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Marxismo

HENRY, Michel. Du communisme au capitalisme. Théorie d'une catastrophe. Paris: Odile Jacob, 1990.

O marxismo como teoria fascista

  • Os países socialistas oferecem não apenas o espetáculo da penúria mas também o de regimes em que o indivíduo é posto em causa e gravemente ameaçado em sua própria existência, podendo sofrer toda sorte de danos — perder função, ofício ou situação alcançada por mérito — como o advogado tornado boy de hotel ou o professor enviado a cuidar de porcos, ou o dramaturgo talentoso destinado a rolar barris de cerveja
    • o prejuízo pode ir além, atingindo a família, afastando parentes ou virando-os contra o indivíduo, sendo seus filhos excluídos da escola por ser o pai pastor, podendo o próprio indivíduo ser preso, deportado, torturado ou fuzilado
  • O horror, em cada caso, é que o condenado não o é por algo que fez mas pelo que é, sendo ele mesmo enquanto tal o culpado, de modo que a única pena concebível seria a supressão de seu próprio ser, sendo o último passo dessa lógica do terror levar o culpado por ser o que é a reconhecer ele próprio essa culpabilidade essencial, único caminho de salvação tanto para o juiz e o carrasco quanto para o condenado
  • Propõem-se várias explicações para essa violação permanente dos direitos humanos observada em todos os países comunistas: a primeira é o próprio estado de penúria, que suscita reação vívida da vida sob forma de clandestinidade e ilegalidade — o segundo mercado, a troca duvidosa, o roubo, a pilhagem —, vivendo cada um em estado permanente de ilegalidade, culpado no princípio, cujo único direito é ser preso
  • A situação de medo assim criada torna-se meio de governo, o mais poderoso de todos, pois diante de gente insatisfeita inclinada a questionar as instituições, nada reprime melhor a revolta que esse medo generalizado que corrompe tudo, não havendo buraco de fechadura, porteiro ou membro da própria família que não seja potencialmente delator
    • assim se compreendem, de dentro, os regimes ditos policiais, não como duas espécies de indivíduos mas como massa homogênea em que cada um está só com seu medo, vigia e vigiado, carrasco e vítima potenciais, sobrevivente ao preço desse medo e dessa vergonha
  • A segunda explicação é o ressentimento, traço habitual da natureza humana pelo qual a inveja daquilo que o outro possui se transforma em condenação, declarando-se sem valor os bens ou qualidades que não se pode obter, ou contestando-se o modo como foram adquiridos
    • a penúria exacerba o ressentimento, fazendo aparecer como privilégios insuportáveis os resquícios de bem-estar que sobrevivem à abundância desaparecida, tornando-se necessário, numa riqueza fixa e estagnada, partilhá-la segundo estrita lei de igualdade, instaurando-se o tempo do racionamento, das requisições, das denúncias e das prisões, a sociedade policial em pleno florescimento
  • A reivindicação da igualdade travestida de justiça social, quando procede do ressentimento, não se sustenta, pois tal partilha só seria justa se cada um tivesse contribuído igualmente para a criação da riqueza, o que não é o caso, cavando as diferenças de eficácia, talento, coragem e vontade um abismo entre os indivíduos, remetendo-se então à diferença de classe como razão última dessas disparidades de formação e qualificação
  • A terceira explicação é o próprio marxismo, que não se contenta em elevar a “sociedade” acima dos indivíduos, procedendo a análise mais profunda segundo a qual a realidade social não é totalidade homogênea, como pensava Proudhon, mas se compõe de classes sociais em oposição irredutível — operário e capitalista, arrendatário e proprietário —, sendo essas classes que moldam a fisionomia de uma sociedade e orientam a história, não tendo esta sido até hoje senão a história da luta de classes
  • As classes sociais determinam a história e a sociedade porque determinam primeiro os indivíduos, sendo cada homem radicalmente diferente segundo seja rico ou pobre, superior ou inferior, tese crucial da teoria marxista segundo a qual são as classes que estruturam a sociedade e fazem de cada um o que é
  • Deve-se, contudo, levar essa verdade até o fim e para isso inverte-la: a ilusão teórica do marxismo é instaurar uma relação de causalidade entre o indivíduo e a categoria social, supondo duas realidades distintas e desigualdade ontológica entre causa e efeito, reduzindo o marxismo a sociedade às classes que a constituem mas mantendo a mesma estrutura substancial preexistente às partes
  • Marx havia denunciado com extrema vigor essas concepções sociologizantes, a “preexistência da classe” em pensadores como os neo-hegelianos e o próprio Hegel, para quem a Cidade antiga, o Estado moderno ou a classe social preexistiam ontologicamente aos indivíduos, citando-se sua crítica a “santo Max” [Stirner]: “A afirmação… de que tudo o que ele é, cada um o é pelo Estado é no fundo a mesma que faz do burguês um exemplar da burguesia”
