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Ser e Região

MARION, Jean-Luc. Réduction et donation: Recherches sur Husserl, Heidegger et la phénoménologie. Paris: PUF, 1989.

O ser e a região

A possibilidade da ontologia

  • Toda leitura de Husserl passa hoje inevitavelmente pelo filtro imposto por Heidegger, que predetermina o que se reconhece como grandeza ou falha husserliana quanto à questão do ser e à ontologia em terreno fenomenológico
  • Duas teses radicais se impõem: a fenomenologia, considerada em seu conteúdo, constitui a ciência do ser do ente, a ontologia, sendo esta a única metodologia capaz de trazer à luz o ente invisível por excelência que é o ser
    • A ontologia só se torna possível como fenomenologia, pois somente ela pode forçar à visibilidade o fenômeno menos visível, o ser do ente, partindo de um ente privilegiado, o Dasein
    • Husserl desconheceria duplamente a essência da fenomenologia: aplicando-a uniformemente a todos os campos de objetos sem discernir seu privilégio ontológico, e deixando-se fascinar pela conquista de novos campos objetais em detrimento de esclarecer as regiões originárias da consciência e da objetividade

A fenomenologia como “ontologia universal e autêntica”

  • As Meditações Cartesianas afirmam que a fenomenologia transcendental sistematicamente desenvolvida seria ipso facto a verdadeira e autêntica ontologia universal, declaração já presente em Ideen III de 1912, onde a fenomenologia racional engole todas as ontologias racionais
    • As lições de 1924 sobre filosofia primeira mantêm as ontologias mesmo em situação fenomenológica, definindo a ontologia como o logos de um mundo possível em geral e afirmando que toda filosofia transcendental visa em última instância essa ontologia
  • Desde ao menos 1912, sem retratação posterior, Husserl reconheceu que a fenomenologia deveria culminar numa ontologia universal e absoluta, o que impede seguir sem mais a crítica heideggeriana de que Husserl teria simplesmente ignorado a questão do ser

O conceito anônimo de uma ontologia

  • Husserl reivindica que a articulação entre fenomenologia e ontologia já remontaria às Investigações Lógicas, precisamente o texto que Heidegger privilegia, embora reconheça que ali faltasse ainda o nome de ontologia formal
    • Ideen I §10 e o prefácio de 1913 à segunda edição das Investigações confirmam que apenas a palavra estava ausente em 1900, enquanto o conceito, sob o nome de teoria a priori dos objetos, já se fazia presente nos Prolegômenos e nas Investigações II a IV
  • Husserl não recorre, contudo, à Investigação VI que Heidegger privilegia, mas apenas aos Prolegômenos e às demais Investigações, mostrando que o debate entre ambos se trava também no próprio terreno da ontologia, e não apenas no da fenomenologia

A formalidade da objetividade

  • Ideen I, §§8-10, hierarquiza as ciências e funda a ontologia regional na essência da objetidade em geral, reduzindo finalmente logica formal, mathesis universalis e objetidade a uma única formalidade que confere à ontologia formal sua função
    • A ontologia formal reúne as categorias lógicas, referentes ao objeto-em-geral como forma pura anterior a toda região material, distinguindas das categorias de significação que constituem apenas a apofântica
  • Logique formelle et logique transcendantale unifica matemática formal e lógica formal sob a única assunção da objetidade mais vazia, ao ponto de quase identificar toda essa matemática com uma ontologia formal
    • Husserl tenta distinguir a atitude apofântica da ontológica invocando a intencionalidade que sempre remete o julgamento ao objeto julgado, mas reconhece que essa separação é ao mesmo tempo uma equivalência, funcionando ambas como uma única ciência

A primeira insuficiência — pela universalidade

  • O fracasso diante da questão do ser resulta não de um déficit, mas do excessivo sucesso de Husserl na construção de sua ontologia formal, evidenciado em três traços: o estatuto lógico do ente, o primado da objetidade e a originariedade da possibilidade
    • O ente permanece, para Husserl, aquilo que persiste enquanto validado por um julgamento, de modo que a ontologia nunca ultrapassa o espaço lógico, permanecendo presa à equivalência entre lógica e ontologia
    • A ontologia formal se contenta com a mera objetidade, sem interrogar se a subsistência de um substrato esgota o sentido de ser do ente, ao contrário do que Heidegger tentará com a manejabilidade do utensílio e a existência do Dasein
    • A ontologia formal privilegia o possível sobre o efetivo, fundando-se na possibilidade da objetidade mais do que a superando, de modo que os mundos possíveis, não o mundo efetivo, constituem seu verdadeiro objeto

A segunda insuficiência — pela redução

  • A subjetividade precede em dignidade de ser toda objetividade, de modo que o mundo só possui um ser relativo perante o Eu, cuja consciência pura goza de prioridade absoluta e irrelativa
    • Husserl chega a afirmar que se alcança uma filosofia primeira anterior mesmo à ontologia, consistindo numa análise da estrutura necessária de uma subjetividade, e que a fenomenologia não é de modo algum uma ontologia
  • A redução fenomenológica coloca entre parênteses todas as ontologias e até mesmo a questão do ser ou não-ser do mundo, de modo que o fenomenólogo não pergunta como as coisas são, mas como se constitui a consciência delas
    • Distingue-se uma diferença cardinal entre a consideração ontológica, voltada aos objetos como tais, e a consideração fenomenológica, voltada exclusivamente aos vividos e seus correlatos, diferença que, por não ser ela mesma ontológica, regionaliza toda ontologia
    • Permanece em aberto se o retorno às coisas mesmas se satisfaz com a “coisa” entre aspas enquanto correlato, ou se a autêntica intenção fenomenológica exigiria antes alcançar a coisa mesma, questão que reabre a crítica heideggeriana desde dentro da própria metodologia husserliana

“Eu” fora do ser

  • Cabe examinar se Husserl teria entrevisto que o Eu, ao exercer a redução de toda ontologia, transcenderia de fato e de direito o próprio reino do ser, dizendo-se fora do ser
    • A crítica heideggeriana poderia se inverter: Husserl não teria falhado a questão do ser por defeito, mas teria arriscado um salto quase sem precedentes, do domínio do ente em geral até um horizonte fenomenológico não determinado pelo ser
  • O confronto entre Heidegger e Husserl sobre a “maravilha das maravilhas” cristaliza essa oposição: para Heidegger, é o fato de que o ente é que provoca o assombro; para Husserl, já em Ideen III de 1912, é o próprio Eu puro e a consciência pura, embora essa maravilha se dissipe assim que iluminada pela análise fenomenológica
    • Se toda ontologia cai sob o golpe da redução, nada impede que a própria ontologia fundamental heideggeriana também sucumbisse a ela, questão que Heidegger nunca enfrenta ao evitar tematizar a redução em Ser e Tempo
  • A indeterminação ontológica em que Husserl deixa o Eu poderia não indicar um malogro, mas justamente a indicação de que o Eu não teria primeiro nem sobretudo que se determinar segundo o ser, abrindo-se a outras transcendências que a redução, sempre radicalizada, ainda poderia liberar
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