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Nada

MARION, Jean-Luc. Réduction et donation: Recherches sur Husserl, Heidegger et la phénoménologie. Paris: PUF, 1989.

O Nada e a reivindicação

O acesso ao “fenômeno de ser”

  • O enigma de Ser e Tempo remonta à impossibilidade de acessar diretamente o fenômeno de ser, pois a questão do ser permanece sempre confundida com a questão do ser do próprio Dasein
    • Duas razões impedem concluir daí o fechamento total do acesso ao fenômeno de ser: a construção da questão do ser visa o ser em geral, do qual o Dasein é operário mas não fim, e o critério fenomenológico último — o princípio de todos os princípios — deve decidir se um tal fenômeno se doa
  • A conferência O que é metafísica? tenta, dois anos depois, repetir a manifestação do ser sem recorrer à analítica do Dasein, e o Posfácio de 1943 chega a afirmar que o ser subsiste plenamente sem o ente, embora nunca o ente seja sem o ser, invertendo a posição de 1927

As tonalidades do “Dasein”

  • As ciências positivas, ao afirmarem que só o ente e nada mais lhes interessa, introduzem clandestinamente um terceiro termo, o nada como outro do objeto, cuja negação redobrada apenas reforça sua potência
    • Carnap reduzirá esse Nada a uma mera partícula lógica de negação existencial, e Bergson, de modo distinto, dissolverá a ideia de nada numa pseudo-ideia derivada da substituição de um possível por outro
    • Contra ambos, afirma-se que o Nada é mais originário que o não e a negação, exigindo por isso uma doação em pessoa, acessível através das tonalidades do tédio, da alegria e do amor, que dão ao Dasein acesso ao ente em sua totalidade
    • O tédio profundo, ao tornar indiferentes todas as diferenças entre os entes e entre estes e o Dasein, abre o espaço desse conjunto, chamado mundo, permanecendo em aberto por que a alegria e o amor, também mencionados, nunca recebem análise equivalente
  • A angústia, ao contrário do tédio que deixa o espectador intacto, envolve o próprio Dasein no recuo indeterminado dos entes, de modo que o Nada mesmo, como tal, está ali presente, cumprindo-se assim a questão sobre o Nada

A hermenêutica do nada como ser

  • A angústia permanece ambígua, de essência bífida, e o Nada não se define por simples oposição ao ente, mas se anuncia junto com ele, tornando necessário um reenvio ainda a determinar para que o Nada se mostre como fenômeno absoluto e não mera aparição
    • Ser e Tempo, em 1927, reenvia o Nada apenas ao ser-no-mundo, nunca explicitamente ao fenômeno de ser, enquanto a conferência de 1929 hesita entre reenviar o Nada à transcendência do Dasein ou ao ser do ente, sem alcançar equivalência estrita
  • Somente o Posfácio de 1943 realiza esse reenvio ao afirmar que esse nada de ente subsiste como o ser, mediante três operações hermenêuticas posteriores: acentuações, substituições e acréscimos introduzidos nas notas de 1949 e 1931
    • As acentuações glosam o essência bífida do Nada como ser mesmo; as substituições trocam sistematicamente ente por ser nas fórmulas originais de 1929; os acréscimos introduzem retroativamente a diferença ontológica no corpo do texto original
    • Esse trabalho hermenêutico, prolongado por vinte anos, revela que o próprio Heidegger reconhecia não ter alcançado o fenômeno de ser com a simples aparição do Nada

Em último apelo — a reivindicação

  • A necessidade dessa interpretação decorre de que, na angústia, o ente não mais nos diz nada nem nos reivindica, de modo que o silêncio autístico do Nada não pode dizer nada além de si mesmo
    • O Posfácio afirma que o Nada é o véu do ser, formulação que mantém, e não suprime, o hiato entre ambos, deixando o fenômeno de ser ainda por vir
    • A segunda passagem sobre a maravilha das maravilhas — que o ente é — pressupõe um apelo da voz do ser cuja possibilidade a própria angústia, ao cortar a palavra, parece excluir
  • Diante dessa aporia, Heidegger introduz a instância da reivindicação do ser (Anspruch des Seins), ausente em 1929, único fio condutor capaz de reenviar o Nada ao ser, culminando na intervenção do Ereignis como instância última que reivindica o homem para a verdade do ser