  • A questão não é cronológica, sendo evidente que um meio social existe antes do indivíduo nele nascido, mas o que é real, o “meio” ou os indivíduos vivos que o “compõem”, revelando-se que cada “caráter social” — precariedade, trabalho manual, moradia, transporte, lazer — é modalidade concreta da vida subjetiva individual e só existe nela
  • Explica-se essa representação estranha pela qual tais caracteres, extraindo sua realidade da vida subjetiva individual, parecem determiná-la do exterior: é a própria representação a fonte dessa ilusão, pois ao tentar compreender as múltiplas subjetividades entrelaçadas na práxis social, o pensamento as representa isolando traços que se oferecem como conteúdos objetivos, os “caracteres sociais”, tomando-se então essas leis objetivas pela causa das leis subjetivas quando não passam de sua imagem irreal
    • não é porque lavra e semeia que o camponês francês do século XIX pertence à classe camponesa, mas porque pertence a essa classe que pisa na lama no inverno e colhe no verão, exclamando Marx diante dessa gênese invertida: “Mais uma vez, tudo é posto de pernas para o ar”
  • Marx forneceu ele mesmo a teoria dessa ilusão, afirmando que as “condições pessoais” constituem a realidade das condições sociais — “na classe burguesa como em qualquer outra classe as condições pessoais tornaram-se simplesmente as condições comuns e gerais” — explicando o desdobramento pelo qual essas condições se separam da vida e aparecem como condições objetivas: “as relações sociais e pessoais assim dadas deviam, na medida em que eram expressas em pensamentos, tomar a forma de condições ideais e de relações necessárias”
  • Quando essas condições, esquecida sua referência à vida, passam a ser tratadas como realidade objetiva autônoma cujas estruturas determinam a existência dos indivíduos em vez de figurá-la, nasce dessa inversão teórica absurda uma situação perigosa, tornando-se objeto da ciência social apenas essa realidade objetiva, que ganha assim acréscimo de evidência
  • Todo projeto socialista “científico” deve apoiar-se nessa ciência das classes, entendidas como substância da sociedade e da história, tornando-se possível a “análise de situação” ocupada com as relações de força entre classes
  • Essas relações de classe apresentam nos tempos modernos simplificação notável, reduzindo-se à oposição única entre os que possuem os meios de produção e os que só têm sua força nua, explorando os primeiros os segundos através da mais-valia acumulada, revestindo a luta de classes a forma de confronto entre capital (a burguesia) e proletariado
  • Essa luta, apesar do caráter científico da análise, carrega significação ética oculta, encarnando uma classe o Mal e outra o Bem, de modo que reduzir a realidade dos indivíduos à das classes que os definem torna a necessidade de suprimir o capitalismo idêntica à necessidade de suprimir todos os burgueses, pois se o ser de um indivíduo se esgota em sua determinação social, suprimir esta implica suprimir aquele
  • A liquidação de camadas inteiras da população nas revoluções comunistas não é acidente mas consequência da teoria, devendo receber seu verdadeiro nome, genocídio, havendo genocídio onde uma população é aniquilada em seu conjunto por ser má em seu conjunto, encontrando-se caracteres desse gênero, capazes de definir profundamente cada indivíduo, precisamente na classe social tal como a entende o marxismo, o que torna o genocídio inevitável e explica por que essas liquidações massivas foram mais implacáveis sob o marxismo que sob qualquer outro regime, por serem teoricamente legitimadas
  • Os burgueses propriamente ditos, donos dos meios de produção, são relativamente poucos e cada vez menos numerosos, mas os que têm interesse nessa liquidação, iludidos pela ideologia da propriedade e dos direitos humanos, não o compreendem, sendo os pequeno-burgueses, infinitamente numerosos, que partilham os ideais da grande burguesia em troca de vantagens mínimas, opondo-se à grande clarificação exigida pela História e devendo por isso ser igualmente aniquilados como “cães de guarda” do capital
  • A instrução e a cultura, exigidas pelo capitalismo por necessidade de qualificação técnica, revelam-se nos pequeno-burgueses caracteres de classe a serviço do capital, podendo qualquer indivíduo capaz de ler e escrever ser condenado à morte assim que seu saber for reconhecido como sinal indelével de seu ser verdadeiro, sendo poupados apenas os que praticam autocrítica ou conseguem ocultar sua condição social, como a professora cambojana que salvou a vida disfarçando-se de vendedora de flores
  • Esse aspecto mais temível do marxismo, pelo qual se assemelha como um irmão ao próprio fascismo que denunciou ao longo de sua história, exige esclarecimentos suplementares, só se podendo compreender como o marxismo é ele mesmo uma forma de fascismo se o princípio deste for posto a nu
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