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Ícone

MARION, Jean-Luc. De surcroît: études sur les phénomènes saturés. Paris: PUF, 2010.

Capítulo V: O ícone ou a hermenêutica sem fim

I - O visível em falta

  • A constituição de um objeto qualquer, como uma simples caixa, revela que a visibilidade plena é impossível, pois apenas três de suas seis faces são vistas de cada vez, e as demais são apenas apreensadas, exigindo um rodeio para serem apresentadas, o que demonstra que toda experiência externa já contém uma apreensão.
    • A apreensão, que representa um “lá-com” que nunca pode se tornar um “si-mesmo-lá”, é constitutiva da experiência de objetos, e mesmo que se possa contornar a ausência de certos vividos, a incompressibilidade imposta pelo espaço e pela temporalidade impede que o objeto se mostre completamente.
    • A temporalização da constituição agrava a carga de invisível de três maneiras: pela indefinição do objeto, que exige um aprendizado contínuo; pela própria mudança do objeto no tempo; e pela dependência da impressão originária, que escapa à constituição e torna possível a continuidade do objeto.
    • A constituição de um objeto exige uma visada intencional particular, que lhe confere um sentido, mas essa mesma visada oculta outras visibilidades possíveis, de modo que o fenômeno visível só surge ao preço de um halo de invisível, ou “invu”, que o acompanha e o constitui.

II - O visível em excesso

  • A constituição de objetos produz um halo de invisível, pois a intencionalidade não pode dar conta de todos os vividos e esboços recebidos, e a pobreza de intuição, longe de fragilizar o objeto, assegura sua certeza, ao passo que os fenômenos saturados, ao contrário, apresentam uma intuição que excede o conceito, tornando sua constituição impossível.
    • A “fenomenologia do inaparente” heideggeriana aponta para o Ereignis, mas a análise proposta não almeja tal transcendência, e sim se volta para os fenômenos onde a intuição excede a intenção, chamados de fenômenos saturados ou paradoxos.
    • Os fenômenos saturados, que incluem o evento, o ídolo, a carne e o ícone, são caracterizados por um excesso de intuição que impede a constituição de um objeto e uma visibilidade unívoca, invertendo a ordem da visibilidade e submetendo o ego a uma contra-intencionalidade.

III - O paradoxo do rosto

  • O rosto, como a carne, é caracterizado por uma dupla camada: ele não apenas é visto, mas também vê, e essa capacidade de ver torna seu próprio olhar irregardável, pois o que se fixa no rosto é justamente o ponto onde nada pode ser visto, o vazio da pupila.
    • O rosto não se fenomenaliza como um espetáculo, mas fala, e sua fala silenciosa se manifesta como a injunção “Não matarás!”, que não é um conceito, mas uma exigência ética que se impõe independentemente de qualquer significação prévia.
    • O rosto, como fenômeno saturado, se caracteriza por uma anamorfose, impondo seu ponto de vista e exigindo uma hermenêutica infinita, pois a injunção “Não matarás!” pode suscitar uma diversidade inesgotável de interpretações e condutas, sem que uma significação unívoca se imponha.

IV - Envisajar

  • O rosto é um fenômeno invisível, mas que envisaja, e a questão que se coloca é se é possível envisajá-lo em retorno, sem reduzi-lo a um objeto, respeitando sua invisibilidade e fenomenalidade própria, o que exige uma abordagem que vá além da constituição.
    • O rosto expressa uma infinidade de significações, sendo irredutível a um conceito ou proposição finitos, e sua expressão é sempre inadequada e equívoca, tornando possível o mentir, que se distingue do erro por não se referir a um objeto ou estado de coisas.
    • A verdade do rosto não se encontra no que ele diz ou expressa, mas no que ele se torna, em sua história, e a hermenêutica do rosto exige uma espera, um acompanhamento até o último instante, como na amizade ou no amor.

V - A hermenêutica ao infinito

  • A fenomenalidade saturada do rosto de outrem exige uma hermenêutica infinita, que se intensifica após a morte, pois a tarefa de interpretar o fenômeno saturado se estende no tempo e no espaço, sem que uma significação última seja alcançável.
    • A teologia cristã recorre à fé e à espera escatológica da manifestação do Cristo, enquanto a fenomenologia, não podendo recorrer a tal espera, deve se ater a uma hermenêutica no tempo, sem fim, que se aproxima do postulado kantiano da imortalidade como condição para o progresso infinito da liberdade.
    • O rosto de outrem, como um fato da razão, exige um progresso infinito em sua interpretação, que só pode se dar em uma perspectiva de imortalidade, ainda que seja apenas como um postulado da razão prática, e a hermenêutica infinita do rosto de outrem se torna uma figura da fé ou da esperança.
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