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Ciência

Capítulo “Ciência” resumido em alguns de seus tópicos essenciais do livro “Os desafios da racionalidade”. Trabalho desenvolvido por solicitação da UNESCO em 1977 e publicado pela Ed. Vozes

  • Determinação inicial dos sentidos de ciência e deslocamento para seu traço contemporâneo mais saliente
    • A ciência pode ser compreendida como a soma atual de conhecimentos científicos, como atividade de pesquisa ou como método de aquisição do saber
      • Essa tríplice determinação estabelece desde o início que a ciência não se reduz nem a um corpo de resultados nem a uma prática isolada, mas articula conteúdo, atividade e procedimento
    • O traço mais surpreendente da ciência nos dias atuais é identificado como seu caráter cada vez mais organizado socialmente
      • A surpresa não deriva do simples crescimento do saber, mas da forma social que enquadra, orienta e administra sua produção
  • Passagem de uma prática marginal a um setor decisivo do trabalho social
    • Há um contraste histórico entre um tempo em que o trabalho científico era tarefa de poucos, relativamente à margem das instituições, e a situação atual
      • O deslocamento não é meramente quantitativo, mas estrutural: a pesquisa torna-se um setor importante e, sob certos aspectos, decisivo do trabalho social
    • A institucionalização crescente implica organização segundo planos
      • A pesquisa deixa de operar prioritariamente sob o signo da fantasia, do acaso, da imprevisibilidade e da criatividade pessoal, elementos que haviam sido decisivos nas fases iniciais, e que se tornam quase marginais
    • A pesquisa é descrita como profissão ordinária, exercida em instituições públicas ou privadas com tendência ao modelo burocrático
      • O trabalho científico passa a ser regulado por projetos definidos
      • Esses projetos são frequentemente ditados por motivos exteriores à ciência propriamente dita, indicando heteronomia de fins
  • Deslocamento de finalidades: do problema científico ao uso técnico, econômico e militar do saber
    • Uma parte crescente da pesquisa não visa resolver problemas propriamente científicos
      • Ela visa utilizar conhecimentos, métodos e saber-fazer científicos para criar procedimentos industriais, ampliar meios econômicos, fabricar engenhos militares ou contribuir para programas de desenvolvimento regional e nacional
    • Esse deslocamento é resumido pela tese de que a pesquisa se tornou fator de poder
      • O poder se exerce na ordem econômica e na ordem diretamente política
    • A partir da Segunda Guerra Mundial, a pesquisa científica converte-se em fator político ao qual os Estados conferem máxima atenção
      • A razão é explicitada como evidência: a capacidade de utilizar recursos científicos constitui componente essencial da força econômico-política de uma coletividade
  • Emergência de uma política da ciência e tendência ao controle estatal
    • Observa-se a elaboração generalizada de uma política da ciência e a construção de instituições estatais apropriadas
    • A organização da pesquisa tende a tornar-se global, passando ao controle direto ou indireto do Estado
      • Reconhece-se que essa tendência deve ser modulada pelas diferenças entre regimes econômico-políticos
      • A organização pode ser mais ou menos centralizada
    • Mesmo em contextos com múltiplos centros de decisão independentes, a tendência permanece integradora
      • Busca-se evitar duplicações de esforço, favorecer cooperações e definir objetivos globais que enquadrem e harmonizem objetivos particulares
  • Necessidade de regressar ao núcleo específico do fenômeno científico
    • Antes de considerar pesquisa como fato social, organização e incidências políticas, impõe-se a questão do específico da ciência e da razão de sua importância moderna
      • O problema é formulado como exigência de considerar o fenômeno científico em si mesmo, em seu núcleo essencial
    • Nesse ponto de vista, o que importa simultaneamente é o conteúdo e o método
      • Pelo conteúdo, a ciência fornece saber sobre a realidade
      • Pelo método, ela torna possível um crescimento regulado desse saber e aperfeiçoa progressivamente os meios que asseguram esse crescimento
    • O traço mais característico da démarche científica é identificado como capacidade de progresso
      • Essa capacidade define um tipo de evolução e exige caracterização do saber científico e análise de sua dinâmica interna
  • Vínculo moderno entre ciência e poder e a necessidade de precisar o estatuto do conhecimento científico
    • A ciência moderna é estreitamente associada a um poder sobre as coisas e sobre o próprio homem
      • Essa associação explica sua ligação com a tecnologia a ponto de frequentemente não se discernir dela
    • Apesar dessa ligação, a ciência mantém uma finalidade própria e imediata
      • Fornecer conhecimentos mais extensos, mais precisos e mais confiáveis
    • Compreender o prolongamento do saber científico em saber-fazer tecnológico exige apreender o estatuto desses conhecimentos
      • A tese central é que o saber científico não é sapiencial, contemplativo nem hermenêutico, mas operatório
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