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estudos:grondin:fenomenologia-do-acontecimento-de-compreensao-2003

FENOMENOLOGIA DO ACONTECIMENTO DE COMPREENSÃO (2003)

GRONDIN, Jean. Le tournant herméneutique de la phénoménologie. Paris: PUF, 2003.

  • As fontes e as intenções da hermenêutica de Gadamer distinguem-se das de Heidegger, pois, diferentemente deste, Gadamer retoma explicitamente a interrogação de Dilthey acerca da pretensão de verdade das ciências humanas, considerada derivada na Introdução a SZ, o que levou Emilio Betti a supor que se trataria de propor uma metodologia para alcançar a verdade e Leo Strauss a entender que seu interlocutor principal não seria Nietzsche, mas Dilthey.
    • Retomada da questão de Dilthey sobre a verdade nas ciências humanas.
    • Distanciamento em relação à posição de Heidegger na Introdução a SZ.
    • Interpretação de Emilio Betti acerca de uma possível metodologia.
    • Leitura de Leo Strauss quanto ao interlocutor central.
  • A hermenêutica de Gadamer pode ser situada a partir de Heidegger, desde que se considerem os deslocamentos que a caracterizam, uma vez que, ao contrário de SZ, não se oferece uma Analítica da existência centrada nos existenciais ou na questão do ser, mas uma fenomenologia do acontecimento da compreensão, apropriando de modo específico certos elementos da hermenêutica heideggeriana.
    • Ausência de uma Analítica da existência.
    • Ênfase no acontecimento da compreensão.
    • Apropriação própria de elementos heideggerianos.
  • Na hermenêutica heideggeriana da facticidade, o que mais marcou Gadamer não foi a exigência de esclarecimento dos pressupostos e de luta contra a alienação de si, mas a superação do ideal moderno de objetividade que pretendia uma verdade independente do intérprete, de modo que o sujeito que compreende aparece essencialmente implicado na compreensão, fazendo da historicidade não um limite, mas o motor da compreensão, o que fundamenta a reabilitação dos preconceitos e da historicidade.
    • Crítica ao ideal moderno de objetividade.
    • Implicação essencial do intérprete.
    • Historicidade como motor da compreensão.
    • Reabilitação dos preconceitos.
  • Embora esse sentido positivo da historicidade não seja estranho a Heidegger, sua insistência na Vorstruktur da compreensão visava à necessidade de exame crítico das pressuposições para possibilitar apropriação autêntica da existência, interrogando se as antecipações provinham das coisas mesmas ou de tradição a ser destruída ou desobstruída.
    • Vorstruktur como estrutura de antecipação.
    • Exigência de crítica das pressuposições.
    • Problema da tradição a ser destruída.
  • A orientação da investigação de Gadamer revela-se menos dramática ao privilegiar a análise do papel do preconceito e da estrutura de pertença do intérprete à sua tradição e às suas questões, especialmente no campo das ciências humanas e depois na compreensão linguística em geral, deslocando o foco da autenticidade e do ser-para-a-morte para a compreensão tal como efetivamente se realiza na arte e nas ciências humanas, configurando-se como fenomenologia do acontecimento da compreensão.
    • Ênfase na pertença à tradição.
    • Centralidade das ciências humanas.
    • Deslocamento em relação à problemática da autenticidade.
    • Fenomenologia do acontecimento.
  • O título inicialmente previsto para Vérité et méthode, Verstehen und Geschehen, remete à ideia de acontecimento inspirada em Heidegger, mas não de modo linear, pois, em SZ, Geschehen surge na análise da historicidade do Dasein e não na dos §§ 31 e 32 sobre o compreender, enquanto Gadamer aproxima-se mais de Ereignis, termo central do segundo Heidegger, compreendendo-o no sentido corrente de acontecimento para designar o advento da compreensão que não se reduz a domínio e controle.
    • Referência a Bultmann e Glauben und Verstehen.
    • Distinção entre Geschehen em SZ e Ereignis posterior.
    • Acontecimento como advir da compreensão.
    • Rejeição da ideia de controle total.
  • Dessa concepção decorre outra compreensão da tradição, pois, ao passo que Heidegger a tematiza sob o programa de destruição da tradição da ontologia por seus encobrimentos, Gadamer questiona a disponibilidade da tradição como objeto diante de nós e insiste na não soberania sobre os próprios preconceitos, oriundos de um fundo histórico que não pode ser integralmente conscientizado, descrevendo tal processo como Wirkungsgeschichte.
    • Destruição heideggeriana da tradição.
    • Não disponibilidade plena da tradição.
    • Trabalho da história como Wirkungsgeschichte.
    • Limites da reflexão consciente.
  • Duas diferenças tornam-se decisivas: enquanto Heidegger sublinha a necessidade de destruição da tradição, Gadamer destaca sua fecundidade e a distância temporal, e, além disso, redefine a relação entre Verstehen e Auslegung, pois, diferentemente da Auslegung heideggeriana orientada pela Aufklärung e pela transparência da interpretação, Gadamer evidencia a opacidade da compreensão como evento histórico que não se deixa inteiramente explicitar.
    • Fecundidade da tradição.
    • Distância temporal como produtiva.
    • Diferença entre Verstehen e Auslegung.
    • Opacidade e Undurchsichtigkeit da compreensão.
  • Ao insistir no trabalho da história, a hermenêutica de Gadamer dirige-se contra a concepção instrumental e metodológica da compreensão típica da modernidade, segundo a qual o compreender seria operação submetida a normas técnicas, ressaltando que tal redução suprime a dimensão de acontecimento, surpresa e transporte próprios da compreensão, a qual não consiste em dominar e produzir resultados verificáveis independentes do observador, mas em ser interpelado, entrar em diálogo e deixar-se transformar pelo sentido que fala linguisticamente, fazendo da compreensão um evento universal do qual não há separação entre intérprete e conteúdo.
    • Crítica à concepção metodológica moderna.
    • Método insuficiente para descrever a experiência de verdade.
    • Compreensão como diálogo e interpelação.
    • Transformação do intérprete pelo sentido.
    • Universalidade da hermenêutica e inseparabilidade do linguagem.
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