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O Estatuto da Ciência na Dinâmica da Compreensão

Filosofia e Práxis Científica. Jean Ladrière. Org. por Olinto Pegoraro. Trad. maria José J. G. de Almeida. Francisco Alves, 1978

Publicado originalmente sob o título: “Le statut de la science dans la dynamique de la compréhension”, em Recherches et Débats, n. 75 (publicado sob o título geral: Chemins de la Raison), Desclée de Brouwer.

EXPOSIÇÃO INTRODUTÓRIA AO COLÓQUIO

  • Problema metodológico contemporâneo e exigência de uma abordagem radical.
    • Separação quase absoluta entre tradições intelectuais da ciência positiva, filosofia e teologia constitui obstáculo epistemológico, pois categorias estabelecidas impedem apreensão de problemas fundamentais que atravessam fronteiras disciplinares, exigindo abordagem que não se limite a evocar complementaridade de métodos ou divisão do trabalho, mas que retorne aos próprios fundamentos da problemática do conhecimento para reconstituir, de modo genealógico, o caminho que conduziu à atual fragmentação, com objetivo de reencontrar terreno comum de construção das grandes disciplinas, compreender processo de sua diferenciação, examinar alcance de suas afirmações e, finalmente, determinar como podem se articular em ponto de vista englobante, tarefa que se inicia com investigação do princípio comum subjacente, ainda que de modos distintos, à ciência, filosofia e teologia.
    • Princípio comum identificado como dinâmica da compreensão, ato fundamental de vincular um fenômeno a uma totalidade, não como mera localização dentro de realidade englobante, mas como ultrapassamento que, apoiando-se em recursos internos indicados pelo próprio fenômeno, abre caminho do interior da manifestação rumo ao que a transcende, possibilidade inscrita na estrutura mesma do fenômeno entendido como aparecer, pois manifestar-se é vir ao espaço do encontro a partir de uma origem ou princípio que subentende e regula todo o processo, de modo que compreender é refazer inversamente o caminho da vinda ao manifesto, vinculando-o a seu princípio mediante introcessão que pressupõe já estar em comunicação com região dos princípios, concebida como horizonte indeterminado e totalidade fundante.
  • Estrutura da compreensão: fenômeno, horizonte e pré-compreensão.
    • Horizonte da compreensão constitui campo último e indeterminado onde fenômenos se inscrevem, totalidade no sentido de esfera englobante que precede e funda possibilidade de qualquer manifestação, funcionando como fonte a partir da qual fenômeno se produz e princípio que o vincula a este campo semântico, exigindo, para sua apreensão, ato de harmonização prévio denominado pré-compreensão, ato pelo qual espírito se coloca em relação com horizonte e deixa desdobrar-se uma esfera de inteligibilidade que iluminará fenômenos particulares.
    • Dinâmica infinita da compreensão emerge porque horizonte, enquanto totalidade fundante, excede infinitamente qualquer fenômeno particular, de modo que caminho que leva do fenômeno a seu princípio jamais se esgota, capturando espírito em movimento perpétuo de regressão fundadora, movimento que é vestígio do apelo proveniente do horizonte com o qual espírito se mede, configurando estrutura geral na qual se enraízam todos os procedimentos do conhecimento e a partir da qual se pode examinar diferenciação histórica das disciplinas.
  • Diferenciação das disciplinas: conceito operatório, especulativo e hermenêutico.
    • Exigência da totalidade presente na pré-compreensão tende a se precisar conceitualmente, buscando tematizar manifestação reproduzindo seu processo no meio do conceito, cujo poder é rearticular geneticamente a realidade, podendo, conforme lição da experiência histórica, desempenhar este papel de duas maneiras principais, indicando concatenação dos fenômenos no horizonte mundano ou ligação dos fenômenos ao horizonte ontológico último.
