estudos:guest:wesen
Wesen – Aître – Átrio
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Etimologia e evolução semântica do termo francês aître.
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Palavra antiga que realiza a crase e coalescência semântica de aitre (latim atrium) e astre (de onde âtre, do latim astracum).
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Aitre (atrium): designa metonimicamente a sala principal da casa romana e, por extensão, toda a moradia.
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Âtre (foco, lareira): designa o fogo, o lar, e por extensão a família ou a casa enquanto unidade doméstica.
Atração semântica e gráfica: aitre passa a escrever-se aistre e depois aître, incorporando a noção de lar ao espaço habitado.Por metonímia, aître expande-se para designar a morada, a casa, toda a maisonnée, o lugar próprio do séjour, da residência e da habitação humana.-
Contexto da proposta de tradução: a publicação de Beiträge zur Philosophie (1989) e a centralidade de Wesen.
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Nas Contribuições à Filosofia [GA65], as expressões das Wesen des Seyns e sobretudo die Wesung des Seyns adquirem uma pregnância singular.
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Surgiu como eventualmente frutífero, para interpretação e tradução, recorrer aos recursos semânticos deste velho termo francês para captar algo do uso heideggeriano de Wesen.
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Foram então propostas, como pistas para uma compreensão topológica do pensamento de Heidegger, as expressões l'aître de l'Estre e l'aîtrée de l'Estre.
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Insuficiência da tradução tradicional de Wesen por essência.
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A tradução consagrada por essência não dá conta do uso consistente e fundamentado que Heidegger faz do termo ao longo de sua obra.
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O próprio Heidegger alerta explicitamente contra essa leitura metafísica tradicional, por exemplo, nas Conferências de Bremen.
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Ali afirma que Wesen não significa nem fundamento de possibilidade, nem essentia, nem entidade como gênero supremo, nem o to ti en einai de Aristóteles, nem a Essenz no sentido da Lógica de Hegel.
Exemplo claro no texto A Questão da Técnica, onde explica a origem verbal de Wesen.-
Sentido heideggeriano de Wesen: aspecto verbal, duração e habitação.
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Heidegger confere e restitui ao infinitivo substantivado das Wesen o aspecto verbal e temporal do antigo verbo alemão wesen (do antigo alto-alemão wesan, raiz indo-europeia *wes-, sânscrito vásati).
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O acento recai sobre a significação verbal de wesen (ser, estre), com suas determinações temporais e aspectuais, que destacam o aspecto da duração.
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A etimologia aponta para séjourner, demeurer, résider, habiter – être (en un lieu).
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Estreito parentesco, filologicamente atestado, com o verbo währen (durar, permanecer, ficar).
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Das Wesen, em Heidegger, não tem mais o sentido filosófico tradicional de ser atemporal, natureza imutável, quididade ou essentia (oposta à existentia).
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Explicitações contextuais de Heidegger sobre o sentido de Wesen.
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O pensador explicitou frequentemente sua intenção, em contextos diversos.
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Exemplo paradigmático: a questão do que se costuma chamar essência da técnica.
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Heidegger pensa das Wesen der Technik num sentido totalmente outro: como o aître da técnica.
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Ou seja, como o domínio de desdobramento que a técnica moderna abre para aí residir e estar literalmente como em casa, configurando assim o modo de habitação do mundo moderno.
Referência a expressões alemãs consagradas como das Hauswesen, das Staatswesen, das Sprachwesen, das Menschenwesen, die Weserei (prefeitura, casa comunal).-
Nestas, Wesen designa tudo o que concerne a algo, sua esfera de ação e de presença, não seu gênero ou essência abstrata.
Heidegger salienta que, em das Wesen der Technik, Wesen não significa ao sentido do gênero e da essentia.Acentua o aspecto verbal e a identidade com währen (durar), mas num sentido não mais metafísico, a partir da dispensação da verdade do Ser e das modalidades de presença do Ser como Ereignis.-
Distinção entre a compreensão metafísica da duração e a compreensão heideggeriana.
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A intuição da dimensão temporal do wesen já estava presente em Platão e Aristóteles, mas foi configurada metafisicamente.
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Na metafísica, a duração do Ser foi entendida como eternidade e intemporalidade próprias da essência e da ideia.
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Heidegger, desde Ser e Tempo, pensa a temporalidade do Ser e, mais tarde, a finitude do Estre e do próprio Ereignis.
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Portanto, o Wesen da técnica não é sua essência metafísica, conceitual, ideal e intemporal, da qual a técnica planetária seria o fenômeno (não é seu eidos).
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Designa antes sua duração e seu séjour, que se desdobra como um reino, à mercê e risco de uma época do Ser, como uma modalidade historial da dispensação da verdade do Ser.
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Esta duração do Wesen refere-se, portanto, à temporalidade (entendida de modo historial) da história do Estre como Événement.
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Fundamentação etimológica em Introdução à Metafísica (1935).
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No capítulo sobre Gramática e etimologia da palavra 'ser' [sein], Heidegger reúne as três raízes indo-europeias do verbo sein.
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Raiz es-: ser como viver.
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Raiz bheu- bhû-: movimento de eclosão e crescimento (physis).
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Raiz wes-: presente em wesen, Wesen, e nas formas war, was, west, gewesen, wesend (em anwesend e abwesend).
A terceira raiz expressa o ato de demorar-se em um séjour.Conclusão implícita: o sentido originário de Wesen não era o de essência, mas o de habitação e duração, sob o tríplice aspecto da presença do presente, da vinda à presença e da ausência como modalidade do retiro da presença.-
Portada interpretativa da proposta de tradução por aître.
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A tentativa de traduzir das Wesen por aître pode ter maior alcance interpretativo do que se supõe.
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Questão: deve-se continuar a falar da essência da técnica, da essência da linguagem, da essência do Dasein e da essência do Ser, ou antes do aître da técnica, do aître da língua, do aître do ser-o-aí e do aître do Estre?
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Os recursos semânticos e aspectuais do antigo termo aître – em consonância com os de Wesen – abrem perspectivas que poderiam tornar inteligível, a partir dos recursos vivos e inexplorados do francês, um dos traços de fundo mais decisivos do pensamento do Ser como topologia do Ser.
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Isto é, do pensamento do Ereignis – na medida em que este dá historicamente lugar à aîtrée do Estre como Événement.
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