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Deus(es)
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Questão sobre como nomear o divino na obra de Heidegger – Deus, o deus, os deuses, a deidade ou ainda o divino, no contexto do teológico ou do te(i)ológico – traduz dificuldade em circunscrever o que essa nominação recobre, sem que distinções habituais entre politeísmo e monoteísmo possam ser de auxílio.
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Observação de Heidegger em carta a Elisabeth Blochmann – Deus – ou como queira dizer – chama a cada um com uma voz diferente – contém em filigrana quase todas as dificuldades, aporias e talvez promessas que o nome de Deus carregará em sua escrita, apontando para o Carregador do Apelo que é Deus, chamando singularmente cada um a ser si mesmo, enquanto a fonte desse apelo permanece de difícil nominação.
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Para maior clareza, é desejável distinguir, ainda que esses aspectos inevitavelmente se enredem:
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Primeiramente, a relação pessoal de Heidegger com Deus, no âmbito biográfico.
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Em segundo lugar, o modo como suas interpretações e seu pensamento ecoam aquilo que se chama Deus.
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Finalmente, a irrupção, em meados dos anos 1930, de uma figura inédita e insólita que Heidegger chama o último deus, isto é, a maneira como seu próprio pensamento pôde dar lugar à questão de Deus.
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Disposição atual de ampla documentação – cartas, textos autobiográficos, testemunhos – permite rastrear a estranha presença/ausência de Deus no itinerário de Heidegger, desde a infância católica até a ruptura dolorosa com o sistema do catolicismo.
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Contudo, a questão sobre se Heidegger acreditava em Deus, ou quando teria cessado de crer nEle, mostra-se em muitos aspectos impertinente, pois não faz jus à amplitude de um questionamento que convida a pensar as coisas de modo totalmente diverso do preenchimento de rubricas em uma ficha de suposto sujeito crente ou incrédulo.
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Restaria indagar se a fé é algo que se possa ter ou perder; Deus não é algo que se perca como se perde uma pedrinha, conforme escreve Rilke, ainda que a perda possa ser uma segunda aquisição, interior e mais intensa.
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Estabelecimento factual possível limita-se a constatar que Heidegger saiu da Igreja, gesto oficial na Alemanha com consequências inclusive fiscais.
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Testemunho do padre Engelbert Krebs sobre declaração de Elfride Heidegger em dezembro de 1918 indica que o casal pensava como protestantes, acreditando em um Deus pessoal ao qual dirigiam orações no espírito de Cristo, mas sem ortodoxia protestante ou católica.
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Para além de elementos biográficos, o pensamento de Heidegger não cessou de ser assombrado, a seu modo, pela questão de Deus, por um Deus que se faz questão, ou mais amplamente pelo divino em sentido grego, judaico e cristão, na plenitude que guarda em reserva aquilo que não cessou de ser com respeito ao divino.
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Questão que magnetiza sua abordagem do divino poderia formular-se assim: viemos apenas tarde demais para os deuses ou subsiste ainda uma possibilidade de sermos tais, com respeito ao divino, que o divino possa ainda ter por nós algum respeito?
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Em termos fenomenológicos, aos quais se arrisca o pensamento de Heidegger, o problema é o do acesso à dimensão do divino, ou, ao contrário, a obstrução das condições de possibilidade de qualquer acesso, inclusive em certos modos crentes de testemunhá-lo, que podem ser ateus a sua revelia.
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A própria nominação do divino em língua alemã constitui uma primeira obstrução, pois o termo Gott significa etimologicamente o Invocado, aquele visto a partir do homem e de sua angústia, ao qual se dirigem preces.
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A história da metafísica transforma esse Invocado em Convocado, alinhado a conceitos como ato puro de ser, ente infinito, causa de si ou supremo valor – identificação esta que Heidegger qualifica de maior blasfêmia, por rebaixar o divino a objeto de valoração subjetiva.
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O divino em sentido grego, ao contrário, não é apreendido a partir do homem, mas a partir de si mesmo, como aquilo que deve a si seu próprio surgimento, fulgurando como Zeus.
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A fé – da qual seria necessário distinguir tipos nas religiões judaica e cristã, e talvez entre confissões cristãs – é uma modalidade da relação com o divino, não sendo essa a modalidade dos gregos, que não acreditaram em seus deuses.
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A designação tardia de monoteísmo, brandida como progresso, expressa apenas o ponto de vista daqueles que declaram falso o que inspirou a outros a mais alta veneração.
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O Deus de Heidegger não é o Deus dos filósofos e dos sábios, mas tampouco é simplesmente o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó.
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O desprendimento de Heidegger em relação ao cristianismo é menos uma renegação que uma tentativa de aprofundamento daquilo que, nessa proveniência, permanece portador de futuro, uma segunda aquisição.
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Por isso, o último deus que surge nos Contributos à Filosofia, aveniente apenas a favor da história do ser, deve ser entendido como começo – como deus do adeus a tudo o que foi até aqui nossa relação com o divino e simultaneamente deus do adeus, deus enfim e até si mesmo re-apropriado.
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Não é o deus que esperamos, mas, no melhor dos casos, o deus que nos espera, aquele que aguarda a fundação da verdade do ser e com isso o salto do ser humano no Da-sein.
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Por mais enigmático e difícil que seja o desenvolvimento dedicado ao último deus, que apenas passa e talvez despercebido, parece que este é menos um deus novo destinado a eclipsar predecessores que a dimensão mesma do divino a que esses insólitos reencontros permitiriam reacessar, por mais problemática que permaneça sua articulação com o Deus dos filhos de Abraão.
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A estrela que ornamenta a tumba de Heidegger não é a da redenção.
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É talvez na frase famosa pronunciada em 1966 para a revista Der Spiegel que se pode ver uma espécie de testamento espiritual de Heidegger sobre essa questão: Somente um deus pode ainda nos salvar.
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E acrescenta: Resta-nos como única possibilidade preparar no pensamento e na poesia uma disponibilidade para o aparecimento do deus ou para a ausência do deus em nosso declínio; que declinemos diante do deus ausente.
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Na era técnica que é a nossa, a voz de Deus ainda seria audível, ou estaria para sempre recoberta pelo estrondo das máquinas, com o qual os homens de hoje quase chegam a confundi-la?
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A questão da nominação do deus não relega mais em Heidegger à problemática clássica dos nomes de Deus ou a uma doutrina dos atributos divinos, mas, a favor de um diálogo incontornável com a poesia de Hölderlin e da meditação do Geviert, àquela da deidade tal como bebe na fonte do sagrado, o que por sua vez supõe a verdade do ser.
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Como afirma a Carta sobre o Humanismo: É somente a partir da verdade do ser que se deixa pensar o sentido do sagrado. É somente a partir do que é o Sagrado que o sentido da Deidade é a pensar. É somente na luz própria à Deidade que pode ser pensado e dito aquilo que cabe à palavra ‘Deus’ nomear.
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A dificuldade inerente à nominação de Deus ou mais amplamente do divino em Heidegger deve-se, portanto, por um lado, a sua relação tornada não confessional com Deus e, por outro, à instauração de distinções e delimitações totalmente novas capazes de estabelecer não de novo, mas novamente algo como uma relação com o divino.
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