonte última de um pensamento, pois a todo instante o chão se esquiva sob o pensar e obriga o pensador a rondar seu próprio abismo, lançando pontes sobre o nada e avançando para outras margens ao esquecer os pilares que sustentam os arcos, sendo esse o primeiro indício, terrestre, do “impensado” (Ungedachte) que Heidegger atribuiu à metafísica para melhor firmar seus limites e, talvez, saltar para fora deles a fim de se entregar à experiência do abismo.

2. O empreendimento consiste, aparentemente, em superar a metafísica, ou desconstruí-la, para reencontrar viva, sob a poeira fixada de sua história, sem por isso descartar uma tradição votada ao esquecimento, a questão primordial do sentido do ser, sendo essa questão, desde a origem ocultada e recoberta, a questão fundamental (Fundamentalfrage) do pensar que a filosofia, sob seu duplo nome de “metafísica” ou “ontologia”, jamais conseguiu trazer à luz, permanecendo Heidegger fiel ao apelo mudo dessa questão fundamental, que soa por quatro vezes o dobre fúnebre da metafísica já em 1927, nos parágrafos 2, 7, 59 e 83 de Sein und Zeit.

3. Cabe perguntar como entender a necessidade dessa “superação da metafísica” (Überwindung der Metaphysik), evidentemente redundante se a metafísica, desde Platão, é já esse perpétuo movimento de superação da experiência tal como nos é dada, supondo-se que tal superação, longe de impelir adiante como a Aufhebung hegeliana, seja um “passo atrás” (Schritt zurück) para fora da tradição em direção a um “outro pensar” e a um “novo começo” que permita ao pensamento do ser recolher-se sobre si mesmo, questionando-se em que modo se deve pensar essa rememoração que parece estranha aos quatro rumos do horizonte metafísico.

4. Heidegger respondeu antecipadamente a essas questões ao mencionar explicitamente a “virada” (Kehre) própria de seu pensamento, a qual permite menos efetuar a “superação” (Überwindung) que a “apropriação” (Verwindung) da metafísica, sendo a Carta a Richardson, de abril de 1962, o texto que levanta o véu sobre a “virada” de Heidegger para fora da ontologia fenomenológica de Sein und Zeit, não dizendo essa virada respeito apenas, como mera peripécia, ao pensamento de Heidegger, mas ao próprio “ser”, Seyn, que “só se deixa pensar a partir da virada”.

5. Para elucidar o que diz a palavra “virada”, Heidegger remete, de um lado, à Carta sobre o humanismo de 1947, na qual indicava que o título de sua obra Sein und Zeit havia se invertido em Zeit und Sein na terceira seção, não publicada, da primeira parte (“aqui, tudo se inverte”, escrevia então Heidegger), e, de outro, à conferência de 1930, Da essência da verdade, que por sua vez invertia, num quiasma perfeito, a “essência da verdade” na “verdade da essência”.

6. Desde o Padre Richardson os intérpretes apoiaram-se nesses textos para distinguir um Heidegger I anterior à “virada”, que ainda fala a língua da metafísica, de um Heidegger II que, levado pela “virada”, realizaria o salto para fora da metafísica a fim de alcançar outro solo e falar uma nova língua, a do ser em sua verdade, afastando-se Heidegger, após esse episódio da “virada”, que se pode remontar a 1930, ou mesmo a 1928, definitivamente da metafísica para se consagrar ao puro pensar do ser.

7. Haveria assim um Heidegger I e um Heidegger II, ou ainda uma primeira filosofia de Heidegger, presente em sua grande obra de 1927, Sein und Zeit, e depois, como escreve Jean Grondin, uma “segunda filosofia” ou uma “última filosofia” que radicalizaria o questionamento inicial para se entregar a uma experiência pré-filosófica do ser na qual a poesia, a de Hölderlin em primeiro lugar, desempenharia doravante papel determinante com a presença dessa constelação estranha, à primeira vista, da Terra e do Céu, dos Divinos e dos Mortais.

8. Sem retomar essa questão controversa da virada, nem a oposição, levada por alguns intérpretes até a ruptura, entre Heidegger I e Heidegger II, nem se deter nas diversas modalidades da virada distinguidas por Jean Grondin, pretende-se aqui seguir o fio condutor da questão fundamental e acompanhar o mais de perto possível aquilo que Heidegger nomeia, no Seminário de Zurique, a “reviravolta” que conduz a “uma nova relação fundamental com o que é”, a qual, confia então a seus interlocutores, manifesta “o sentido inexpresso de todo o meu pensamento”.

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