User Tools

Site Tools


estudos:herrmann:2019-1

GA65 (2019:1)

HERRMANN, Friedrich-Wilhelm von. Transzendenz und Ereignis: Heideggers “Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis)” ein Kommentar. Würzburg: Königshausen & Neumann, 2019.

Primeiro capítulo

Entendimento preparatório acerca do tema a partir do título do comentário

1. A introdução ao pensamento do acontecimento apropriador (Ereignis) exige a consideração conjunta de sua articulação interna, do caráter de caminho da obra e de seus conceitos fundamentais, tomando como indicação preliminar a duplicidade do título Contribuições à filosofia (Do acontecimento apropriador) (GA65), cuja advertência inicial distingue e relaciona suas duas denominações.

2. O título público “Contribuições à filosofia” apresenta-se deliberadamente como uma designação pálida, comum e pouco elucidativa, capaz de sugerir uma contribuição científica destinada ao progresso da filosofia e, desse modo, de corresponder exteriormente à compreensão pública que mede a legitimidade filosófica pelo modelo das ciências positivas.

  • A noção usual de contribuição não determina a direção própria do pensamento, pois qualquer estudo filosófico pode apresentar-se como contribuição sem explicitar a questão fundamental que o conduz.
  • A submissão da filosofia ao ideal de progresso científico pertence a uma opinião pública na qual somente parece merecer reconhecimento aquilo que comprova sua cientificidade segundo os critérios das ciências positivas.

3. A escolha de um título público deliberadamente inexpressivo protege o pensamento essencial contra uma época histórica em que as palavras fundamentais se encontram desgastadas e a relação autêntica do ser humano com a palavra foi destruída, evitando que o termo acontecimento apropriador (Ereignis) seja imediatamente nivelado e apropriado pela publicidade dominante.

  • O aparente enquadramento entre contribuições científicas ao progresso da filosofia funciona como resguardo do que nesse pensamento há de mais próprio.
  • A ocultação inicial da palavra fundamental não representa deficiência expositiva, mas uma medida de proteção contra sua assimilação prematura pelas interpretações públicas estabelecidas.

4. A designação “Contribuições à filosofia” também corresponde à situação histórica da questão pensada, porque “Do acontecimento apropriador” nomeia a passagem da metafísica para o pensamento histórico do Ser (seynsgeschichtliches Denken), no qual o acontecimento apropriador (Ereignis) se torna a palavra fundamental de uma nova via do pensar.

  • A metafísica não designa apenas uma disciplina filosófica, mas a essência unitária do pensamento ocidental que se estende de Platão e Aristóteles até Hegel e Nietzsche.
  • A pergunta diretriz (Leitfrage) da metafísica interroga o ente enquanto ente e procura determinar aquilo que torna o ente propriamente ente.
  • A formulação aristotélica ti to on — “o que é o ente?” — condensa a orientação que conduz explícita ou implicitamente a tradição metafísica.

5. O pensamento histórico do Ser não rejeita a pergunta metafísica pelo ente em seu ser, mas a assume de maneira mais originária ao passar da pergunta diretriz (Leitfrage) para a pergunta fundamental (Grundfrage) pela verdade do próprio Ser (Seyn), compreendida como desvelamento, clareira e abertura.

  • A metafísica interroga o ente em seu ser, enquanto a pergunta fundamental se dirige ao próprio Ser em sua verdade mais própria.
  • A maior originariedade da nova pergunta não elimina a tradição, mas revela a necessidade de aprofundar a questão do ser além da determinação da entidade do ente.

6. A época de transição da metafísica para o pensamento histórico do Ser distingue o pensamento ainda iniciante, que procura encontrar e desenvolver sua via, daquele pensamento futuro que já terá consumado a passagem da questão metafísica do ente para a verdade do Ser (Seyn), razão pela qual Contribuições à filosofia somente pode assumir inicialmente o caráter de tentativa.

  • A tentativa consiste em pensar como acontecimento apropriador (Ereignis) tanto a verdade do Ser em sua relação com a essência humana quanto a relação essencial correspondente do ser humano com essa verdade.
  • O título “Contribuições à filosofia” convém a esse primeiro ensaio de reformulação originária da questão do ser, enquanto “Do acontecimento apropriador” permanece como sua denominação essencial.
  • O título público protege o pensamento contra a apropriação niveladora, ao passo que sua pertinência temática expressa a condição ainda transitória da primeira tentativa de pensar o acontecimento apropriador.

7. Contribuições à filosofia (Do acontecimento apropriador) não constitui uma obra segundo o estilo tradicional porque sua questão já não é a entidade do ente, mas a verdade ainda impensada do Ser (Seyn), cuja natureza determina um pensamento dotado do caráter essencial de percurso e de caminho.

