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Derrida
HAAR, Michel. La philosophie française entre phénoménologie et métaphysique. Paris: PUF, 1999
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O trabalho de Derrida reabriu as questões heideggerianas, dando-lhes um segundo fôlego, e mostrou que essa reabertura significava uma “repetição” da língua com enxertos semânticos e sintáticos, mas sua leitura de Nietzsche, diferentemente da de Heidegger, não o inscreve simplesmente no esquema do “platonismo invertido”, pois Derrida vê em Nietzsche uma escrita que excède a metafísica, e sua interpretação é “afirmativa” e descontrutora, contrastando com a desconfiança em relação a Heidegger, a quem acusa de perpetuar a “metafísica da presença”.
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Derrida, em seus primeiros escritos, radicaliza os conceitos de interpretação, perspectiva, avaliação e diferença, e considera que Nietzsche, ao liberar o significante de sua dependência do logos e do conceito de verdade, teria contribuído para uma “operação originária” da escrita, mas ele expressa essa posição com o uso frequente do “talvez”, indicando uma estranha retenção, como se houvesse uma hesitação antes de afirmar que a diferença textual de Nietzsche resiste à leitura heideggeriana e que o “retorno eterno” não pode ser pensado a partir do ser.
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Derrida utiliza a “escrita” de Nietzsche como uma garantia factual, afirmando que Nietzsche escreveu o que escreveu, e que sua escrita, que não respeita a oposição entre escrita e verdade, permite pensar a “essência” não como presença, mas como “coup de don”, e ele inscreve a questão do ser na “questão mais poderosa da propriação”, que é também uma “operação sexual”, um jogo de dar e tomar que precede a filosofia.
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A leitura derridiana de Nietzsche tem como base a ideia de que o texto nietzschiano, por seu estilo e sua escrita, é imune à acusação de metafísica, e que sua “escrita” é um jogo que desloca e inverte as oposições metafísicas, mas essa leitura, ao mesmo tempo que se apropria de Nietzsche, também o submete a uma “escuta da escrita” que prioriza o jogo do significante em detrimento de outros aspectos de sua filosofia, como a música e a Stimmung.
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Para Nietzsche, o ser é uma “ilusão de ótica”, e a linguagem é uma “máquina poética” que lida com metáforas, não com verdades, e Derrida enfatiza essa “dissimulação” da linguagem, mas Nietzsche, diferentemente de Derrida, pensa a linguagem como uma “máquina de sonhos” que, apesar de sua artificialidade, é analógica e pode “transpor” sensações e afetos, tendo, portanto, uma referência a uma “origem” afetiva e musical.
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Nietzsche concebe a linguagem como um “órgão de manifestação” que, embora impotente para traduzir plenamente o “fundo mais íntimo da música”, tem uma relação de analogia e simbolização com ele, e cada língua possui uma musicalidade específica, um ritmo e um “metabolismo” próprio, o que sugere um “cratilismo” relativo, na medida em que o som linguístico pode ser mais ou menos adequado à expressão.
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A escrita, para Nietzsche, é uma “imitação” da fala, uma “réplica” que é mais pálida, e que, portanto, precisa de uma “terapêutica” para restaurar sua intensidade, e essa terapêutica é uma “voluntariedade” calculada, uma “ruína com a língua” que, através do estilo, do fragmento e do aforismo, compensa a perda de energia da linguagem conceitual, e essa concepção da escrita como “imitação da força” é profundamente metafísica, pois a escrita é uma “cópia” (Abbild) da força.
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Derrida se apropria do aforismo como “a forma do escrito”, mas não assume os motivos nietzschianos, especialmente a “Stimmung” e o “estado estético” como fonte da escrita, e não acompanha Nietzsche em sua “misologia” final, que busca no canto e no ditirambo uma intensidade superior que transcende o aforismo, e Derrida, ao privilegiar a “jovem” e a “dança”, deixa de lado a “intensidade” da Stimmung que, para Nietzsche, é o próprio da arte.