    • Exploração do horizonte do mundo, concebido como sistema dos fenômenos, se faz mediante conceito operatório, característico da ciência, enquanto exploração do horizonte do ser, fonte última de toda constituição, se faz mediante conceito especulativo, característico da filosofia, e teologia, por seu turno, enquanto esforço da fé para se compreender, opera no horizonte da salvação que se desvela através de acontecimentos singulares da Revelação, visando apreender conceitualmente realidade total à luz dessa trama secreta, utilizando-se igualmente de conceitos interpretativos ou hermenêuticos.
  • Operação da compreensão científica: algoritmo, experiência e horizonte mundano.
    • Compreensão científica realiza reconstituição operatória da manifestação ao nível duplo da prática teórica e da prática experimental, recorrendo, na primeira, à formalização e matematização cujo cerne é papel do algoritmo, cujo significado se esgota no conjunto de possibilidades operatórias que contém e caracteriza, exemplificado na definição recursiva que mostra concretamente passagem de uma etapa à seguinte, inteligibilidade intrínseca que independe de referente imediato.
    • Prática experimental não se reduz a percepções, mas constitui todo complexo de preparação do sistema, manipulações, percepções e interpretações, carregada de teoria em vaivém incessante, onde se busca estabelecer isomorfismo estrutural entre teoria formal e realidade tal como se manifesta, sendo sentido dos termos teóricos constituído por esquematização prévia, inteligibilidade algorítmica e relação com experiência, unificados por inscrição no campo semântico do horizonte mundano, pré-compreensão do mundo como sistema regulado por interações analisáveis em ações elementares encadeadas.
  • Operação da compreensão filosófica: conceito especulativo e analogia.
    • Compreensão filosófica, de ordem especulativa, fornece interpretação total da realidade visando ligação com fundamento através do poder especulativo do conceito, que deve formar todo complexo organizado, coerente e saturado capaz de cobrir conjunto ou grandes categorias dos fenômenos acessíveis na manifestação, conceitos estes forjados a partir de conceitos prévios da linguagem ordinária ou científica mediante transposição de sentido guiada pelo mecanismo da analogia.
    • Transposição analógica não é arbitrária, pois sentido primeiro já contém indicação que move espírito em direção ao sentido visado, sendo atração entre eles impulsionada pela inscrição numa totalidade que já se apresenta como horizonte da conceptualização especulativa, horizonte este aberto pela pré-compreensão que antecipa e guia operação de transmutação semântica, permitindo ultrapassamento do significado imediato rumo ao princípio fundante.
  • Operação da compreensão teológica: hermenêutica da Revelação e transvalorização.
    • Compreensão teológica constitui hermenêutica específica que opera dupla decodificação, decifrando sinais da salvação em acontecimentos históricos reveladores e, simultaneamente, decifrando realidade inteira à luz dessa compreensão da salvação, apoiando-se não em experiência direta do mundo, mas em experiência cristã estruturada pela linguagem polimorfa da tradição, predicação, liturgia e oração, que remete à linguagem originária ligada aos acontecimentos reveladores.
    • Construção do sistema conceitual teológico recorre igualmente à analogia, possibilitada pela polissemia da linguagem, tomando como ponto de partida termos da linguagem ordinária como pai, reino ou corpo, cujo sentido primeiro, enraizado na experiência natural, é transvalorizado pela experiência religiosa da fé quando lido à luz do horizonte da salvação, horizonte que faz aparecer sentido realmente visado, anulando ou subsumindo o sentido primeiro.
  • Alcance da conceptualização científica: do empírico ao especulativo-cosmológico.
    • Alcance dos conceitos científicos é determinado por seu horizonte de inscrição, o mundo como sistema de fenômenos, possuindo referência empírica que, contudo, não se reduz a percepções, devendo ser interpretada em termos de prática experimental como debate com o mundo, o que confere poder explicativo, predicativo e antecipador, permitindo encadear fenômenos e imaginar novas experiências, com certos conceitos, como o de campo na relatividade geral, alcançando função cosmológica ao tematizar horizonte do mundo, representando totalidade da natureza e explicando propriedades locais a partir de estrutura global.