  • O caráter não tradicional da obra não decorre de modéstia nem de uma suposta incapacidade de equiparação às grandes obras filosóficas, mas da diferença da própria coisa a ser pensada.
  • O pensamento percorre e abre o domínio anteriormente oculto da essenciação (Wesung) do Ser, alcançando-o em seu caráter mais próprio de acontecimento apropriador.
  • O caminho passa pelo ressoar (Anklang), pelo jogo de passagem (Zuspiel), pelo salto (Sprung), pela fundação (Gründung), pelos vindouros (Zu-künftigen) e pelo último deus (Letzter Gott), que formam seis âmbitos interligados da essenciação do acontecimento apropriador.
  • A compreensão do caráter de caminho da obra depende da compreensão prévia do modo como a verdade do Ser se essencia como acontecimento apropriador.

8. A verdade do Ser (Seyn) como acontecimento apropriador não é um objeto previamente existente acerca do qual se possa discorrer segundo o modelo representativo, pois o pensamento que a percorre é apropriado por aquilo mesmo que deve pensar e recebe do acontecimento apropriador sua própria essência.

  • O pensar realiza-se como projeto apropriado que responde ao lance apropriador da verdade do Ser e desenvolve aquilo que lhe é lançado como o que deve ser pensado.
  • O acontecimento apropriador compreende internamente a correlação entre o lance apropriador (Zuwurf), que se destina ao pensamento, e o projeto apropriado (Entwurf), que abre pensativamente o que lhe foi destinado.
  • O projeto pensante pertence à própria essenciação do acontecimento apropriador porque a clareira da verdade do Ser somente se desdobra mediante essa correspondência.
  • A apropriação do pensamento pelo acontecimento não significa submissão a um objeto exterior, mas reconhecimento de que o pensar já pertence àquilo que procura abrir.

9. A pertença do pensamento à verdade do Ser como acontecimento apropriador exige uma transformação essencial do ser humano, que deixa de ser determinado como animal racional (animal rationale) e passa a existir como ser-aí (Da-sein), cujo “ser” mantém projetivamente aberto o “aí” como clareira da verdade do Ser.

  • A reflexão, no sentido tradicional, corresponde à determinação metafísica do ser humano como vivente racional e não alcança a pertença originária do pensar ao acontecimento apropriador.
  • A transformação no ser-aí não modifica apenas uma definição antropológica, mas desloca a essência humana para a abertura na qual a verdade do Ser pode ser acolhida e preservada.

10. A expressão “Do acontecimento apropriador” não significa pensar sobre um objeto denominado acontecimento, mas pensar a verdade do Ser a partir do apropriar-se (Er-eignen) e de seu lance apropriador, de modo que o dizer pensante aconteça como pertença ao Ser e seja ele próprio apropriado por aquilo que pensa.

  • O pensamento apropriado pelo acontecimento pertence, como dizer pensante, à essenciação da verdade do Ser.
  • A pertença não se restringe ao pensamento conceitual, pois alcança igualmente a palavra do Ser e indica que a linguagem, o dizer pensante e a essência da linguagem pertencem à essenciação do próprio Ser.
  • O “do” acontecimento apropriador expressa simultaneamente a proveniência do pensar e sua pertença àquilo a partir do qual pensa.

11. A relação temática entre transcendência e acontecimento apropriador reúne os dois caminhos fundamentais da questão do ser, atribuindo à transcendência a palavra condutora da primeira elaboração, iniciada nas primeiras preleções de Friburgo e sistematizada em Ser e tempo, e ao acontecimento apropriador a palavra condutora da segunda elaboração.

  • Ser e tempo ocupa uma posição comparável, segundo Emmanuel Levinas, ao Fedro de Platão, à Crítica da razão pura de Kant e à Fenomenologia do espírito de Hegel.
  • A transcendência caracteriza a estrutura essencial do ser humano compreendido como ser-aí e existência que compreende o ser.
  • A elaboração inicial da questão da verdade do ser começa em 1919 e alcança sua configuração sistemática na analítica existencial de Ser e tempo.

12. A transcendência constitui o ultrapassamento prévio dos entes em direção à verdade ou abertura do ser, sem o qual o ser-aí não poderia compreender nenhum ente como ente nem manter uma relação com ele, enquanto o horizonte designa o campo de visão no qual essa compreensão antecipadora se realiza.

  • O transcender não é um movimento ocasional acrescentado à existência, mas o traço fundamental do ser-aí que compreende o ser.
  • O ente somente pode ser encontrado em seu ser porque já foi ultrapassado em direção à abertura do ser.
  • Transcendência e horizonte pertencem um ao outro: toda transcendência abre um horizonte, e todo horizonte pressupõe o ultrapassamento dos entes.