A desconstrução de Derrida é apresentada como um método que não é um método, um “movimento” que trabalha os “limites” e as “margens” da filosofia, e sua estratégia é a de “renverser” e “déplacer” as oposições metafísicas, sem criar novas oposições, mas através de um “trabalho textual” que “luz” a orelha filosófica, introduzindo o “loxos” (oblíquo, equívoco) no logos, para deslocar e neutralizar o funcionamento das oposições, sem, no entanto, abolir a hierarquia que as constitui.-
A desconstrução, em vez de se opor frontalmente às oposições metafísicas, opera por um “duplo gesto”, um “renversement” que mostra a subordinação de um termo a outro, e um “déplacement” que generaliza o sistema, e essa operação é exemplificada na leitura do “pharmakon” de Platão, onde Derrida mostra que a escrita, como “remédio-veneno”, não é um termo derivado, mas o “meio antérieur” onde as oposições se produzem, e ele apresenta a escrita como uma “matriz” ou “reserva” que precede a distinção entre original e derivado.
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Derrida afirma que não há “conceito metafísico” ou “nome metafísico” em si, mas que o metafísico é um “movimento orientado da cadeia”, e que a desconstrução opera através de um “outro encadeamento” que não se opõe ao conceito, mas o trabalha lateralmente, e ele recusa a ideia de que se possa opor um “conceito” à metafísica, mas sua própria operação parece ter como alvo os “átomos da língua”, que são “consumidos” e “mutilarados” num “carnaval da língua” que destrói as palavras e seus “bastiões” de sentido.
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O propósito da desconstrução é “desacralizar” a palavra, abalar seu privilégio, e sua operação é uma “cerimônia” que é ao mesmo tempo “jovial, irreligiosa e cruel”, e Derrida, em sua leitura de Platão, apresenta a “chôra” não como um lugar físico, mas como uma “matriz” pré-originária que “precede” as oposições, e essa matriz é a própria “língua”, que, como “recipiente” e “reserva”, é considerada a “origem” não-originária das diferenças.
O conceito de “jogo” em Derrida é central e equivalente à escrita, à différance, e à ausência de um “significado transcendental”, e o jogo é apresentado como a “possibilidade da conceitualidade” em geral, um “cálculo sem fim” da necessidade e do acaso que não tem fundo nem origem, e é o que “porta e borda” o sentido do ser, sendo o próprio “mundo” que joga, e essa ideia é assumida de Nietzsche, para quem o mundo é um “jogo de Zeus” ou um “jogo do fogo consigo mesmo”.-
O “jogo do mundo” em Nietzsche, no entanto, é o exercício de uma “surabundância de forças plásticas”, um “excesso” de força que não é formal, mas “físico”, e Derrida, ao se apropriar desse tema, o transforma em um jogo puramente textual e formal, um jogo de “substituições” e “permutações” de significantes, que é impulsionado pela “ausência” de um significado que o detenha, e não por uma “physis” ou “terra” que o sustente.
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A “logique du supplément” derridiana é um processo de substituições infinitas que tenta compensar a “falta” de uma “presença plena” e de uma “origem”, e essa ausência é o verdadeiro “motor” do jogo, que não tem “sentido” nem “ser”, mas é apenas o “movimento” dos significantes, e o texto derridiano é um “campo de batalha” onde os signos se desgastam e se reproduzem, sem referência a uma “terra” ou a uma “força” que os sustente, o que reduz o “mundo” a um “sistema formal” de relações.
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Ao recusar toda “referência” a uma “physis” ou a uma “terra”, Derrida abandona o solo que, para Nietzsche, é o próprio da força, e o “jogo” se torna um “apolinismo puro”, uma “dança” sobre o vazio, que é impulsionado por uma “inapetência” e uma “impaciência” pela verdade, e que culmina em uma “apocalipse sem verdade”, onde o “super-homem” queima seu texto e dança, o que sugere uma “transgressão” que “queima” o texto, mas que, ao recusar a “terra”, não se sabe bem em que solo ela se apoia.
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O “jogo” derridiano, ao ser dissociado de toda “Stimmung” e de toda “força”, se torna uma “máquina formal” que não pode gerar a “jovem” e a “dança” nietzschianas, e ele fica preso na “impaciência” de uma “verdade” que recusa, e sua “dança”, por mais “jovial” que se queira, não tem o “fundo” da “surabundância” dionisíaca, mas apenas a “falta” de uma “origem”, que ele não cessa de declarar, e essa diferença fundamental entre o “jogo da força” de Nietzsche e o “jogo do significante” de Derrida permanece como a marca de seu afastamento.
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