User Tools

Site Tools


estudos:kockelmans:1984:4

4 Diferença ontológica

KOCKELMANS, Joseph. On the Truth of Being: Reflections on Heidegger’s Later Philosophy. Bloomington: Indiana University Press, 1984.

Reflexões sobre a diferença ontológica

Artigo I — A diferença ontológica nas primeiras obras de Heidegger (1923–1935)

  • A diferença ontológica distingue o ser (Sein) dos entes (Seiendes) e exige que o ser seja pensado para além da entidade (Seiendheit), seja ela entendida como propriedade comum a todos os entes ou como fundamento supremo; o esquecimento dessa diferença sustenta a ambiguidade da metafísica.
  • Nas primeiras obras, a transcendência do ser-aí (Dasein) torna possível distinguir o ente de seu ser, enquanto a temporalidade oferece o horizonte para investigar os diversos modos de ser; essa investigação conduz à questão mais fundamental do sentido do ser, sem se encerrar na classificação desses modos.
  • A diferença entre um ente e sua entidade depende de uma diferença mais originária entre a entidade e o próprio ser, compreendido em sua relação com a verdade como desvelamento; por isso, a passagem da consideração dos entes à questão do ser constitui uma condição da ontologia.
  • A articulação entre diferença ontológica, mundo e linguagem permanece insuficientemente desenvolvida nesse período, embora a compreensão do ser-aí já indique que a relação com os entes não se reduz à formulação de enunciados.

Artigo II — A diferença ontológica nas obras posteriores (1935–1962)

I. As primeiras tentativas de Heidegger de formular a questão

  • A atenção se desloca gradualmente do sentido do ser para o acontecer da própria diferença: dizer «ser dos entes» já pressupõe sua pertença recíproca, mas ainda não esclarece como essa diferença vigora.
  • Cada época histórica corresponde a um modo de envio do ser (Geschick des Seins) e, com isso, a uma configuração da relação humana com os entes; a diferença sustenta essa relação mesmo quando permanece despercebida.
  • A diferença (Differenz) não resulta de um ato humano de distinção (Unterscheidung): sua vigência reúne e separa ser e entes, e a investigação de seu desdobramento (Austrag) põe em questão o fundamento até então impensado da metafísica.

II. A diferença ontológica em «Logos» e «O dito de Anaximandro»

  • O logos aponta para a reunião pela qual os entes chegam à presença, abrindo a possibilidade de pensar conjuntamente o ser dos entes, os entes em seu ser e a diferença entre ambos; formular essa possibilidade ainda não equivale a ter pensado plenamente a diferença como tal.
  • No dito de Anaximandro, ser e entes se distinguem no mesmo acontecer do desvelamento, mas a diferença permanece impensada; esse esquecimento pertence ao movimento pelo qual o ser se manifesta e simultaneamente se retrai, constituindo uma condição histórica da metafísica.
  • A primazia do ser no desvelamento suscita uma tensão decisiva: embora o ser conceda aos entes sua presença, sua própria manifestação se dá como ser dos entes, exigindo que se esclareça a inseparabilidade entre os dois.

III. O caso do posfácio de «Que é metafísica?»

  • A formulação de 1943 admitia que o ser pudesse chegar à presença sem os entes, ao passo que a revisão de 1949 afirma sua presença inseparável deles; a mudança explicita a reciprocidade implicada na diferença ontológica, sem reduzir o ser a um produto dos entes.
  • Pensar o ser como verdade e desvelamento exige ultrapassar as determinações herdadas da metafísica, mas também reconhecer que o nada e a diferença remetem, cada um a seu modo, à relação entre ser e entes.
  • O ser pensado como Seyn ilumina os entes enquanto se encobre nesse mesmo movimento; a diferença designa essa vigência simultânea de desvelamento e retraimento.

IV. A diferença ontológica em «Identidade e diferença»

  • Pensar a diferença como diferença requer um passo de volta em relação às explicações que a tratam como distinção feita pelo entendimento, pois ser e entes já se mostram em uma relação anterior a qualquer operação conceitual.
  • O ser se manifesta como sobrevento (Überkommnis) que revela, e o ente como advento (Ankunft) que se abriga no desvelamento; o desdobramento (Austrag) mantém ambos distintos e relacionados, abrindo o âmbito entre eles.
  • A diferença também comporta o movimento pelo qual o ser se mostra em uma configuração histórica e se retrai nela; por isso, suas figuras, como physis, ideia, substância e vontade de poder, não esgotam o acontecer do ser.
  • A relação entre identidade e diferença remete, assim, ao acontecimento apropriador (Ereignis), no qual a pertença recíproca recebe uma determinação mais originária do que a simples igualdade ou separação de termos.

V. A linguagem e o chegar à presença da diferença ontológica

  • O logos reúne o que chega à presença e deixa os entes aparecerem; compreendida em sua dimensão originária de dizer, a linguagem participa do acontecer em que ser e entes se tornam pensáveis em sua diferença.
  • O dizer convoca mundo e coisas, distinguindo-os sem os isolar: a cisão (Schied) que os mantém relacionados permite compreender a diferença como um acontecer, e não como a comparação posterior de realidades previamente separadas.
  • A resposta humana ao apelo da linguagem integra esse acontecer, pois a abertura do ser-aí (Dasein) permite acolher o dizer originário; o pensamento e a fala humanos se constituem nessa correspondência.

VI. A diferença ontológica e a relação entre ser e pensamento

  • A relação entre ser e pensamento se esclarece a partir de uma pertença que antecede ambos: a verdade como desvelamento deixa aparecer tanto a dualidade de ser e entes quanto a possibilidade de o pensamento corresponder a ela.
  • O ser humano pertence aos entes e, ao mesmo tempo, distingue-se por sua abertura ao ser; o ser, por sua vez, chega à presença na clareira (Lichtung) dessa abertura, de modo que a pertença recíproca não pode ser compreendida como produção do ser por um sujeito.
  • O acontecimento apropriador (Ereignis) nomeia o âmbito em que ser e ser humano são entregues à sua pertença mútua; a identidade assim compreendida oferece o horizonte para pensar o desdobramento da diferença (Austrag).

VII. Heidegger acabou por eliminar a questão da diferença ontológica?

  • O abandono de certas formulações da transcendência e a tentativa de pensar o ser sem fundá-lo nos entes não eliminam a relação essencial entre ser e entes; visam superar sua interpretação metafísica.
  • A metafísica permanece vinculada à diferença justamente por tomar os entes como tema sem pensar suficientemente a dualidade de ser e entes que torna possível sua própria investigação.
  • A diferença ontológica conserva, portanto, sua importância, embora deixe de ser tratada apenas como estrutura pressuposta pela ontologia: sua vigência deve ser pensada em relação à identidade e ao acontecimento apropriador (Ereignis).
estudos/kockelmans/1984/4.txt · Last modified: by 127.0.0.1