estudos:haar:homem:ser-para-a-morte
Ser-para-a-morte
HAAR, Michel. Heidegger et l’essence de l’homme. Grenoble, Jérôme Millon, 1990 / Heidegger e a Essência do Homem. Lisboa: Instituto Piaget, 1997 / Heidegger and the Essence of Man. Translated by Tr William McNeill. State University of New York Press, 1993.
O SER-PARA-A-MORTE E OS LIMITES DA TOTALIZAÇÃO DO PRÓPRIO PODER-SER
-
O primeiro capítulo da Segunda Seção de “Ser e Tempo” é dedicado ao ser-para-a-morte, cujo tema central é que somente através de uma relação própria com a morte o Dasein pode apreender sua temporalidade autêntica, sendo essa relação positiva chamada de “devancement” (antecipação ou adiantamento), que não consiste em pensar na morte ou em buscá-la efetivamente, mas em uma maneira de o Dasein se aproximar de sua possibilidade extrema, última e insuperável.
-
O devancement é o movimento de “ir ao encontro” da morte, preservando-a como pura possibilidade, sem efetuá-la, e essa antecipação já pressupõe a noção do próprio, pois ir ao encontro da “minha” morte é projetar o Dasein como finito, levantando a questão de se o ser-para-a-morte não seria um nome para a vontade de autoposse e auto-apropriação do Dasein.
-
Heidegger se esforça para arrancar a morte de sua dimensão de generalidade (a mortalidade do homem) e de factualidade (o fato biológico), definindo-a como a possibilidade que o Dasein sempre já é, em oposição à interpretação inautêntica do “On” (impessoal) que foge da morte, e afirma ser necessário, para ser autêntico, ou seja, si-mesmo, posicionar a possibilidade da morte como minha e como possível a cada instante.
A análise heideggeriana nega a abstração do poder-morrer para fazer dele o núcleo da temporalidade autêntica, pois o ser-para-a-morte é a mediação indispensável para passar da temporalidade como estrutura unitária das três dimensões do tempo para a temporalidade como abertura de si a si enquanto projeto, na qual o futuro tem primazia e a morte se revela como o sentido do cuidado.-
O ser-para-a-morte é a condição de possibilidade da temporalidade, que se dá como cuidado, unidade das três ekstases, e o futuro, sendo o sentido primário da temporalidade ekstática, tem a ver com o “adiantar-se a si mesmo”, o que significa que o Dasein existe sempre já como “estar-em-vista-de” e que o sentido do cuidado é a morte, compreendida como um “poder-ser” que o Dasein assume como sua possibilidade mais própria.
-
O “devancement” é identificado com a possibilidade extrema do Dasein, e a análise mostra que o ser-para-a-morte é anterior a todo ente, sendo a condição ontológica que torna possível a compreensão do ser em geral, e que o tempo, em sua dimensão de futuro, é o sentido do ser, o que explica a importância da morte na analítica existencial.
Apesar da centralidade do ser-para-a-morte, a análise de Heidegger apresenta limitações significativas, como o fato de ele não considerar as dimensões concretas e factuais da morte, como a degradação física e mental no envelhecimento, a perda de entes queridos e a possibilidade de uma morte precoce que interrompe a vida de forma absurda, o que leva a questionar se o fenômeno da morte não estaria sendo habilmente mascarado e transformado.-
O devancement tem algo do “poder mágico do negativo” hegeliano, pois a antecipação do poder não mais-ser reforça absolutamente o poder-ser, abrindo ao Dasein seu ser a tempo pleno, o que confere ao Vorlaufen um movimento de autofundação que o assimila ao cogito, fazendo dele um ponto de ancoragem, uma primeira certeza inabalável.
-
Heidegger compara o devancement ao cogito, mas trata-se de uma analogia, pois o Vorlaufen não é uma representação, e sim um movimento do Dasein em direção à sua possibilidade “mais própria”, onde o “ser-morredouro” (moribundus) dá ao “sum” o seu sentido, de modo que a certeza da morte é a certeza fundamental do Dasein, mais velha que o próprio “eu sou”.
A posição heideggeriana se aproxima do existencialismo kierkegaardiano ao afirmar que a morte individualiza e que não há morte em geral, e que o Dasein só alcança completamente o ser, no sentido de seu próprio ser, ao morrer, o que leva à conclusão surpreendente de que é somente na morte que se pode dizer de certa forma absolutamente “eu sou”.-
O texto anterior a “Ser e Tempo” parece opor ser e existência, sugerindo que o ser, como tornar-se ente subsistente da existência, seria a queda última da existência, ou que, ao morrer, o Dasein reencontra sua pura possibilidade de ser que está prestes a desaparecer.
