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Em nome...

MARION, Jean-Luc. De surcroît: études sur les phénomènes saturés. Paris: PUF, 2010.

Capítulo VI: Em nome ou como silenciá-lo

I - “Metafísica da presença” e “teologia negativa”

  • As noções de “metafísica da presença” e “teologia negativa”, apesar de sua aparente dissimilaridade, compartilham uma indefinição conceitual que as torna alvo de críticas, especialmente por parte da desconstrução, que vê na teologia negativa uma concorrente que precisa ser desconstruída para afirmar a primazia da diferença.
    • A desconstrução argumenta que a teologia negativa, ao negar predicados de Deus, acaba por reafirmá-los em um nível hiperbólico, reinscrevendo Deus na metafísica da presença, e que sua pretensão de escapar à prédicação é ilusória, pois a negação sempre se converte em afirmação.
    • O argumento fundamental da desconstrução contra a teologia negativa é que ela, ao negar a essência, o ser ou a verdade de Deus, termina por restaurá-los por meio da via de eminência, mantendo-se, assim, no horizonte da metafísica, e que mesmo a louvor e a oração seriam formas disfarçadas de prédicação.

II - A terceira via: des-nomear

  • Contrariando a leitura da desconstrução, a teologia de Dionísio, o Areopagita, não opera com uma oposição binária entre afirmação e negação, mas com uma triplicidade de vias: a afirmação, a negação e uma terceira via que as transcende, situando-se “acima de toda tese e de toda negação”.
    • Essa terceira via não se limita a uma negação que restaura a afirmação, mas visa aquilo que está “além de toda afirmação e negação”, o que exige uma ruptura com a lógica predicativa e com as duas valores de verdade da metafísica.
    • Dionísio, ao afirmar a superioridade das negações sobre as afirmações, também submete a própria negação à transgressão final, que conduz ao “des-nomear”, um movimento que não diz nem nega, mas refere-se pragmaticamente ao Inatingível, utilizando o termo “Réquisito” para superar a função predicativa da linguagem.
    • O prefixo “hiper” ou “supra” não restaura a afirmação, mas nega a essência e a presença, servindo para indicar uma transcendência que não pode ser capturada por nenhum conceito, e que leva a uma linguagem que não predica, mas age, referindo-se ao que des-nomeia.

III - O louvor e a oração

  • A objeção de que o louvor e a oração são formas de prédicação disfarçada é contestada, pois o nome próprio nunca é nome da essência, sendo sempre impróprio e indicando a ausência e o anonimato, em vez da presença.
    • O nome próprio, inclusive o de Deus, não fixa a essência, mas marca a impossibilidade de coincidência com ela, e a oração, ao invocar o Inatingível “como…” e “enquanto…”, opera uma des-nominação que é uma visada indireta, não predicativa, mas pragmática, que se refere a Deus sem nomeá-lo em sua essência.

IV - De outro modo que o ser

  • A acusação de que a teologia mística se inscreve no horizonte do ser e na onto-teo-logia é refutada, pois Dionísio subordina o ser ao bem, que transcende inclusive o não-ser, mostrando que o horizonte do ser é regional e não último.
    • A tentativa de pensar “de outro modo que o ser” não pode ser realizada por meio de uma prédicação, e a impossibilidade de dizer o que é esse “outro modo” não é um fracasso, mas a própria atestação da transcendência, que exige uma pragmática da palavra, não uma ontologia.
    • A terceira via, ao suspender a prédicação, não fracassa em seu propósito, mas o cumpre, abrindo para uma experiência que não é de conhecimento objetivo, mas de exposição a um não-objeto que educa e transforma mais do que informa.

V - O privilégio do desconhecimento

  • A teologia cristã, desde os Pais da Igreja, sustenta que Deus é incompreensível e invisível, e que o verdadeiro conhecimento de Deus consiste em saber que não se pode conhecê-lo por conceitos, pois um Deus compreendido deixaria de ser Deus.
    • A heresia ariana, ao contrário, tenta definir a essência divina por um nome próprio (inengendrado), caindo na metafísica da presença, enquanto a teologia ortodoxa defende a des-nominação e a incompreensibilidade como características essenciais de Deus.
    • O “Nome” de Deus não é um nome próprio que revela uma essência, mas um nome que indica o inominável, e a teologia mística busca não encontrar um nome para Deus, mas receber o próprio nome a partir do Nome inefável, em uma pragmática teológica da ausência que se opõe à metafísica da presença.

VI - O fenômeno saturado por excelência

  • A teologia mística pode ser compreendida fenomenologicamente como uma terceira via que corresponde a um fenômeno saturado, no qual a intuição excede a intenção, tornando a predicação e a compreensão conceitual impossíveis não por falta, mas por excesso de doação.
    • O fenômeno de Deus, se considerado, se caracterizaria por um excesso de intuição que submerge qualquer conceito, e a incompreensibilidade não resulta de uma falta de dados, mas de uma saturação que ultrapassa toda capacidade de significação, manifestando-se na terra ou no fascínio.
    • O “Nome” não deve ser dito, nem afirmado, nem negado, pois essas operações ainda pertencem à prédicação e à metafísica da presença; o Nome é um lugar para se habitar, um apelo que nos chama e nos nomeia, e a teologia, em vez de falar de Deus, fala a Deus, realizando-se como liturgia.
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