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estudos:kockelmans:1984:3

3 Ser

KOCKELMANS, Joseph. On the Truth of Being: Reflections on Heidegger’s Later Philosophy. Bloomington: Indiana University Press, 1984.

O que é, então, o ser?

Artigo I: A questão do ser nos primeiros escritos

  • A pergunta pelo sentido do ser orienta o pensamento heideggeriano, embora o ser não possa ser isolado da diferença entre ser e ente, da linguagem em que a pergunta se articula ou dos vários sentidos históricos pelos quais essa pergunta se tornou compreensível.
  • Nos primeiros escritos, o ser aparece como horizonte de sentido no qual os entes podem manifestar-se, e o mundo constitui a abertura concreta em direção à qual o ser-aí (Dasein) transcende os entes para compreendê-los.
  • A verdade como desvelamento já pertence a essa investigação: o ser se manifesta como ser dos entes sem se confundir com eles, enquanto a angústia torna patente que aquilo que possibilita seu aparecer não é, por sua vez, um ente intramundano.
  • O sentido do ser não se funda em um padrão eterno ou em um ente supremo, pois toda tentativa de fundamentá-lo já pressupõe alguma compreensão do ser; seu acontecer histórico abre determinadas possibilidades de manifestação ao mesmo tempo que resguarda outras.
  • A passagem à pergunta pelo próprio ser acentua seu caráter de retraimento e de envio histórico: o ser concede aos entes modos diversos de presença sem se deixar identificar com Deus, com a totalidade dos entes ou com a entidade comum a todos eles.

Artigo II: O sentido do ser nos escritos posteriores

I. Aspectos negativos e positivos do ser. Sua unidade

  • O ser pode ser pensado em sua relação com o nada porque não é um ente e, ao distinguir-se dos entes, deixa que estes se manifestem; a negatividade designa seu retraimento no mesmo acontecimento em que concede presença.
  • O mistério pertence à verdade quando o encobrimento dos entes em sua totalidade também se encobre; seu esquecimento na existência cotidiana abre o âmbito da errância (Irre), em que a atenção aos entes afasta o pensamento da abertura que os torna manifestos.
  • Cada envio histórico do ser revela determinados modos de presença enquanto resguarda sua própria proveniência, de modo que o esquecimento da diferença ontológica pertence ao acontecer da metafísica e não se explica apenas por uma falha dos pensadores.
  • A dimensão afirmativa do ser aparece na clareira que deixa os entes ser e, na interpretação do sagrado, na abertura que resguarda sua integridade; o sagrado não se identifica com um deus, pois também o divino só pode aparecer em um âmbito previamente aberto.
  • Positividade e negatividade formam a unidade da verdade do ser: os entes vêm ao desvelamento precisamente em um processo que mantém encoberto aquilo que lhes concede a possibilidade de aparecer.

II. Ser e entes. Ser e ser humano

  • O ser não acontece separado dos entes nem do ser-aí (Dasein): é a abertura em que os entes se tornam presentes e em que o ser humano pode relacionar-se com eles, embora a iniciativa dessa abertura não se deixe atribuir simplesmente ao sujeito humano.
  • A clareira (Lichtung) ilumina os entes e pode também velar o próprio processo de sua manifestação; por isso, o sentido do ser e a verdade do ser remetem ao desvelamento, entendido juntamente com o retraimento que lhe pertence.
  • A metafísica pensa os entes enquanto entes ao determinar suas características universais e ao referi-los ao ente supremo; sua estrutura onto-teológica permanece vinculada à entidade dos entes e deixa impensada a verdade do próprio ser.
  • A expressão «ser dos entes» mantém uma pertença recíproca: o ser deixa os entes aparecerem, e seu vir à presença acontece junto deles, sem que a diferença ontológica possa ser convertida em separação de duas coisas independentes.
  • O aberto não é um espaço físico nem apenas o horizonte estabelecido pelo ser-aí, mas o âmbito que possibilita o próprio espaço, o tempo e o encontro com os entes; pensar responde ao seu apelo mediante escuta e acolhimento, sem poder produzi-lo por representação.