-
Heidegger reconhece indiretamente que o “eu sou” no sentido de identidade a si só é possível na morte, e que o Dasein, existindo, nunca pode dizer “eu sou” nesse sentido, o que significa que ele só se torna um “sujeito” na hora de sua morte, compreendendo-se segundo sua possibilidade extrema.
O ser-para-a-morte é apresentado como o equivalente do ser-no-mundo na absoluta singularidade, e a angústia da morte é angústia diante do poder-ser mais próprio, absoluto e insuperável, sendo que o “diante de quê” dessa angústia é o próprio ser-no-mundo, o que estabelece uma equivalência entre a morte e todos os existenciais, como o ser-jogado e a decadência.-
O Dasein morre de fato enquanto existe, mas de início e na maioria das vezes no modo da decadência, e a fuga diante da morte não é outra coisa senão a fuga diante do Dasein próprio, pois a morte é o Dasein próprio, mas também o Dasein impróprio, já que o “On” é um reconhecimento evasivo do ser-para-a-morte.
-
A questão que se impõe é: se a morte está sempre já presente no coração do Dasein como seu ser, por que ainda é necessário que ele vá “ao encontro” dela, e o que o devancement acrescenta a essa possibilidade, se ele não deve acrescentar nada, mas apenas deixá-la em lugar como possibilidade?
Devancement et liberté
-
O devancement é definido como o movimento que intensifica a possibilidade da morte, mantendo-a como pura possibilidade, sem aproximá-la como presença, e exclui tanto o pensamento da morte, que a enfraquece por uma vontade calculadora de dispor dela, quanto a espera, que antecipa a realização efetiva e arrasta o possível para o efetivo.
-
Devancer a morte significa compreendê-la melhor, ou seja, não fixar um sentido, mas compreender-se no poder-ser, e nesse devancement a possibilidade se torna “sempre maior”, revelando-se como uma possibilidade que não conhece absolutamente nenhuma medida, como a possibilidade da impossibilidade da existência.
-
Essa possibilidade, por ser extrema e situada além de qualquer outra, não oferece nenhum apoio para assentar um projeto e nenhuma base para imaginar uma realização possível, sendo irrepresentável e não alimentando nenhuma imaginação do futuro, mas, inversamente, ela se torna a possibilitação do poder-morrer.
O devancement, ao ser apropriado pelo Dasein, possibilita pela primeira vez essa possibilidade e a libera como tal, libertando o Dasein tanto das possibilidades factícias quanto das possibilidades dos outros e de sua própria rigidez em escolhas anteriores, o que implica um “renunciamento a si” (Selbstaufgabe) paradoxal, pois a liberdade mais alta envolve o sacrifício de si.-
Pelo devancement, o Dasein se torna livre para suas tarefas, assumindo o risco da morte, não estando mais desesperadamente apegado a um eu ou a um sum que precederia o moribundus, e pode perceber livremente as possibilidades de existência dos outros, rejeitando o perigo de desconhecê-las ou de interpretá-las equivocadamente.
-
O devancement resulta em uma redução do poder-ser do Dasein à sua possibilidade mais simples e elementar, o que libera o Dasein para a morte e para a liberdade, e a escolha do poder-ser mais próprio se torna possível pela compreensão do ser-para-a-morte, que é o fundamento da autenticidade.
O desenvolvimento da analítica da morte se depara com a questão de como uma possibilidade tão alta, pura e intensificada pode conferir às possibilidades cotidianas seu caráter de liberdade, sendo necessária uma mediação entre essa possibilidade única e insubstituível da morte e a cotidianidade presa a suas tarefas, mediação essa que é realizada pela angústia.-
A angústia revela concretamente ao Dasein seu poder-morrer através do recuo e da irrealização do mundo como o conjunto dos complexos finalizados, e é somente por ela que o ser-para-a-morte pode aparecer como uma possibilidade concreta, pois sem ela ele permanece uma simples forma.
-
Agir “autenticamente” no cotidiano não significa agir sob o efeito de uma angústia constante, que é rara e paralisante, mas sim agir “sobre o fundo” dessa disposição, guardando-a na memória, o que implica referir-se à possibilidade, experimentada em um momento, da impossibilidade de fazer o que se faz ordinariamente, apreendendo a precariedade e o caráter provisório do que se faz.
-
O “eu devo” expressa uma necessidade pré-moral, a “miennetade”, que está longe da ideia kantiana de uma ação moral por ser universalizável e desindividualizada, sendo exatamente o inverso, mas a questão que permanece é se é preciso chamar de “morte” essa dimensão da “miennetade”.
