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Jaspers

Jaspers, Karl (1883-1969)

  • Rejeição explícita de Heidegger à qualquer identificação de seu pensamento com o “existencialismo” ou com a filosofia da existência de Jaspers, conforme carta a Elisabeth Blochmann de 1947.
    • Hannah Arendt reconhece ter inicialmente lido Heidegger através do prisma de Kierkegaard e Jaspers, uma leitura equivocada.
    • O foco de Heidegger é a questão do ser im Ganzen und als solches (em sua totalidade e como tal), não a questão da existência humana.
  • Jean Beaufret destaca que a questão do ser, central em Ser e Tempo, é ignorada por Kierkegaard, Nietzsche e, sobretudo, por Jaspers.
    • Heidegger agradece a Beaufret, em carta de 1945, por não confundir seu pensamento com o de Jaspers, apontando o “malentendu par excellence” do par “Jaspers e Heidegger”.
    • Esse mal-entendido impede o acesso à originalidade da questão heideggeriana pela verdade do ser, frequentemente rotulada de “nihilismo”.
  • Crítica severa de Heidegger a Jaspers: por não levar a sério o saber filosófico em seu fundo mais íntimo, sua filosofia degenera em uma “psicologia moralizante da existência”.
    • Jaspers, ao não vislumbrar a unidade da filosofia na questão do ser, falha em acessar o cerne da tradição filosófica, inclusive de Nietzsche, a quem não reconhece como uma “decisão na história da verdade do ser”.
  • Diálogo inicial e crítica construtiva: Heidegger escreve uma detalhada recensão da Psychologie des Weltanschauungen de Jaspers em 1919/20.
    • Admira a análise das “situações-limite”, mas situa sua base na filosofia da vida de Dilthey e no conceito de existência de Kierkegaard, categorizando-a como “antropologia”.
    • Convida Jaspers a aprofundar os pressupostos de seu método, ainda preso à perspectiva sujeito-objeto, e a ver que a questão da existência está ligada à questão do ser.
    • Para Heidegger, o sentido da existência é o sentido do ser; a existência só é possível com base numa compreensão do ser.
    • A existência é factiva, histórica e uma tarefa (o homem tem que ser), não uma mera presença factual num quadro situacional preestabelecido.
  • Fracasso do diálogo e incompreensão persistente por parte de Jaspers.
    • Jaspers confessa pouco interesse pela crítica heideggeriana em 1919.
    • Prefere a “comunicação” ao diálogo filosófico rigoroso, recusando-se posteriormente a conceitos-chave heideggerianos como “a linguagem como casa do ser” e a “manifestação do ser”.
    • Hannah Arendt precisa defender a seriedade do pensamento de Heidegger perante Jaspers.
  • Mal-entendido político e distanciamento.
    • Após a guerra, Jaspers adota uma postura de “renovação moral” e liberalismo, mudando-se para Basiléia em 1948.
    • Seu parecer desfavorável à comissão de desnazificação pesou na decisão de aposentadoria compulsória de Heidegger em 1946.
    • Heidegger, sem guardar rancor, toma distância, analisando o desastre alemã e mundial em termos da história do ser, muito além da esfera “política” convencional.
    • Em carta a Arendt, Heidegger afirma que o “modo de representação” corrente é incapaz de alcançar a situação real, e que o homem precisa experimentar como o ser se lhe ajunta para se salvar.
  • A surdez a Heidegger é atribuída por ele a um mal-entendido filosófico fundamental: a incapacidade de distinguir o ser do ente.
    • O mal-entendido só é superado mantendo-se a questão fundamental pelo sentido do ser.
    • Heidegger conclui, em 1947, com uma nota de paciência histórica: “Viemos demasiado cedo para o Wesen do ser”.

estudos/jaspers/start.txt · Last modified: by mccastro