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48 Corpo místico
HENRY, Michel. Incarnation: une philosophie de la chair. Paris: Seuil, 2000.
48. A relação com o outro segundo o cristianismo: o corpo Místico de Cristo.
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É essa relação com o outro no sentido de outro Si que se encontra expressa nos textos iniciáticos do cristianismo primitivo de modo nunca antes considerado, atualizando-se constantemente essa relação com o Outro Si absoluto que é Deus nas práticas litúrgicas e sacramentais
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Do ponto de vista fenomenológico, essa relação deve ser compreendida fora do mundo, antes dele, sendo o que advém antes do mundo a relação de interioridade fenomenológica recíproca entre a Vida absoluta e o Primeiro Vivente, experimentando-se cada um num “outro” que jamais lhe é exterior mas interior e consubstancial, citando-se: “Tu me amaste antes da criação do mundo”
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Essa reciprocidade se afirma na estrutura formal do texto joanino, posta constantemente como interioridade recíproca do Pai e do Filho, citando-se: “Como tu, ó Pai, tu estás em mim e eu em ti”; “O Pai está em mim e eu estou no Pai”
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Repete-se essa estrutura interna na relação entre a Vida absoluta e todo homem, intervindo aqui a Encarnação do Verbo, único meio de superar o abismo entre a Vida infinita e uma vida finita votada à morte certa, sendo essa união chamada deificação, tornando-se o homem, ao se experimentar na experiência que a Vida faz de si em seu Verbo, semelhante a Deus
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Segundo a intuição de Irineu, a encarnação aparece como restauração da condição original do homem criado à imagem de Deus, sendo essa criação seu nascimento transcendental, cuja contingência não muda a essência da Vida nele, permanecendo a vida de Deus em nossa vida finita enquanto ela viver
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Essa interioridade fenomenológica recíproca do vivente e da Vida absoluta permite compreender a relação original entre todos os homens, a experiência do outro em sua possibilidade última, sendo o Verbo a condição em que todo Si carnal vem a si e via necessária para se entrar em relação com outrem, revelando a Vida ser, em seu Verbo, o acesso fenomenológico ao outro Si
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É nesse sentido que a Vida é o “ser-com” (Mitsein) como tal, essência original de toda comunidade, jamais podendo saber-se o que é o outro sem saber previamente o que é a Vida que nos dá a nós mesmos, não sendo o “estar com o outro” jamais possível como “projeção” do eu, que antes pressupõe esse ser-com
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Distingue-se esse “ser-com” da Vida absoluta em seu Verbo do Logos grego, da Razão clássica ou do mundo heideggeriano, pressupondo estes a exterioridade pura onde não há Ipseidade nem Si possíveis, referindo-se em nota a teoria heideggeriana da Ipseidade no parágrafo 64 de Sein und Zeit, fundada na Preocupação e nunca percebida como problema
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A autodoação da Vida absoluta em seu Verbo, sendo a vida única de Deus, é nela também que o Si do outro é dado a si mesmo, constituindo o ser-junto de todo Si transcendental carnal vivente na Arquipassibilidade da Arquicarne do Verbo o teor fenomenológico concreto de toda relação entre os homens, permitindo que se entendam antes de se encontrarem, no lugar de seu nascimento comum
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Constitui originalidade radical do cristianismo que essa unidade absoluta entre todos os Sis viventes, longe de dissolver a individualidade de cada um, seja constitutiva dela, sendo cada um gerado como Si irredutivelmente singular, citando-se Mestre Eckhart: “Deus se engendra como eu mesmo”
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Manter cada um, o mais humilde e insignificante, em sua individualidade irredutível é o que pode tirar o homem do nada, motivando essa irredutibilidade a extraordinária atenção de Cristo por cada um, eliminando toda consideração de condição profissional, social ou étnica, citando-se Cirilo: “Nem Paulo… pode ser ou ser considerado Pedro, nem Pedro ser ou ser considerado Paulo”, e João designando Cristo como “Aquele” a imitar (1 João 2,6)
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Pergunta-se se a fenomenologia é capaz de dar conta dessa identidade entre o princípio que unifica a Vida e o que a diversifica em múltiplos viventes, recordando-se a formulação paulina “Nem grego nem judeu, nem senhor nem servo, nem homem nem mulher” (Gálatas 3,28), interrogando-se se certos caracteres, como a diferença sexual, não instaurariam incomunicabilidade essencial entre os Sis transcendentais, cada sensibilidade guardando impressões próprias desconhecidas da outra
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Tais questões reconduzem ingenuamente a uma fenomenologia da carne que abstraísse o processo de sua vinda a si mesma, invertendo-se o problema se o “estar em comum” precede o Si como condição fenomenológica de Arquirrevelação: o que têm em comum a impressão específica da sensibilidade feminina e a da sensibilidade viril é serem dadas a si mesmas na autodoação da Vida absoluta
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O mesmo vale para cada uma das carnes e para cada um dos Sis transcendentais consubstanciais a elas, estando cada Si no Verbo antes de estar consigo mesmo, e nele com o outro antes que este seja dado a si mesmo, estando assim cada Si com o outro antes de toda determinação ulterior, antes de ser homem ou mulher
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Essas são as pressuposições fenomenológicas imediatas da doutrina do corpo místico de Cristo, distinguindo-se nesse corpo, em construção contínua, um elemento que edifica e outro que é edificado
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O elemento que edifica, a “cabeça” desse corpo, é Cristo, sendo os membros todos os santificados e deificados nele, unindo Cristo cada Si transcendental a si mesmo e lhe dando o acrescer-se contínuo que faz dele um devir, processo idêntico ao da própria Vida absoluta
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Retomando a crítica à problemática husserliana da Impressão, mostra-se que o fluxo da consciência não é linear nem indeterminado mas impressional e carnal pela Arquipassibilidade da Vida, fenomenalizando-se nas tonalidades originárias do Sofrer puro e do Fruir puro, orientando-se secretamente esse fluxo para uma agonia até a irrupção de alegria sem limites, como atesta a Parusia dissimulada na Cruz
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Repetindo o Verbo essa operação em cada Si transcendental, o corpo místico de Cristo se acresce indefinidamente dos santificados em sua carne, construindo-se como “pessoa comum da humanidade”, “o Novo Adão”, segundo Cirilo, não por acumulação de elementos separados mas por edificação no Verbo, unidos todos no Si único da Vida absoluta, na interioridade recíproca do Pai e do Filho
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Citando Agostinho, “a cabeça salva e o corpo é salvo”, sendo dado a esse corpo, por ser um com a cabeça, cumprir e concluir o que ainda faltava em Cristo, citando-se Paulo sobre completar em sua carne “o que falta às tribulações de Cristo” (Colossenses 1,24), permanecendo Cristo em seu corpo “inteiro”, sua Igreja, dando a cada membro a si mesmo
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Observa-se que a maioria dos homens vive à maneira dos idólatras, preocupados apenas consigo mesmos e não com o poder que lhes dá a vida, sendo dado aos membros de seu corpo que amam n'Ele a si mesmos e a todos os demais que a Vida eterna lhes seja dada, de modo que nessa Vida tornada sua eles sejam salvos
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