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Odiar-se

MARION, Jean-Luc. Le phénomène érotique: six méditations. Paris: Librairie générale française, 2003.

DE CADA UM PARA SI, QUE SE ODEIA

§ 8. O desvio e a contradição

  • Em redução erótica, nada nem ninguém pode me assegurar senão eu mesmo, que por definição não o posso, de modo que aceitar ouvir a pergunta “sou amado?” abre um abismo intransponível.
  • Enquanto a busca da certeza podia reconduzir a mim mesmo, a demanda de uma assegurança me exila definitivamente de mim, atribuindo-me a um alhures do qual jamais serei e cuja estranheza permanece mais íntima a mim do que eu mesmo.
  • Ainda que eu seja e mesmo certamente enquanto penso, permaneço em regime de redução erótica onde não posso me subtrair à pergunta “para quê?”, o que me define por um princípio de falta original.
  • Essa contradição não pode ser evitada por sofisma, pois, ao perguntar se sou amado alhures, não sou nem o princípio nem estou no princípio de mim mesmo.
  • Poderia-se objetar que bastaria eu mesmo me amar para me assegurar, já que nada é mais próximo de si do que o eu reduzido a um núcleo de egoidade denso e insolúvel.
  • Essa pretensão coincide com o ideal da sabedoria filosófica de bastar-se a si mesmo, ideal que a filosofia inteira talvez consista em supor válido da redução epistêmica à redução erótica.
  • A sabedoria popular confirma esse ideal ao converter o cuidado de si em dever moral, recorrendo, quando falha o amor direto de si, ao mimetismo social de ídolos que permitiriam amar-se por procuração.
  • Contudo, embora a fórmula “eu me amo” pareça ter sentido, sua temporalização (“eu me amei”, “eu me amarei”) revela-se absurda, indicando uma impossibilidade de princípio: o amor de si pode se proclamar, mas não se performar.

§ 9. A impossibilidade de um amor de si

  • Amar-se a si mesmo exigiria ou um único eu incapaz de se distanciar de si para se assegurar, ou dois eus distintos, dos quais o outro seria estranho demais para garantir que é a mim que ama.
  • Primeiramente, amar-se a si mesmo exigiria preceder-se a si mesmo, ao passo que todo amor originário, como o dos pais, precede aquele que o recebe, o que torna impossível me preceder a mim mesmo com um amor originário.
  • Em segundo lugar, para vencer a vaidade, o amor exigido precisaria de uma autoridade sem medida comum com o que sou, um excesso que ninguém, muito menos eu mesmo, pode outorgar-se.
  • Finalmente, amar exige uma distância efetiva a percorrer, e não a distância provisória e anulável própria da pensée de entendimento, de modo que não posso ser meu próprio alhures.
  • Por não poder me preceder, nem me exceder, nem percorrer a distância exigida pelo amor, a fórmula “eu me amo a mim mesmo” permanece impensável e impraticável.

§ 10. A ilusão de perseverar em seu ser

  • Objeta-se que essa impossibilidade formal esbarra num fato massivo erigido em princípio pela metafísica: cada um ama antes de tudo a si mesmo, e infinitamente.
  • Essa hierarquia de amores carece de sentido, pois o amor de si não concorre com os amores dedicados a outrem, mas antes os torna possíveis, já que só se pode dar o que já se possui.
  • Admitindo esse fato, ele se reduziria a um desenvolvimento da circularidade do ego cogito, de onde nasceria o cada um para si como reflexo, no plano da consciência, de uma exigência ontológica mais originária — perseverar em seu ser.
  • Todo ente implica o esforço de persistir em seu ser sem condição nem limite, de modo que o amor de si seria apenas o reflexo psicológico dessa exigência transcendental de presença.
  • Contudo, cabe perguntar se ser exige perseverar sempre e exclusivamente no presente, sobretudo quando se trata não de um ente qualquer, mas do eu, centro insubstituível do mundo, cujo modo de ser não se reduz ao simples esforço de persistência.
  • Persistir na presença sem que eu mesmo esteja implicado nessa persistência não me diz respeito enquanto tal, pois, para um ego, ser consiste em abrir-se à possibilidade e não em prolongar a efetividade.
  • Sob a redução erótica, importa menos persistir no ser do que defender esse ser contra a pergunta “para quê?”, de modo que a persistência nada assegura contra a vaidade se o ser não permanecer antes amável.
  • O conatus essendi não responde à pergunta “sou amado?”, nem sequer a entende, pois permanece inteiramente preso à atitude natural.

