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Ver o invisível

HENRY, Michel. Voir l’invisible. Paris: François Bourin, 1988.

Introdução

  • Interior/Exterior: o invisível e o visível
  • O que quer dizer «abstrato» na expressão «pintura abstrata»
  • A forma
  • A forma pictural pura
  • A forma abstrata: a teoria dos elementos
  • O desvelamento da pictorialidade
  • O Ponto
  • A Linha
  • O Plano Originário
  • A unidade dos elementos
  • Das cores invisíveis
  • Formas e cores
  • Dificuldades relativas à unidade das cores e das formas
  • A composição
  • A Arte monumental
  • Música e pintura
  • A essência da Arte
  • Toda pintura é abstrata
  • A Arte e o cosmos

** Introdução **

1. Kandinsky figura como o inventor da pintura abstrata, aquele que buscou subverter as concepções tradicionais de representação estética e inaugurar a era da modernidade, sendo por isso chamado de “Precursor” ou “Pioneiro” por Tinguely, e sua obra, incompreendida em seus inícios e ainda mal compreendida à época de sua morte em Paris em 1944, permanece um enigma mesmo nos dias atuais.

2. A solidão de um dos maiores criadores de todos os tempos, no momento em que a pintura francesa afirmava sua primazia e se via como o principal centro mundial de descoberta, revela que a pintura abstrata difere inteiramente da sequência histórica que vai de Cézanne ao cubismo, incluindo o impressionismo e os demais “movimentos” que definem a “pintura moderna” aos olhos do público.

  • Picasso, apesar de seu academicismo, permanece um artista figurativo.
  • Mondrian, com suas linhas geométricas puras, Malevitch com o Suprematismo, os Construtivistas com seus planos nus, Arp com suas formas livres e Klee com seus signos mágicos prosseguem seu trabalho dentro da tradição pictórica ocidental, fora do campo aberto pelos pressupostos radicalmente inovadores de Kandinsky.

3. A singularidade de Kandinsky deve-se também a uma circunstância vital: o “Pioneiro” não apenas produziu uma obra cuja magnificência sensível e riqueza inventiva eclipsam a de seus contemporâneos mais notáveis, mas também forneceu uma teoria explícita da pintura abstrata, expondo seus princípios com extrema precisão e clareza.

  • A obra pintada é acompanhada de um conjunto de textos que esclarecem seu trabalho e fazem de Kandinsky um dos principais teóricos da arte, oferecendo a pedra de Rosetta para decifrar os hieróglifos das últimas telas do período parisiense.
  • As teorias estéticas clássicas de Platão e Aristóteles, e mais recentemente as de Kant, Schelling, Hegel, Schopenhauer e mesmo Heidegger, têm em comum o fato de nada esperarem realmente da pintura, o que torna suas análises de pouca utilidade para quem deseja que a beleza amplie sua capacidade de sentir e enriqueça sua existência pessoal.
  • As análises de Kandinsky oferecem um guia infinitamente mais seguro e eficaz ao amador, por tratarem da cor, do ponto, da linha, do plano, da disposição do quadro e do material sobre o qual se pinta com exemplar simplicidade, sendo estes, inequivocamente, tanto os meios quanto os fins da arte.
  • Poucos pintores entre os maiores — como Dürer ou da Vinci — e entre os mais modestos — como Vasari — buscaram esclarecer o que faziam e comunicá-lo aos outros, mas ninguém realizou esse objetivo melhor que Kandinsky, o que justifica um estudo de seus escritos teóricos como meio privilegiado de acesso à essência da pintura e à vida ampliada da experiência estética.

4. Escolher a pintura “mais difícil” como iniciação à pintura em geral apresenta um paradoxo diante de um desenvolvimento histórico que se estende por séculos e mesmo milênios, levantando a questão de se começar pelas obras mais recentes e sofisticadas equivale, em certo sentido, a começar pelo fim.

  • O mundo do niilismo europeu, no qual todos os valores se desfazem e se autodestroem, é interrogado quanto a ser o sítio mais apropriado para revelar a fonte de todos os valores, especialmente os valores estéticos.
  • Após os gestos do Dadaísmo e as tentativas vazias do surrealismo, no turbilhão de estilos, manifestos e escolas lançados ao sabor dos caprichos do mercado e da mídia, coloca-se a questão de como reconhecer o verdadeiro princípio das obras de arte autênticas.

5. Outra objeção se apresenta: a descoberta rigorosa dos princípios da pintura abstrata, resultante do extraordinário trabalho de elaboração de Kandinsky, pode ajudar a penetrar a natureza da pintura em geral, mesmo que a abstração difira radicalmente dos produtos tradicionais da arte ocidental, ou, ao contrário, deve-se afirmar que a pintura abstrata, apesar de seu caráter revolucionário, reconduz à fonte de todas as pinturas e é a única a revelar a possibilidade da pintura e a permitir compreendê-la.

  • O fato de a pintura abstrata surgir tardiamente na história da cultura, e mesmo em seu declínio, no momento de sua divisão e autonegação, não a impede de reconduzir, por um enorme salto para trás, à sua origem — não a origem histórica, perdida no esquecimento, mas o fundamento sempre presente e ativo: a fonte eterna de toda criação.

6. Se a racionalidade dos princípios da pintura abstrata é a racionalidade de toda pintura — visto que é a racionalidade da própria possibilidade da pintura e toda pintura é abstrata —, seu poder de esclarecimento não se limita à obra de Kandinsky, por melhor que a esclareça, mas ilumina todo o desenvolvimento da pintura e todas as obras pintadas — mosaicos, afrescos, gravuras e “pinturas” em sentido estrito — que chegaram até nós, e isso vale não apenas para a pintura, mas para toda forma de arte concebível: música, escultura, arquitetura, poesia e dança.

  • As grandes sínteses entre as diferentes artes, como nas óperas de Wagner, subordinam-se aos princípios da pintura abstrata, e sabe-se que elas foram um dos temas privilegiados das reflexões de Kandinsky.

7. A possibilidade da pintura, à qual a pintura abstrata oferece a chave, não reside num seixo no caminho, que se pode desenhar e pintar mas que nunca pintará nada, pois somente o ser humano é potencial, e talvez necessariamente, um pintor e um artista.

  • A pergunta que se impõe é o que é o ser humano e o que ele deve ser para que uma atividade como a pintura surja entre suas capacidades.
  • Como os seres humanos não se criaram a si mesmos, a capacidade humana de pintar deve-se à natureza do ser humano, tal como esta lhe foi dada, e esta, por sua vez, deve-se à natureza do Ser enquanto tal.

8. O que as maiores mentes buscaram, em última instância, na arte é o conhecimento, um conhecimento verdadeiro ou “metafísico”, capaz de ultrapassar a aparência externa dos fenômenos para conduzir à sua essência íntima.

  • A pintura não realiza essa revelação última dando algo a ver ou representando a essência última de uma coisa, mas fazendo com que nos identifiquemos com ela através do ritual iniciático da arte, na medida em que esse ritual extrai sua própria possibilidade da estrutura do Ser e a ela permanece ligado.
  • Permanece em questão qual é a natureza do Ser implicada pela pintura, à qual a pintura dá acesso, tornando-nos contemporâneos do Absoluto e, em certo sentido, reivindicando um direito sobre ele.
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