O tédio das profundezas

  • Permanece duvidoso que essa interpretação alcance efetivamente o fenômeno de ser, pois a voz do ser fala apenas com voz sem som algum, e o apelo da consciência já analisado em Ser e Tempo, de fato, não anunciava rigorosamente nada
    • Mesmo reconhecida sem ambiguidade, a reivindicação exige ainda uma resposta em gratidão que pode faltar, como o próprio Heidegger reconheceu ao evocar reivindicações às quais o homem pode permanecer surdo
  • Propõe-se reconhecer um tédio das profundezas, mais fundamental que a angústia, capaz de emudecer inclusive a reivindicação do próprio ser, distinto do niilismo, da negação e da angústia porque não avalia, não nega e não sofre a falta do ente
    • Pascal atesta essa condição ao descrever a inconstância e o tédio como a própria condição do homem, capaz de se entediar mesmo sem causa, inclusive diante das coisas espirituais
    • O tédio odeia (do latim mihi in odio) porque nada faz diferença para quem se entedia, dissolvendo a mundanidade sem destruir os entes, que permanecem como se não fossem
    • Esse tédio provoca dupla derrota: o Eu que se entedia se abandona a si mesmo, tornando-se impessoal, e os entes, privados do Eu que lhes garantia o ser, permanecem vãos diante dele

A terceira redução

  • Legitimar essa aplicação exige duas teses: que o ser se ofereça à fenomenalidade de modo a se expor ao tédio, e que o Dasein possa padecer ontologicamente, e não apenas onticamente, essa tonalidade
    • O ser se expõe ao tédio porque suscita e exige o espanto, condição platônica e cartesiana de toda questão, de modo que o apelo e o espanto cumprem juntos o ofício de acordar o Dasein ao que se lhe destina
    • A inautenticidade e o dever-ser do Dasein — ter de ser seu próprio ser como seu — abrem dois pontos onde o tédio pode se ancorar, suspendendo a reivindicação do ser sem negar a instância do Dasein
  • A transgressão da reivindicação do ser pela forma pura do apelo permanece fenomenológica pelo mesmo princípio que legitimava a substituição husserliana pela analítica do Dasein: trata-se de uma nova redução, mais radical que a transcendental e a existencial — a redução ao apelo mesmo
    • Heidegger mesmo admite, ao opor a reivindicação do Pai à reivindicação do ser no cristão, a possibilidade de um apelo em outro nome, possibilidade retomada por Lévinas ao situar a maravilha das maravilhas no rosto do próximo que reivindica o eu em nome de Deus

“Aí” fora do ser

  • A reivindicação me interpela antes mesmo que eu possa dizer eu, instituindo-me como um mim, de modo que nem o je empírico nem o eu transcendental esgotam essa experiência de ser convocado
    • A mesma análise se aplica ao Dasein: o lá precede e determina o ser, pois só se expõe ao ser na medida em que uma reivindicação o convoca a esse lá, devendo-se ler Dasein antes como Da(sein) que como (da)Sein
  • O interpelado se define por quatro traços: a convocação que o destitui de toda autarquia, a surpresa que o subtrai a toda extase autoconstituinte, a identificação vocativa que funda sua mesmidade sem resolução antecipadora, e a facticidade de um julgamento interlocutório que precede toda questão de direito
    • A indeterminação da instância que reivindica não enfraquece, mas antes torna possível a própria reivindicação, pois a surpresa só surpreende quem ignora, no instante mesmo, quem ou o quê o reivindica
  • Assim se instituem convocação, surpresa, identificação e facticidade como os quatro caracteres que erguem o interpelado a partir da pura forma do apelo, originando-se este na primeira paixão, a admiração
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