§ 11. Queira eu ou não

  • Testando ainda o conatus in suo esse perseverandi, cabe perguntar se ele resiste à prova imposta pela pergunta “sou amado?”, distinguindo se persevero no ser por necessidade ou por vontade livre.
  • Se persevero por necessidade, própria a todo ente, surgem duas objeções: até que ponto de degradação essa persistência exigiria obediência, e o que me importaria persistir num ser que se impõe sem que eu aí esteja implicado por decisão própria.
  • O suicídio pode, em certos casos raros, atestar não o ressentimento, mas a decisão soberana de não decair do próprio modo de ser, preferindo não persistir a ser qualquer coisa a qualquer preço.
  • Se, ao contrário, persevero por livre vontade, essa vontade pressupõe consentir e, portanto, amar bem ser, o que reconduz inevitavelmente à exigência de uma assegurança vinda de alhures.
  • O conatus revela-se, assim, um simples engano que apenas adia o confronto com a questão decisiva: sem um amor vindo de alhures que assegure o amante, nenhuma persistência resiste à vaidade.

§ 12. O ódio de si

  • Abandonados o amor de si por si mesmo e a persistência no ser como pontos de partida ilusórios, resta estabelecer a tese oposta: cada um encontra em si, mais originário que qualquer suposto amor de si, o ódio de si.
  • Reivindicar amar-se infinitamente a si mesmo trai, na verdade, a consciência clara de não possuir nem merecer tal amor, pois quem verdadeiramente se amasse não sentiria necessidade de proclamá-lo.
  • A simples reivindicação de um amor de chacun pour soi realiza, assim, o ressentimento em seu fundo mais terrível — o ódio de si, confirmado pela experiência quase universal do impulso de autopunição.
  • Um segundo estágio consiste na injustiça: reivindicar amar-se a si mesmo exige simultaneamente reconhecer-se finito e supor um amor infinito capaz de assegurar essa finitude, contradição que se resolve numa injustiça lógica porém inevitável.
  • Um terceiro estágio, a má-fé, torna-se a única atitude praticável, pois exige mentir a si mesmo, mantendo o eu que ama ignorante do eu que despreza, numa esquizofrenia necessária para sustentar a ilusão do amor de si.
  • Um quarto estágio, o veredito, resulta da soma dessas contradições: mais cedo ou mais tarde as defesas cedem e advém, quase com alívio, a renúncia definitiva a amar-se a si mesmo, aceitando que nada, e sobretudo não eu, merece ser amado.

§ 13. A passagem para a vingança

  • O equilíbrio da indiferença que sucede ao ódio de si não perdura, pois esse ódio remete ainda, inevitavelmente, à pergunta sobre um amor vindo de alhures, desencadeando uma reação em cadeia com o outro.
  • Um quinto estágio surge quando a serena resignação diante da própria incapacidade de se amar se choca com a figura de um outro aparentemente bem-sucedido — o imbecil feliz — provocando uma exigência de justiça comparativa.
  • Num sexto estágio, o outro entra em cena como aquele a quem se prefere odiar, e a quem se dirige, contraditória mas não absurdamente, o pedido de ser amado, exatamente por ser o primeiro rosto acessível de um alhures.
  • Esse outro só consegue absorver tão bem a contradição alheia porque a reproduz em si mesmo, praticando igualmente o ódio de si sob a reivindicação impraticável do amor próprio, tornando-se espelho fiel.
  • Num sétimo estágio, o ódio que esse outro efetivamente devolve confirma retrospectivamente tanto a impossibilidade do amor de si quanto a universalidade da mesma incapacidade em todos, unindo a todos pela prática paralela do ódio de si mais do que pelo ódio recíproco.
  • Esse ódio, por fim tornado efetivo, constitui o único acesso concreto a um alhures: não como amor, mas como a resposta que finalmente chega à pergunta “sou amado alhures?” — dizendo que aquilo que vem de alhures odeia.
  • No estágio derradeiro, esse ódio recebido é devolvido, de modo que a pretensão de cada um a amar-se a si mesmo resulta na universal haine de todos por todos e de cada um por si, num retorno do conatus contra si próprio.

§ 14. A aporia da assegurança

  • Esse percurso desemboca numa aporia irredutível: buscar uma assegurança em vez de mera certeza conduz, pela via mais direta do amor de si, à impossibilidade e daí ao ódio de si e ao ódio recíproco.
  • Tal aporia decorre necessariamente do ponto de partida, e não trairia mero pessimismo, pois objeções que apelam a um legítimo amor de si ou a sentimentos de simpatia perdem pertinência assim que se entra em redução erótica.
  • Diante da exigência de responder à pergunta “sou amado alhures?”, restam apenas duas vias — ser amado por outrem sem direito a exigi-lo, ou amar-se a si mesmo sem poder fazê-lo sem contradição — e ambas se fecham.
  • Tampouco é possível alterar o ponto de partida recorrendo apenas à certeza da consciência de si, pois a certeza nada pode contra a vaidade, que exige uma assegurança que só pode vir de alhures.
  • A aporia permanece, portanto, inteira, retendo o pensamento no ponto da haine de todos por todos e de cada um por si mesmo, sem armas além dessa dupla ameaça.
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