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estudos:kockelmans:1984:5

5 Quadratura

KOCKELMANS, Joseph. On the Truth of Being: Reflections on Heidegger’s Later Philosophy. Bloomington: Indiana University Press, 1984.

Reflexões sobre a quadratura (das Geviert)

  • A quadratura (das Geviert) designa a unidade articulada de terra, céu, divinos e mortais: essas quatro dimensões se pertencem e se espelham mutuamente, de modo que cada uma recebe sua determinação na relação com as demais.
  • Essas dimensões têm sentido ontológico e não classificam os entes em quatro grupos; elas permitem pensar a estrutura do mundo em que os entes adquirem sentido, estrutura cuja configuração varia historicamente.
  • Na época da técnica moderna, a terra é submetida à exploração, o céu perde sua abertura ao mistério, os divinos se retraem e os seres humanos tendem a esquecer sua condição mortal, enquanto o cálculo passa a governar sua relação com os entes.

Artigo I — A quadratura na filosofia tardia de Heidegger

  • O mundo se manifesta historicamente como a unidade de terra, céu, divinos e mortais: a terra sustenta e abriga, o céu oferece a amplitude dos astros e das estações, os divinos acenam para a divindade, e os mortais são aqueles que podem reconhecer a morte como morte.
  • A retomada do mito e da poesia de Hölderlin procura pensar a pertença dessas dimensões, sem simplesmente reproduzir antigas representações; mito e logos, em seu sentido originário, dizem respeito ao fazer aparecer aquilo que solicita o pensamento.
  • O mundo acontece na verdade como desvelamento e encobrimento inseparáveis: o ser concede aos entes sua abertura enquanto se retrai, e esse envio (Geschick) assume configurações históricas que não podem culminar em uma revelação completa.
  • O tempo originário reúne o vigor de ter sido, o presente e o porvir em sua relação recíproca; juntamente com o espaço, constitui o âmbito de tempo e espaço (Zeit-Spiel-Raum) no qual pode surgir a proximidade, anterior à medição de instantes e distâncias.
  • A quadratura se realiza como jogo de espelhos (Spiegel-Spiel), no qual nenhuma dimensão constitui o fundamento isolado das outras; as coisas acolhem e reúnem esse mundo, enquanto o mundo lhes permite chegar ao que lhes é próprio.

Artigo II — Céu e terra: a riqueza das reflexões de Heidegger sobre a terra

I. Céu e terra: descrição de um problema

  • A terra adquire uma função constitutiva na reflexão sobre a verdade do ser, a obra de arte, a coisa e o habitar, ultrapassando sua compreensão habitual como planeta, matéria disponível ou simples suporte da vida humana.
  • A relação entre terra e mundo na obra de arte apresenta uma dificuldade própria: ali a terra se opõe ao mundo como aquilo que se resguarda, enquanto nas reflexões posteriores ela figura, em relação com o céu, como uma das quatro dimensões do mundo.
  • A compreensão dessas duas configurações exige distinguir a tensão entre terra e mundo da relação entre terra e céu, preservando a ligação de ambas com o desvelamento e o encobrimento.

II. Terra e mundo em «A origem da obra de arte»

  • A obra de arte instaura a verdade ao abrir um mundo histórico e fazer surgir a terra; no templo grego, por exemplo, essa abertura permite que deuses, mortais e coisas ao redor apareçam em suas relações próprias.
  • O mundo reúne um horizonte compartilhado de sentido, ao passo que a terra abriga aquilo que emerge e se resguarda de toda apreensão exaustiva; na obra, seus materiais vêm à presença precisamente sem se esgotarem em sua utilidade.
  • O combate entre mundo e terra constitui a vigência da obra: o mundo se firma sobre a terra, e a terra se eleva através do mundo, enquanto a verdade acontece no conflito mais originário entre clareira (Lichtung) e encobrimento.
  • Nessa configuração, a terra se contrapõe ao mundo; a quadratura (das Geviert) e a oposição específica entre terra e céu ainda não organizam a interpretação da obra.

III. Terra e mundo em «A coisa»

  • A eliminação técnica das distâncias não assegura proximidade; a coisa, considerada em seu modo próprio de ser, reúne relações que a descrição científica de um objeto não alcança.
  • Na dádiva vertida pela jarra, terra e céu, divinos e mortais se pertencem: a coisa reúne a quadratura (das Geviert) e aproxima suas dimensões sem suprimir a distância que as distingue.
  • Habitar significa resguardar essa pertença nas coisas, cuidando da terra, acolhendo o céu, aguardando os acenos dos divinos e assumindo a mortalidade; o jogo de espelhos (Spiegel-Spiel) dos quatro constitui, nessa perspectiva, o mundo.

IV. Terra e mundo versus terra e céu

  • Na reflexão sobre a obra de arte, «terra» nomeia aquilo que se resguarda e do qual um mundo histórico abre possibilidades de sentido; nas reflexões sobre a quadratura (das Geviert), ela nomeia a dimensão que sustenta, floresce e frutifica em relação íntima com o céu.
  • A terra da obra não pode ser reduzida a uma matéria inteiramente determinável: ela aparece sempre em um mundo, mas nenhuma interpretação histórica ou científica esgota aquilo que nela pode vir à presença.
  • O combate entre mundo e terra, o conflito originário entre desvelamento e encobrimento e a tensão entre terra e céu pertencem a planos relacionados, porém distintos; identificá-los apagaria as diferentes funções que a terra assume.
  • Na relação de terra e céu, os quatro não existem separadamente: terra, céu, divinos e mortais recebem seu lugar de uma pertença comum, cujo centro não se confunde com qualquer uma dessas dimensões.
  • A vontade de vontade e a técnica moderna convertem a terra em reserva de recursos e submetem também os seres humanos ao consumo e ao cálculo; com isso, torna-se mais difícil escutar a relação dos quatro e habitar a terra como lugar a ser resguardado.
  • A possibilidade de outro modo de habitar depende de uma disposição para pensar e poetizar que acolha o que se retrai, reconheça os limites da exploração e deixe a terra aparecer para além de sua disponibilidade técnica.

V. Síntese e conclusão

  • A tensão entre terra e mundo permite compreender por que um ente sempre aparece segundo possibilidades de sentido historicamente abertas, sem que uma única configuração do mundo esgote aquilo que pode aparecer.
  • A quadratura (das Geviert) exprime a articulação do mundo por meio de dimensões ontológicas interdependentes; suas figuras poéticas convocam o pensamento a considerar relações que a classificação dos entes e o cálculo científico não encerram.
  • Habitar poeticamente exige resguardar a terra, permanecer aberto ao céu, reconhecer os acenos e a ausência dos divinos e assumir a morte como possibilidade própria; tal habitar permanece ameaçado quando tudo, inclusive o ser humano, é tratado como recurso disponível.
  • Mesmo sob o domínio da técnica, permanece possível um pensamento atento ao que a tradição, a poesia e as coisas ainda deixam aparecer, capaz de sustentar uma relação com o mundo fundada no cuidado e na escuta.
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