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estudos:marion:rd:fenomeno-inaparente

Fenômeno inaparente

MARION, Jean-Luc. Réduction et donation: Recherches sur Husserl, Heidegger et la phénoménologie. Paris: PUF, 1989.

  • A fenomenalidade do fenômeno pode ser pensada além da simples presença permanente diante do olhar da consciência, questão que remete à autoridade reconhecida à presença enquanto critério de fenomenalidade
    • Heidegger, no parágrafo 7 de Ser e Tempo, define fenômeno como o que-se-mostra-em-si-mesmo, admitindo casos desviantes como simples aparência, indício ou aparência enganosa, mas subordinando-os à compreensão originária do conceito
    • Diferentemente de Husserl, Heidegger não reduz o fenômeno à presença para uma consciência, pois a monstração parte de iniciativa própria do fenômeno, cuja visibilidade se decide antes de toda evidência e pode, por isso mesmo, também se ausentar
    • O recoberto é definido como contraconceito de fenômeno, não como seu oposto simples, mas como contrajogo que inscreve a manifestação na própria dissimulação, de modo que manifestar consiste em retomar o que permanecia encoberto
    • A fenomenologia ultrapassa o uso vulgar do termo fenômeno justamente por tornar manifesto não o que já se mostra, mas o que permanece oculto e que constitui o sentido e o fundamento daquilo que aparece de início
    • O ser-recoberto configura-se como contraconceito ao fenômeno, e as dissimulações por recobrimento — acidentais ou necessárias — constituem o tema primeiro da consideração fenomenológica, incluindo o risco de fossilização de toda proposição fenomenológica comunicada
    • O questionamento fenomenológico pode iniciar no mais compreensível sem que os fenômenos estejam abertos à luz do dia, permanecendo o perigo constante de desvio e extravio como sentido mesmo da fenomenologia enquanto pesquisa que desobstrui
    • O fenômeno husserliano se define pela evidência e nela se encerra, enquanto o fenômeno heideggeriano, originando-se na ascensão ao visível do ainda-não-visível, implica por princípio o inaparente da aparição, de modo que o jogo entre aparente e inaparente substitui a certeza do objeto para a consciência
  • A relação entre a fenomenologia e a ontologia se esclarece pela fórmula do curso de 1925, retomada em Ser e Tempo, segundo a qual tanta aparência quanto ser, indicando que o enigma do fenômeno concerne diretamente ao ser, pois o que mais propriamente permanece oculto ou dissimulado nunca é este ou aquele ente, mas o ser do ente
    • A retomada e radicalização do lema husserliano visava justamente formular a tarefa de retornar ao ser como ser e, no mesmo gesto, como fenômeno, audácia que Heidegger assumiu ao menos uma vez ao propor a elaboração deste fenômeno, o ser
  • O Seminário de Zähringen de 1973 caracteriza essa fenomenologia como fenomenologia do inaparente, paradoxo necessário porque o ser não aparece nem é perceptível no horizonte da presença, já que apenas o ente pode responder presente à evidência
    • O ser do ente não é ele mesmo um ente, distinção fundadora de Ser e Tempo segundo a qual primeiro se experimenta o ente e só depois, ou talvez nunca, se conhece o ser, ideia que a conferência de 1929 sobre a metafísica radicalizará ao identificar o ser ao nada
    • Distingue-se o descobrimento de um ente e a abertura de seu ser, pois o ente só pode ser descoberto pela percepção se o ser do ente já estiver aberto e compreendido, de modo que a abertura precede e torna possível o descobrimento sem nele se esgotar
    • Manter o título de fenômeno para o ser exigiria pensar um fenômeno que não se esgota na presença aqui e agora, tornando fenomenal não o que sendo invisível poderia tornar-se visível como ente, mas o que, invisível como tal, jamais poderia tornar-se visível ao modo do ente presente
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