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Figuras

MARION, Jean-Luc. Figures de phénoménologie: Husserl, Heidegger, Levinas, Henry, Derrida. Paris: J. Vrin, 2012.

PREFÁCIO

Em trabalhos anteriores, em particular no tríptico aberto por Redução e doação. Pesquisas sobre Husserl, Heidegger e a fenomenologia (1989), assegurado em Dado. Ensaio de uma fenomenologia da doação (1997) e complementado com De sobremaneira. Estudos sobre os fenômenos saturados (2001), ambicionamos suficientemente uma prática fenomenológica senão sistemática (teria sido um contrassenso de método), ao menos global, para que se nos permita reunir depois alguns dos trabalhos de preparação, de detalhe ou de exegese histórica que prepararam e ainda sustentam o empreendimento principial. Daí resulta um reverso complicado do anverso de aparência mais bem organizada, ou mais exatamente unos stromata informes mas bem cerzidos da face oferecida de uma tapeçaria que, sem esse reverso de artesão, se desfaria fio a fio. Essa necessidade pareceu ainda mais exigente quando se tratou de prolongar a fenomenalidade da doação pela descrição, sem nota nem referência, do fenômeno erótico (O fenômeno erótico, 2003) ou de aplicá-la hermeneuticamente com força de citações a uma obra teológica (Em lugar de si. A aproximação de Santo Agostinho, 2008). Assim, como com as Questões cartesianas I e II (1991 e 1996), entregamos aqui, ao menos em parte, a oficina de esboços ou rascunhos que precederam seus resultados apenas no tempo da publicação, mas não na preparação (salvo por vezes em diversas traduções).

Reconhecer-se-ão assim pesquisas históricas sobre a superação do horizonte da objetidade do fenômeno pela noção, necessária mas inicialmente incompreendida, da doação (capítulos I-III), em que Husserl e Heidegger retomaram e enfim abordaram de frente o que, para a Escola de Marburgo e todos os neokantianos, permanecia uma pedra de tropeço. Em seguida, encontrar-se-ão dois momentos de uma discussão com Emmanuel Levinas, começada desde O ídolo e a distância (1977) e Os Prolegômenos à caridade (1986, em particular “a intencionalidade do amor”), mas que ficara em suspenso, sobre a legitimidade de recorrer ao amor como conceito (capítulos IV e V). Dois outros debates foram para nós essenciais, tanto mais que seus interlocutores, Henry e Derrida, nos conduziram mais adiante na compreensão de um acordo de fundo até os desacordos de superfície: com efeito, eles impuseram as questões da invisibilidade fenomênica e da impossibilidade como abertura (capítulos VI e VII, e o Anexo). Por fim, os três últimos estudos (capítulos VIII, IX e X), em discussão cerrada com todos, tentam fixar em detalhe o acesso a si por outrem, a emergência do terceiro como um segundo outrem que realiza a evasão fora de si e, ao final, o irredutível por excelência, aquele que toda redução atesta negativamente. Esses estudos confessam os reforços que sustentam, ao menos o esperamos, outras naus.

Todos esses ensaios, por mais imperfeitos e dispersos que permaneçam, atestam no entanto muito mais do que seus resultados. Eles testemunham à sua maneira de um privilégio notável da tradição doravante secular da fenomenologia inaugurada em 1900 pelas Investigações Lógicas de Husserl: sua capacidade de desenvolvimento cumulativo. Pois, ao contrário de muitas outras tradições que ou só se mantêm enquanto se apegam aos limites de seus dogmas fundadores (sejam os do empirismo ou os do a priori, irmãos inimigos tão semelhantes), ou então se desfazem sem retorno nas diferentes maneiras irreconciliáveis de renunciar a eles, a fenomenologia, se nunca cessou de criticar os limites onde os ensaios precedentes haviam julgado poder contê-la, sempre ultrapassou essas fronteiras provisórias mantendo ao mesmo tempo as aquisições anteriores: Heidegger não interdita os resultados de Husserl, mas os radicaliza, ou mesmo os reforça (o último Husserl tendo já feito o mesmo com Heidegger). Levinas e Merleau-Ponty permanecem fenomenólogos estritos, embora avancem em direção a novos fenômenos. Henry só abre um novo campo ao retornar a uma possibilidade já inscrita em Husserl, embora não desenvolvida por ele. Da mesma forma que Levinas não se separa de Heidegger senão invertendo uma hipótese já enunciada por Ser e tempo. E a desconstrução fez sobretudo de Derrida um leitor incomparável dos fenomenólogos precedentes, devolvendo-lhes a tensão dramática que muitas leituras superficiais haviam ofuscado. Aliás, os trabalhos mais recentes dos autores das gerações mais jovens (numerosos e bastante conhecidos para não fazermos aqui sua recensão) só desprendem novos fenômenos (a doação, o acontecimento, o mundo, a liberdade, a revelação, etc.) ao se engajarem ainda mais resolutamente na leitura operativa dos textos iniciais. Leitura operativa com efeito, pois não se trata de sustentar teses, mas de descrever fenômenos realizando operações (redução, intencionalidade, ideação, constituição, etc.). A fenomenologia não se interessa, com efeito, pelos fenomenólogos, nem os fenomenólogos pela fenomenologia (como uma doutrina a fixar numa improvável ortodoxia), mas por aquilo a que os fenomenólogos se interessam — às próprias coisas. Coisas que nem sempre nem primeiramente se deixam resumir a objetos, ou mesmo a entes, mas que se mostram a partir de si mesmas, porque se dão (a ver) em pessoa, ou seja, em si mesmas. Proceder fenomenologicamente equivale sempre, em última análise, a contestar o interdito kantiano, que quereria que o em si da coisa jamais aparecesse (como fenômeno portanto), para tentar fazer, ao contrário, a experiência de deixar o em si fenomenalizar-se, qualquer que seja o preço de a priori que seja preciso pagar por esse (deixar) fazer. O que define e une, a despeito de todas as suas divergências, todos aqueles que se reconhecem na fenomenologia — essa contramétodo, essa revanche obstinada do a posteriori e, talvez, esse novo começo fora da metafísica da filosofia — reside nessa prática e na coragem que ela exige.

Poderia ser assim que a fenomenologia oferece ao nosso tempo o que, pensando em outra coisa (ou não?), Nietzsche chamava de “o grande pensamento educador”, não um eterno retorno, mas, desta vez enfim, um novo começo.

J.-L.M. Lods, 29 de dezembro de 2011

Meus agradecimentos vão à Senhora Marguerite Derrida e aos diretores das publicações que permitiram esta coletânea. Vão também à Senhora A.-M. Arnaud Paulhac e à assistência de Gaël Kervoas da Livraria J. Vrin.

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