13. A via transcendental-horizontal de Ser e tempo mostrou-se correta, porém insuficiente para pensar integralmente a verdade do ser em sua relação com a essência humana, tornando necessária sua transformação imanente na via do acontecimento apropriador, sem ruptura arbitrária nem abandono das aquisições essenciais do primeiro caminho.

  • A passagem ao acontecimento apropriador não corresponde à substituição de uma posição filosófica por outra inteiramente distinta.
  • A insuficiência aparece dentro da própria via transcendental-horizontal e conduz à necessidade de uma direção mais originária.
  • A continuidade entre os dois caminhos permite reconhecer uma unidade abrangente nas diferentes elaborações da única questão do ser.

14. A palavra fundamental “transcendência” nomeia a primeira elaboração transcendental-horizontal da questão do ser, enquanto “acontecimento apropriador” nomeia sua segunda elaboração histórico-ontológica, cuja compreensão depende de um conhecimento seguro do primeiro caminho e do modo como este é transformado internamente.

  • O pensamento do acontecimento apropriador recebe sua primeira configuração amplamente determinante em Contribuições à filosofia (Do acontecimento apropriador).
  • A compreensão adequada da segunda via exige acompanhar as indicações do “Olhar preliminar” (Vorblick) sobre sua relação temática com a primeira formulação da questão do ser.
  • O comentário deve inicialmente desenvolver os três passos principais da via transcendental-horizontal para tornar compreensível sua passagem à via histórico-ontológica.
  • O título “Transcendência e acontecimento apropriador” exprime a unidade diferenciada dos dois caminhos e impede que o segundo seja interpretado sem sua proveniência no primeiro.

15. Contribuições à filosofia (Do acontecimento apropriador) constitui a segunda obra principal de Heidegger, enquanto Ser e tempo permanece a obra fundamental porque a via histórico-ontológica surge da transformação interna da via transcendental-horizontal nela desenvolvida.

  • Contribuições à filosofia inaugura o campo de visão determinante do pensamento do acontecimento apropriador, que conduz a obra heideggeriana desde o início da década de 1930 até seu período tardio.
  • As relações constitutivas da estrutura essencial do acontecimento apropriador foram elaboradas entre 1936 e 1938.
  • As seis articulações da obra formam a primeira configuração integral da junção (Fuge) do pensamento do acontecimento apropriador.
  • Os escritos posteriores permanecem no campo aberto por essa primeira elaboração articulada, mesmo quando desenvolvem separadamente determinadas relações essenciais.

16. O plano fundamental de Contribuições à filosofia já se encontrava estabelecido desde a primavera de 1932 e recebeu entre 1936 e 1938 sua primeira configuração como projeto “Do acontecimento apropriador”, permanecendo sem publicação por ainda não ter alcançado a forma de obra exigida pelo novo estilo do pensamento histórico do Ser.

  • A ausência de publicação não decorre de falta de centralidade nem de abandono do manuscrito, mas da exigência de que sua forma correspondesse ao domínio pensante que procurava abrir.
  • A exposição deveria preservar a amplitude da questão do ser e evitar que o desenvolvimento excessivo de detalhes estreitasse seu campo de visão ou ocultasse o movimento fundamental do perguntar.
  • O novo estilo exigia a retenção na verdade do Ser, o dizer do silenciar (Sagen des Erschweigens) e a preparação para a essencialidade do simples.
  • A publicação foi reservada a uma época futura e ocorreu em 1989, no centenário do nascimento de Heidegger, como volume 65 da Gesamtausgabe.

17. A aparência fragmentária e aforística de Contribuições à filosofia não comprova um estado inacabado nem uma imitação estilística de Nietzsche, pois a contenção deliberada do desenvolvimento particular preserva a amplitude do campo de visão e mantém manifesto o movimento essencial da pergunta pelo acontecimento apropriador.

  • As formulações por vezes abreviadas pertencem à forma intencionalmente escolhida para impedir que a exposição detalhada fragmentasse a unidade da questão.
  • A proximidade cronológica entre a elaboração das Contribuições e as preleções sobre Nietzsche não autoriza atribuir a estrutura do manuscrito à adoção do estilo aforístico nietzschiano.
  • O aspecto exteriormente inconcluso corresponde à intenção de destacar a direção fundamental do perguntar e a articulação total do pensamento histórico do Ser.

18. A interpretação concentra-se nas seções decisivas para a compreensão dos seis âmbitos interligados do acontecimento apropriador — do ressoar ao último deus — e utiliza as passagens fundamentais do “Olhar preliminar” (Vorblick) como orientação para que também as seções não examinadas diretamente possam ser compreendidas a partir da estrutura essencial de cada âmbito.

estudos/herrmann/2019-1.txt · Last modified: by 127.0.0.1