Critique de l'être-pour-la-mort
-
A fenomenologia heideggeriana da morte é criticada por ignorar o duplo caráter do fenômeno integral da morte, que possui um lado “deste-mundo” e um lado “do outro-mundo” que nos escapa, e ao amputar a morte do aspecto desvirado e integrá-la inteiramente no Dasein, transformando-a em uma faculdade transcendental, em uma possessão e um poder, em uma certeza e um fundamento, Heidegger estaria truncando o fenômeno.
-
Ao separar a morte existencial do fenômeno da vida, relegado à simples facticidade, e ao insistir no poder-morrer como possibilidade ontológica “insigne, a mais própria, irrelativa, insuperável, certa”, Heidegger opera um esquecimento da vida, pois se o Dasein não fosse um ser vivente, ele não seria um ser, e seu poder-morrer não seria um poder-ser originário, a menos que se considere que o Dasein se dá a si mesmo seu ser.
-
O ser-para-a-morte se situa “antes de toda ontologia da vida” porque a vida, como a natureza, é um ente no mundo que só pode ser compreendido em seu ser como um ser-no-mundo menor, a partir de uma privação redutora em relação à ontologia do Dasein, o que revela um recuo de Heidegger diante da vida, pois nenhum comportamento do Dasein pode se fundar na vida.
A “impulsão” (Drang) e o “pendor” (Hang), enquanto implicam a unidade temporal do ser-em-vista-de-si, do ser-já-em e do ser-junto-a, são fundados no cuidado e no ser-jogado, e a impulsão inarrancável a se deixar viver, a se deixar levar pelo mundo, pertence a um cuidado não-livre, sendo impossível aniquilar a impulsão “a viver”, que é alienação e tentação para a existência de decair abaixo de si mesma.-
O tema kantiano da condição de possibilidade tem sempre prioridade sobre a vida, e a espontaneidade vital não existe, pois supõe uma possibilidade anterior, e a pergunta que se impõe é como a possibilidade poderia ser o que dá poder, e se o Dasein tem o poder de se tornar possível a si mesmo, uma ideia tão inacreditável e surpreendente quanto a da causa sui.
-
A questão sobre a origem da facticidade, da Geworfenheit, deve permanecer indeterminada para Heidegger, mas seria capital, para elucidar o fenômeno da morte, saber qual potência “lança” o Dasein na existência, e Heidegger concede que o conceito de facticidade supõe que o Dasein se compreenda “como ligado em seu 'destino' ao ser do ente que vem ao seu encontro em seu próprio mundo”.
Apesar de Heidegger admitir que o Dasein é “lançado” nessa possibilidade, ele não reconhece que ela depende da vida, e a questão permanece sobre por que o Dasein não seria lançado pela natureza ou pela vida no ser, e por que o ser-lançado deve relevar apenas do ser, o que indica que todo o esforço da analítica existencial visa a nos extrair do emaranhamento com o ente natural.-
O fato de que, diferentemente do animal, possamos e devamos “assumir” a morte como tal, como possibilidade, não basta para concluir que podemos, por isso, possibilizar a possibilidade da própria morte, pois isso seria querer saltar sobre a própria sombra, e é exatamente isso que Heidegger faz ao falar do devancement como “possibilitação dessa possibilidade”.
-
A ideia de “tornar-se certo da totalidade de seu poder-ser” e a “certeza” de uma totalidade possível que nos precede no futuro não lhe tiram, se ela ainda está por-vir, seu coeficiente de irrealidade, o que torna o próprio devancement uma noção ambígua.
O devancement não implica nenhuma tensão entre um presente e um futuro e, portanto, não abre nenhum futuro, pois, como esse ímpeto para devancer a morte não pode ser acompanhado de nenhum “preenchimento” concreto, esse “ser-para-a-morte existencialmente 'possível' permanece, como diz o próprio Heidegger, uma sugestão fantástica do ponto de vista existencial, tratando-se de um movimento no lugar eminentemente formal.-
O devancement não pode significar se transportar por antecipação, na imaginação, para o momento futuro em que a possibilidade está prestes a se realizar, ou seja, no momento da morte, pois no instante que precede a morte factual, a possibilidade de morrer ainda seria uma possibilidade, e se a morte advém, sua possibilidade desaparece.
-
O ser-para-a-morte e o devancement são, em última análise, as formas da auto-apropriação do Dasein, formas para sempre desprovidas de conteúdo, pois ir ao encontro de sua possibilidade essencial é simplesmente ir ao encontro de si mesmo, de sua própria verdade, e o devancement poderia ser chamado de “ser-resoluto”, que será o existencial que pode ser igualmente existencial sob a forma de uma decisão, enquanto o devancement era o puro existencial sem concrição possível.
estudos/haar/homem/ser-para-a-morte.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
