Realidade material da ideia
HENRY, Michel. Genealogia da psicanálise. O começo perdido. Tr. Rodrigo Vieira Marques. Curitiba: Editora UFPR, 2009, p. 41-42
O que Descartes, ao retomar em seu vocabulário a conceituação aristotélica e escolástica, denomina realidade material da ideia, é a realidade da própria alma, sua fenomenalidade própria, idêntica ao seu ser. A realidade formal da ideia se confunde com sua realidade material, designando, assim como ela, a realidade fenomenológica da alma, ou “o pensamento”. Ela difere desta última na medida em que a especifica, enquanto pensamento sobre isto ou aquilo, ao passo que a realidade material designa esse pensamento, ou a alma, em sua indeterminação. A realidade formal da ideia é, portanto, uma modalidade determinada da alma; é por isso que ela lhe é ontologicamente homogênea, ou seja, sua substancialidade e sua materialidade fenomenológica são a substancialidade e a materialidade fenomenológica da própria alma. Cf. este trecho da Terceira Meditação: “Sendo toda ideia uma obra do espírito, sua natureza é tal que não requer, por si mesma, nenhuma outra realidade formal além daquela que recebe e toma emprestada do pensamento ou do espírito, do qual é apenas um modo, ou seja, uma maneira ou forma de pensar” (FA, n, p. 439; AT, ix, p. 32). É nesse sentido que o conceito de realidade formal da ideia é utilizado na continuação de nossa exposição.