    • Conceitos teóricos com alcance especulativo, ao tematizar horizonte mundano, situam-se nos confins da filosofia, propiciando quadro para cosmologia teórica e prestando-se a retomada interpretativa em quadros especulativos distintos, como horizonte do ser ou da salvação, pois mantêm, ainda que mediatamente, relação possível com veredicto da experiência empírica, como na determinação da geometria do universo mediante dados astronômicos.
  • Alcance da conceptualização filosófica: limitação e círculo hermenêutico.
    • Conceptualização filosófica não possui recurso decisivo ao veredicto da experiência, sujeitando-se à condição de adequação que exige cobrir real em todos seus aspectos, risco sempre presente de privilegiar algum aspecto, sendo discurso filosófico uma interpretação guiada por movimento especulativo do conceito que prolonga sentido primeiro dos termos mediante analogia, tentando atingir princípio último como ser, ato ou logos por via de transgressão semântica, o que acarreta limitação inerente, porém não invalidadora, de seu esclarecimento.
    • Discurso filosófico está inevitavelmente inscrito no círculo hermenêutico, onde é necessário já ter compreendido para compreender, ligando-se intrinsecamente a uma colocação em jogo do existente, pois ascensão ao ponto de vista do ser é transformação e purificação de si, revelando caráter ético da filosofia que articula evento da manifestação do ser com evento do revelar-se do existente, vinculando, portanto, ordem do acontecimento e ordem da existência.
  • Alcance da conceptualização teológica: acontecimento, existência e círculo da fé.
    • Alcance dos conceitos teológicos é regido por princípio de adequação que exige fidelidade à experiência da comunidade cristã e capacidade de retomar sua linguagem ordinária, operando em dupla ordem, a da estrutura universal e inteligível e a do acontecimento único e modificador do sentido, sendo a teologia interpretação que se baseia em outra interpretação imediata ligada à experiência originária, configurando círculo hermenêutico em seu grau máximo, onde é necessário já ser crente para decifrar signos da fé.
    • Acontecimento por excelência, a Encarnação, opera como ruptura na ordem mundana, fraturando mundo fechado em suas leis pela inserção de Deus no devir, evento correlato à conversão ou vocação no existente, evidenciando que discurso teológico concerne radicalmente ao intérprete em seu ser, inscrevendo-se plenamente na ordem do acontecimento e da existência, onde compreensão só advém por procedimento global e instantâneo de tudo ou nada.
  • Articulação possível entre as disciplinas: pressupostos, interações e a questão da criação.
    • Articulação entre ciência e filosofia ou teologia torna-se possível onde ciência, ao falar da totalidade ou de propriedades fundamentais, coloca questões que exigem esforço de interpretação ontológica ou teológica, fundada na pertinência do horizonte do mundo aos horizontes do ser e da salvação, e onde análise dos pressupostos da ciência, como postulado de objetividade, ou da natureza de sua inteligibilidade operatória, demanda reflexão filosófica e teológica sobre significado existencial dessa atividade do espírito.
    • Interação entre filosofia e teologia revela que filosofia torna manifesto horizonte de consistência do mundo no qual salvação advém, enquanto interpretação teológica reorganiza inteiramente horizonte filosófico a partir de chave existencial radical, convergindo ambas, com contribuição da ciência em sua dimensão especulativa, para questão da criação, princípio interpretativo da realidade que radicaliza perspectiva ontológica, funcionando como encruzilhada entre pensamento operatório e interpretativo, ontologia e cosmologia.
    • Criação situa-se na articulação do ser e da existência, sendo ao mesmo tempo estrutura racional suprema e condição existencial mais radical, logos e kairos, fonte de inteligibilidade e fundamento de vocação, enigma que coloca destino do pensamento dentro do destino da existência e, por isso, inscrito no movimento da salvação, onde ciência e filosofia são destinadas a ser assumidas, purificadas e transfiguradas pela força da Palavra e poder do Espírito.
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