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Interpretação
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Heidegger coloca a questão da interpretação no centro do pensamento contemporâneo, não como uma filosofia da interpretação, mas como um exercício de esclarecimento da compreensão do ser, onde “pensar é falar, e a fala é uma escuta” (Kant, Opus postumum, p. 242), revelando a circularidade própria ao Verstehen (compreensão), que projeta o Dasein em suas possibilidades existenciais, como desenvolvido no §32 de Ser e Tempo: “Como compreensão, o Dasein projeta seu ser sobre possibilidades. Esse ser junto aos possíveis, sustentado pela compreensão, é ele mesmo um poder-ser. O projetar inerente à compreensão possui a possibilidade própria de se desenvolver mediante o exercício. Esse exercício, que dá forma à compreensão, nós o chamamos interpretação (Auslegung). Nela, a compreensão apropria-se do que compreende ao compreender.”
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A interpretação é uma praxis da compreensão, um existencial fundamental que torna possível a emergência do sentido e, portanto, a existência de um mundo, pois, como afirma Heidegger em seu Schelling: “Nós só conhecemos aquilo de que temos intuição; só temos intuição daquilo que somos; só somos aquilo a que pertencemos. Mas essa pertencença só tem ser na medida em que dela testemunhamos. E esse testemunho só advém ao sermos o 'aí' (Da)” (GA42, 97), ecoando a máxima de Empédocles, retomada por Platão e Goethe: “Nunca o olho poderia ver o sol se não fosse ele mesmo solar.”
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Embora Heidegger tenha analisado diversas figuras da interpretação, especialmente aquelas que ritmam a vida cotidiana, seu mérito reside na prática magistral e quase midráxica da interpretação textual, como destaca Hannah Arendt em carta a Hugo Friedrich (1963): “Sua pretensa 'violência' não é outra senão a presente nas famosas 'distorções' de Picasso. […] Heidegger não interpreta mais sob a forma de um relato, que consiste em começar por dar uma descrição da obra antes de propor uma interpretação. Em vez disso, ele se instala no coração da obra, no que chama o não-dito, um espaço onde o leitor ou ouvinte pode tomar lugar, a partir do qual a obra se desdobra, do texto impresso como resultado, em uma palavra viva capaz de encontrar resposta.”
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A interpretação heideggeriana não abole a diferença entre o pensar e o pensado, mas a aprofunda: “Que um pensador possa ser 'melhor' compreendido do que ele mesmo se compreendeu não é uma insuficiência que lhe deva ser imputada, mas o sinal de sua grandeza. Somente o pensamento originário abriga em si essa riqueza de sempre se recusar a ser inteiramente pensável e de poder ser, a cada vez, 'melhor' compreendido, ou seja, de outro modo” (GA55, 63), pois a interpretação nunca visa uma versão única e definitiva, mas se move na “leitura múltipla, que é o elemento no qual o pensamento deve se mover para ser rigoroso” (GA8, 75).
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O “compreender melhor” não é mérito do intérprete, mas decorre da riqueza do que se oferece à interpretação, exigindo que o intérprete entre no jogo hermenêutico, arriscando-se a um deslocamento que o coloca “fora de si” — uma transe hermenêutica que abre espaço para o estranho, como na experiência poética descrita por Platão no Íon, onde a palavra lançada adiante deve ir ao encontro daquilo que se dirige a nós, sem pretender superá-lo: “Nós só estamos em condições de ouvir na medida em que, de nós mesmos, dirigindo-nos a ele, dizemos de antemão algo àquilo que quer se dirigir a nós” (GA4, 156).
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A verdadeira interpretação não busca a fusão, mas a “boa distância longínqua”, que preserva a separação e o respeito pelo incompreensível e pelo inaudito, como Heidegger desenvolve em Diálogo Ocidental e Sobre o Começo: “É necessário que o dizer e o pensar sejam de alguma maneira acessíveis, ou seja, que deles possa proceder um impulso para colocar em obra a meditação. Isso não significa que devam ser compreensíveis” (GA70, 147), pois a interpretação historial (geschichtlich) — em oposição à histórica (historisch) — suporta a prova do estranho e mantém aberto o incompreensível, sem reduzir o pensamento a esquemas prévios.
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Em Sobre o Começo e A Vinda, Heidegger redefine a interpretação como um “ex-plicitar” (Heraus-legen) que conduz ao coração do aberto, preservando a estranheza do inicial: “Interpretar é, a cada vez, fazer sair, colocando bem à mostra, aquilo que, em si mesmo, em seu desdobramento inicial, salvaguarda o efeito de estranhamento” (GA70, 148), onde a dimensão existencial da interpretação cede lugar à sua dimensão historial, tornando-se o foco do “outro começo” do pensamento, que exige uma “boa distância longínqua” entre as “cimes mais separadas” (Hölderlin, Patmos), onde o intérprete deve suportar o silêncio e a luz que emanam do conjunto, sem reduzir a obra a uma proximidade sem claridade.
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Compreender um pensador significa posicionar-se frente ao que ele pensou, tornando-se também uma “cime”, em um Entre-tempo (Inzwischen) que preserva a distância e a abertura: “Compreenderemos um dia essa maneira de compreender? Ou ela está para sempre perdida?” (GA71, 53), pergunta Heidegger, sublinhando que a interpretação autêntica não é apropriação, mas salvaguarda do não-compreendido, em uma relação que deixa o inicial resplandecer em sua riqueza originária.
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