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Filosofia Francesa

HAAR, Michel. La philosophie française entre phénoménologie et métaphysique. Paris: PUF, 1999

  • A fenomenologia francesa contemporânea, embora aceite formalmente a descrição dos fenômenos tal como se mostram, diverge profundamente quanto ao lugar da verdade fenomenológica, situando-a na pura interioridade da autoafeição para Michel Henry ou na pura exterioridade do “absolutamente Outro” para Lévinas, sem que haja um consenso sobre o conceito de metafísica, que é mantido como origem, mesmo que sub-repticiamente, como em Derrida, que descreve a escrita como o meio de gestação das categorias metafísicas.
  • A tarefa de uma destruição da metafísica não é geralmente levada em conta, e Sartre e Merleau-Ponty são indiferentes a ela, com Merleau-Ponty intitulando um artigo de “o metafísico no homem” e Sartre anunciando uma futura “metafísica da natureza”, sem questionar se a autodeterminação do para-si como absoluto não seria metafísica.
  • A atitude de Lévinas é surpreendente, pois ele retoma o termo metafísica em um sentido não crítico e laudativo, definindo o “Desejo metafísico” como abertura e acesso ao absoluto que é o Outro, entendendo a metafísica como a relação de transcendência pela qual nos tornamos capazes de acolher o Outro, como além do ser, e que precede a ontologia, sendo a relação metafísica arrancada da relação teórica para ser confiada à relação ética.
    • A transcendência aqui é passiva, pois Outrem me revela meu ser ultrapassado por ele, e sou exposto a uma transcendência infinita que nenhum discurso ou consciência pode captar, permanecendo Outrem absoluto e separado, impondo-se como uma exigência mais originária do que tudo o que se passa em mim.
    • Se Outrem me é dado como “o Outro no Mesmo”, em uma proximidade anterior à presença de mim a mim mesmo, o sentido do desejo metafísico se torna obscuro, pois se Outrem é mais íntimo de mim do que eu, o desejo se torna impossível por essa mesma proximidade, não havendo desejo sem alteridade absoluta ou relativa, sem exterioridade verdadeira.
    • Se a subjetividade e a interioridade se definem como “o Outro no mesmo”, não há démarche metafísica externa a realizar, pois a transcendência está onde estamos, e a ambiguidade do Outro como imanente e como transcendente torna a relação metafísica inevitável, de modo que a própria interioridade é o espaço da transcendência.
    • Lévinas converge com Michel Henry em uma fenomenologia do absoluto, pois ambos afirmam que o absoluto se dá, se encontra e se fenomenaliza, seja pela imanência da identidade a si em Henry, seja pela transcendência metafísica de Outrem em Lévinas, postulando um absoluto desde o início, em desacordo com a ideia de que o fenômeno só se manifesta em um horizonte finito e por “esquisses”.
    • No entanto, é possível concordar com análises particulares de Lévinas, como a da morada, sem aceitar a ideia de que a habitação é o acesso metafísico a Outrem, assim como se pode subscrever a crítica de Henry ao conhecimento racional sem conceder que a autoafeição constitui a subjetividade em um absoluto.
  • Ao contrário de seus predecessores, Derrida não recorre ao absoluto e usa o termo metafísica apenas em sentido pejorativo, mas não oferece uma definição da essência da metafísica, identificando-a ora com a “presença” absoluta e sem resto, ora com um sistema de oposições binárias que dependem da oposição entre origem e derivado, sem uma teoria do encobrimento produzido pela metafísica, como o esquecimento do ser em Heidegger.
    • Derrida suspeita que a fenomenologia pertença à “metafísica da presença” por privilegiar a presença a si da consciência e a proximidade como identidade a si, mas a análise heideggeriana, embora evocada como “incontornável”, permanece alusiva e vaga, e a noção de “presença” como determinação onto-teológica do ser é uma simplificação, pois Heidegger não entende que toda presença seja metafísica, mas insiste na finitude da presença, em seu caráter de permanência transitória entre uma chegada e uma partida.
    • Para Heidegger, a boa presença é aquela aberta à sua própria desaparição, que se deixa pertencer ao não-presente, e o termo presença só ganha sentido em relação à ausência, de modo que o metafísico não está ligado à presença como tal, mas ao seu caráter de permanência, ao desprezo por toda finitude, ou seja, ao esquecimento da temporalidade.
    • O gesto constante de Derrida de remontar das oposições metafísicas à sua “origem”, a différance, pode ser questionado como metafísico, pois a différance é definida como o movimento de produção das diferenças, a “raiz comum” de todas as oposições, uma esfera originária independente que reconhece a différance como a anterioridade absoluta que precede o sistema das diferenças.
    • Derrida admite o caráter originário da différance, desde que dissociado de um fundamento, definindo-a como a “origem” não plena, não simples, a origem estruturada e diferente das diferenças, ou o movimento de jogo que produz as diferenças, colocando o múltiplo como originário, de modo nietzschiano, de modo que as oposições produzem as identidades substanciais, e não o contrário.
    • Ao resumir e adotar a posição de Nietzsche de que não há força em geral sem a diferença entre as forças, Derrida concorda com a definição nietzschiana de metafísica como primado do inteligível, do uno, do significado, e o único superação da metafísica é seu renversement, pela posição do primado do sensível, do múltiplo, do significante, sem que nada seja anterior ao sistema das diferenças, e a différance, sendo talvez mais velha que o ser, sugere que o pensamento do ser ainda dependeria de uma sujeição platônica ao uno e ao ser como unidade transcendente.
    • O renversement da metafísica operado por Derrida, no entanto, permanece prisioneiro das oposições invertidas, pois ao situar o original em um dos opostos, aquele que a metafísica considera derivado, como a escrita, a oposição entre original e derivado não desaparece, e a crítica ao platonismo, que busca restabelecer a verdade perdida do corpo e da linguagem como unidade originária do significante, revela uma certa ingenuidade metafísica ao sonhar com uma memória sem signo, uma pura e infinita presença a si sem mediação.
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