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COISIDADE TÉCNICA ARTE
MACQUARRIE, John. Heidegger and Christianity: the Hensley Henson Lectures 1993-94. New York: Continuum, 1994.
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A análise de Heidegger sobre a coisa evolui de uma visão instrumental em Ser e Tempo para uma concepção mais rica do “quádruplo” (das Geviert) em seus escritos posteriores.
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Em Ser e Tempo, a coisa é vista primariamente como “pronta-para-o-uso” (Zuhanden) dentro de um mundo instrumental projetado pelo Dasein, como um martelo.
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Em “A Coisa” (1950), uma coisa (ex.: uma ânfora) é mais que um objeto ou produto humano; ela reúne e revela as quatro dimensões do quádruplo: terra, céu, mortais e divinos.
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O quádruplo constitui o significado de uma coisa, reunindo dimensões materiais, naturais, humanas e divinas em uma unidade.
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A ânfora refere-se à terra (argila), ao céu (sol e chuva para as uvas), aos mortais (oleiro) e aos divinos (possível libação).
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Esta visão supera a atitude exploratória inicial, alinhando-se com a ideia posterior de que o homem é “pastor do Ser”.
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A linguagem do quádruplo é poética-mitológica, refletindo a crença de Heidegger de que a poesia e o mito podem revelar a verdade de modo pré-científico.
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O esquema pode ser comparado à doutrina aristotélica das quatro causas, mas com diferenças significativas, especialmente na dimensão dos “divinos”.
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Os “divinos” no quádruplo representam um “fator divino” ou sagrado na realidade, não o Deus teísta, compatível com o fascínio de Heidegger pelos gregos e por Hölderlin.
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A filosofia madura de Heidegger encontra espaço dentro da temporalidade e historicidade para o divino e as aspirações do espírito humano, tornando-se compatível com o cristianismo.
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A aplicação da teoria do quádruplo à sociedade tecnológica é problemática e revela uma tensão no pensamento de Heidegger.
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A visão inicial do mundo como oficina parece feita sob medida para o mundo tecnológico.
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A concepção ampliada do quádruplo parece um romantismo, criando uma cisão entre acomodar o mundo atual e apegar-se a ideias do passado.
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A análise de Heidegger sobre a tecnologia é obscura e ambígua, caracterizando sua essência como “com-posição” (Ge-stell).
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Ge-stell é um “reunir” que vê o mundo como um fundo de estoque para produção e consumo, impulsionado pela vontade de poder.
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O exemplo da usina hidrelétrica no Reno ilustra uma cadeia de atividades sem destino final claro, reduzindo o rio a equipamento.
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A tecnologia é apresentada como um destino (Geschick) enviado pelo Ser, mas não como uma fatalidade coercitiva, pois a liberdade humana reside em escutar esse destino.
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O homem está inevitavelmente na era tecnológica, uma herança factual com a qual deve lidar.
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O perigo da tecnologia é que o instrumento foge ao controle e começa a determinar a vida de seus mestres, ameaçando reduzir o próprio homem a parte do estoque.
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A cura para os perigos da tecnologia não pode vir dela mesma, pois ela é instrumental e carece de clareza sobre fins últimos.
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Heidegger aponta que a arte, especialmente a bela arte (techné), pode oferecer um caminho adiante, uma revelação mais originária que contrabalance o domínio da Ge-stell.
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A arte pode desvelar uma verdade mais originária, conforme os versos de Hölderlin: “Mas onde há perigo, cresce / também o que salva”.
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A origem da obra de arte não está simplesmente no artista, mas em uma relação circular com a arte mesma, uma terceira coisa anterior a ambos.
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A obra de arte é ela mesma uma coisa, mas sua “coisidade” é apenas o ponto de partida para questionar sua essência.
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A obra de arte (ex.: os sapatos camponeses de Van Gogh) desvela a verdade do ente que representa, trazendo à luz seu ser e suas múltiplas referências ao mundo.
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O quadro “fala” e desvela o que o equipamento é em verdade, mostrando seu pertencimento à terra e ao mundo da camponesa (preocupações, alegrias, ameaças).
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Na obra de arte, ocorre um acontecimento da verdade: o ser do ente vem à estabilidade de seu brilho, um desvelamento onde o Ser mesmo se abre.
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A essência da arte é definida como “a verdade dos entes pondo-se em obra”.
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A obra de arte arquitetônica (ex.: um templo grego) não representa uma coisa, mas instaura um mundo e apresenta a terra, reunindo um campo de significados destinal.
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O templo, em sua estabilidade, torna visíveis forças da natureza (a tempestade, a luz, o mar) e constitui um espaço para o sagrado, deixando o deus estar presente.
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A obra de arte estabelece uma tensão e uma necessidade mútua entre “mundo” (que ela instaura) e “terra” (que ela apresenta).
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Este “pôr” (Stellen) da arte é radicalmente diferente do “com-por” (Ge-stell) da tecnologia.
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A terra irrompe no mundo; a arte deixa as coisas serem o que realmente são, em contraste com o uso consumível da técnica.
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O conceito de “mundo” nos escritos maduros de Heidegger é muito mais rico que a concepção instrumental de Ser e Tempo, aproximando-se de uma visão quase sacramental do universo.
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Se incorpora ou não precisamente o esquema do quádruplo é debatível; a dualidade “terra-mundo” pode ser mais flexível.
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Ambas as concepções fazem justiça à riqueza da experiência humana e ao ser do Dasein, que existe simultaneamente na verdade e na não-verdade.
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