III. Acontecimento apropriador, emergência, envio. A história do ser

  • O acontecimento apropriador (Ereignis) designa o acontecer singular em que ser e ser humano são conduzidos ao que lhes é próprio, tornando possível a emergência da diferença ontológica e a abertura histórica em que os entes se manifestam.
  • O ser vem à presença por envios (Schickungen) que concedem a cada época uma possibilidade determinada de compreensão; em cada concessão, aquilo que envia também se retém, de modo que a manifestação e o retraimento pertencem ao mesmo acontecimento.
  • A história do ser não equivale à sucessão de acontecimentos humanos nem obedece a uma necessidade dialética previsível: suas épocas se distinguem pelos modos como a verdade do ser se doa e se encobre.
  • O esquecimento do ser no pensamento ocidental acompanha seu envio inicial, pelo qual os entes assumiram progressiva precedência sobre a abertura de seu aparecer; na modernidade, essa tendência se intensifica na representação calculadora que assegura os entes como objetos para um sujeito.
  • Cada acontecimento apropriador configura possibilidades históricas de existência, pensamento e relação com o mundo, enquanto o ser-aí é chamado a sustentar e guardar a clareira que não decidiu instaurar por si mesmo.

IV. Linguagem. Linguagem e acontecimento apropriador

  • A linguagem (Sprache) traz os entes pela primeira vez ao aberto de maneira articulada, nomeando-os e permitindo que apareçam como aquilo que são; sua essência não se esgota, portanto, na transmissão de informações entre seres humanos.
  • O dizer originário (Sage) reúne ser e entes no acontecimento da linguagem, ao qual a fala humana responde quando escuta atentamente o que nela se manifesta e deixa os entes virem à palavra.
  • A linguagem pode ser pensada como acontecimento apropriador porque nela o ser solicita a fala dos mortais e os conduz à sua própria essência; o ser conserva, entretanto, a primazia dessa solicitação.
  • Toda nomeação originária guarda algo não dito, pois o ser se retrai nos entes e nas palavras que os tornam manifestos; a riqueza do não dito pertence ao que foi dito sem poder ser inteiramente convertida em enunciados.

Artigo III: Tempo e ser

  • A relação entre tempo e ser exige abandonar a interpretação do ser como presença constante e a compreensão do tempo como simples sequência de instantes, para interrogar o acontecimento que concede tanto o vir à presença quanto a abertura temporal.

I. Ser e tempo

  • O ser não é uma coisa situada no tempo, assim como o tempo não é um ente que transcorre; a ligação entre ambos aparece no vir à presença (Anwesen), cuja possibilidade não se reduz ao presente entendido como instante atual.
  • O ser é concedido historicamente por um envio que deixa os entes aparecerem e retém a si mesmo; as épocas desse envio são modos de doação e retraimento, e não apenas períodos delimitados por datas.
  • O presente, o ter-sido e o porvir concedem-se reciprocamente: aquilo que já não está presente e aquilo que ainda não está presente continuam a concernir o ser humano, de modo que a presença não se limita ao agora.
  • A unidade dessas dimensões temporais resulta da proximidade que as aproxima mantendo-as distintas; essa abertura do espaço-tempo precede o espaço mensurável e o tempo contado como sucessão de instantes.
  • O ser humano permanece nessa concessão temporal sem produzi-la, enquanto o dar do tempo revela e encobre simultaneamente a proveniência da abertura em que ele pode existir.

II. «Isso» concede ser e tempo

  • A expressão «há» (Es gibt) indica um conceder cujo sentido não se esclarece pela suposição de um ente, de uma força ou de um deus que daria ser e tempo; a investigação dirige-se ao próprio acontecimento de seu envio e de sua concessão.
  • O acontecimento apropriador (Ereignis) deixa ser e tempo pertencerem um ao outro e conduz o ser humano ao âmbito em que pode acolher essa pertença, sem constituir um gênero superior do qual ambos seriam espécies.
  • O conceder inclui um retraimento pelo qual o acontecimento preserva o que lhe é próprio; por isso, ele não pode ser colocado diante de um sujeito como objeto nem esgotado em proposições representativas.
  • O acontecimento apropriador não é um ente adicional nem efeito de uma causa anterior: dizer que o acontecimento apropria (Das Ereignis ereignet) aponta para aquilo que permanece resguardado no próprio acontecer da verdade.
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